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A mostrar mensagens de março, 2020

O início da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora I

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Este conjunto de sete posts sobre o início da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora procura esclarecer algumas dúvidas designadamente, sobre a construção do portinho e a sua evolução ao longo dos séculos XIX e XX. O texto foi retirado e adaptado do livro "A Masseira Ancorense" que eu próprio e o amigo Celestino Ribeiro escrevemos em 2015.   O longo areal entre o Moureiro e Penedim (afloramento rochoso no Lugar da Gelfa), tal como a bacia natural bem abrigada por entre penedos, eram con­dições propícias às incursões de piratas e corsários do norte e da pirataria ber­bere vinda do norte de África. Por isso, a povoação de Gonti­nhães, que a partir de 1924 passou a designar-se Vila Praia de Âncora, cres­ceu afastada do mar e destes perigos, sem nunca deixar de explorar os benefí­cios que dele podia extrair. Sazonalmente, durante os meses de verão, faziam a apanha de algas para fertilizaram as terras e o peixe que nas trancadas (armadilha que consiste em estender uma rede ...

O início da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora II

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A expressão “Portinho” é a designação futura do conjun­to da reentrância, varadouro e zona envolvente onde vai nas­cer o bairro piscatório, no lugar da Lagarteira. Não refere, porém, donde vêm estes pescadores, mas presume-se, que, então, havia pescadores vindos de fora radicados neste lugar, pelo me­nos durante parte do ano. Eram pescadores que ficavam por algum tempo, dias ou semanas, livremente ou retidos pelas condições adversas do tempo e das condições de mar, acantonados pacificamente nas instalações onde os lavradores arma­zenavam o sargaço ou no aconchego precário das embarcações varadas na areia. Neste caso, geralmente, viravam a embarcação de fundo para cima e metiam-se lá dentro ao abrigo do frio noturno e da chuva. Assim descreverá em 1886, Baldaque da Silva: “Antigamente havia aqui três ou quatro barcos de pesca pertencentes a lavradores, não existindo ainda obra alguma para abrigo.”   Ainda não há qualquer referência a masseiras, mas tão só a lanchas e barcos. Ora, este t...

O início da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora III

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O período mais significativo da demanda do Portinho de Gontinhães por pescadores de A Guarda, no século XIX, insere-se no contexto geral da diáspora galega, que a poetisa Rosalia de Castro, num lamento sentido, canta:      “Este parte, aquele parte       E todos, todos se vão;      Galiza ficas sem homens,      Que possam cortar teu pão.”   Com efeito, as guerras, as convulsões políticas e sociais já decorren­tes do século anterior, agudizaram neste século as condições económicas da Galiza, mergulhando-a na insegurança e na pobreza. Eram já razões bastan­tes para partir. Entre 1825 e 1924, 43% dos nascimentos re­gistados na freguesia de Gontinhães, tinham, pelo menos, um dos progenito­res como imigrante galego, o que atesta a importân­cia que esta comunidade ganhou ao longo dos anos (Rego, 2012). Nessa época, tal como na actualidade, a emigração é a busca por melhores condições de vida e a ela recorrem os sectores mais vulneráveis da sociedade. Pinho Leal escreve com preocupação e até ...

O início da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora IV

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Em 1886, Baldaque da Silva (Capitão Tenente da Armada, engenheiro hidrográfico e membro da Comissão Permanente das Pescas) descrevia o Portinho de Gontinhães da seguinte forma: “Situado entre a embocadura do Rio Âncora e o forte do mesmo nome, fica um pequeno porto oceânico formado por dois paredões ou quebra mares convergentes, que o abrigam um pouco das vagas, a que chamam Portinho de Gontinhães ou da Lagarteira. Para o interior da praia deste porto estão as casas dos pescadores, habi­tando também na povoação de Gontinhães e nas freguesias circunvizinhas desta.”   Esclarece ainda, que nesse ano estavam registadas 5 lanchas, 28 bar­cos e 32 masseiras, portanto 65 embarcações e 164 tripulantes. Este número de tripulantes pode estar incompleto, pois em cada lan­cha pescavam cerca de 20 homens, nos barcos, que seriam catraias grandes e catraias pequenas, embarcavam 4 ou 5 tripulantes e cada masseira em­barcava 2 homens, às vezes três. Tudo somado daria um total de cerca de 300 tripulante...

O início da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora V

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Depois de todas as vicissitudes porque estes processos de estudo e intervenção passaram, acaba por decidir-se o prolongamento do molhe nor­te até à Pedra Fanequeira, algo reivindicado pela classe piscatória, que se concretiza através do telegrama de 24 de Abril de 1913. Cópia – Manda o Governo da República que o Director dos Serviços Fluviais e Marítimos (1ª Direcção) seja autorizado a dispender no ano económico corrente nos trabalhos da “Reparação do muro do cais do norte do por­tinho de Âncora até à pedra da Faniqueira” e por conta do orçamento a elaborar a quantia de seiscentos mil reis (600$000) pelo capítulo 2º artigo 18º do desenvolvimento da despesa para o ano económico de 1912-1913. Paços do Governo da República, 24 de Abril de 1913 António Maria da Silva Está conforme Porto 26 de Abril de 1913 António d’Albergaria Pereira   O sonho de o prolongar até ao baixio do Lira, respon­sável por tantos acidentes, alguns deles fatais, nunca se concretizou. Esta é, até à actualidade, a si...

O início da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora VI

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Até meados do século XIX a comunidade rural de Gonti­nhães não mostrava qualquer interesse pelos terrenos litorais, não agrícolas, desabrigados e frequente­mente invadidos pelo mar durante os temporais. Devido à crescente ac­tividade da praia de banhos e ao fluxo comercial gerado pela comunidade piscatória, a propriedade baldia no litoral passou também a ser disputada pelos proprietários rurais, comerciantes e burgueses, que queriam construir comércios ou habitações frente ao mar. A construção da Estrada Real nº 4 (Viana-Valença) em 1858 e a linha do caminho-de-ferro em 1878, deram um forte incremento ao desenvolvi­mento de Gontinhães, que se estendeu ao longo destas duas vias paralelas. Porém, a comunidade piscatória também ficou mais isolada e separada fisi­camente da comunidade rural. A comunidade piscatória competiu com a praia de banhos durante décadas pela ocupação do areal, mas face à crescente importância desta actividade e ao reduzido poder económico dos pescadores, não lhes s...

O início da comunidade piscatória em Vila Praia de Âncora VII

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O contributo dos marítimos galegos, principalmente guardeses, no desenvolvimento da pesca foi fundamental. Como referimos, em 1825 havia uma família a residir permanentemente na Lagarteira e em 1840 registadas quatro, sendo que três delas eram lideradas por elementos da família Verde. Em 1843 já havia catorze embarcações, com a particularidade que seis dedicavam-se à venda do pescado e oito pescavam para autoconsumo. Dada a tonelagem referida nas oito embarcações (entre 0,750 e 1 Ton.), as­sim como o número reduzido de tripulantes de cada uma, conclui-se que se tratavam de pequenas embarcações, certamente gamelas guardesas. Não há dúvidas que os primeiros barcos a visitar a enseada da La­garteira deviam ser lanchas e barcos de tipologia poveira, mas os primeiros imigrantes vieram apetrechados com embarcações mais pequenas, mais po­bres, tal como eles, que tinham de abandonar as suas terras na busca do sustento. As gamelas, ou masseiras, de estrutura mais modesta e simples, fo­ram as qu...

Farol de Montedor faz 110 anos

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Faz hoje, sexta-feira, 20 de março, 110 anos que começou a funcionar o Farol de Montedor, localizado no Lugar de Montedor, Freguesia de Carreço (8 km a norte de Viana do Castelo). Com 28 metros de altura, tem um alcance de 22 milhas (40 km). É um dos 15 faróis visitáveis em Portugal continental que integram o programa lançado pela Marinha Portuguesa. Assim sendo, todas as quartas-feiras, das 14h00 às 17h00, no período de verão e das 13h30 às 16h30, no período de inverno, aproveite as visitas gratuitas para conhecer por dentro este magnífico farol. Não há dois faróis iguais, cada um tem características físicas e um código de luz próprio. No entanto, Informa-se que os Faróis e o Núcleo Museológico da Direção de Faróis se encontram encerrados a visitas por tempo indeterminado, como medida preventiva para conter a propagação do coronavírus (Covid-19). Para um conhecimento mais pormenorizado deste farol pode consultar  aqui o meu post de 2008. Fotos e texto do blog olharviana.blogspot.pt ...

As epidemias no Vale do Âncora

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Ciclicamente, despontavam surtos de doença que provocavam picos de mortalidade na região. Quando atingia o estatuto de epidemia, afectava principalmente os grupos populacionais mais frágeis e desfavorecidos, como o da Lagarteira, que trabalhavam e viviam em condições de segurança e de higiene mais precárias. No século XIV a peste negra que varreu a Europa dizimando cerca de 30% da população talvez tenha sido a epidemia mais mortífera, mas outras se seguiram quer no século XVII com diversos surtos de tifo, quer no século XIX com os surtos de cólera que começaram por 1833 e se prolongaram até 1852, resultaram em falta de mão-de-obra, levando à escassez de cereais e ao aumento exponencial do preço destes, decorrendo situações de fome e pobreza, agravando as precárias condições de higiene e subnutrição. Em 1895 uma epidemia de varíola varre Gontinhães, sendo 60,9% dos óbitos registados na zona litoral da freguesia. Especialmente nos meses mais quentes, as epidemias de varíola e tifo ou dif...

A pandemia de 1918 no Alto Minho

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Ainda o Vale do Minho não se tinha refeito da epidemia de cólera que levou em 1885 ao fecho da fronteira, quando rebentou em todo o mundo outro vírus tão ou mais perigoso do que aquele que grassara 30 anos antes. Estávamos em 1918 e acabara a Grande Guerra. A pneumónica, também conhecida como gripe espanhola, estava a ceifar vidas aos milhares por onde passava. O contágio disseminou-se com a desmobilização das tropas na Europa e rapidamente alastrou até Portugal, com particular incidência no norte. “ A doença varreu o país a uma grande velocidade, tanto assim que a falta de caixões para os funerais foi um dos resultados imediatos, o que fazia que muitas famílias os comprassem por antecipação e guardassem debaixo das camas onde os seus membros agonizavam ”, escreveu o Diário de Notícias num artigo em 2018, no ano em que passaram 100 anos sobre este flagelo. “ As deploráveis condições de vida, agravadas pelos efeitos da I Grande Guerra, facilitaram a rápida propagação da gripe, a par de ...