Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2007

Carta ao meu primo António Castilho

Imagem
Encontrei meramente por acaso o teu blog, uma noite como hoje, em que fiquei a trabalhar e já chateado com o serviço, sem nada para fazer, mas com a obrigação de lá permanecer, comecei a dedilhar teclas, cheirar sites e mais sites, blogs e mais blogs, até que encontrei recordações de infância e adolescência. Li e reli, procurei, encontrei o nome do bloguista e resmunguei de forma idiota “ mas este é o meu primo, caraças”. A história denunciante foi a da faca. “Oh Leta, traz-me a faca para matar o ladrão”. Essa, ouvi-a dúzias de vezes desde miúdo da boca da minha mãe, pois era uma piada repetida, vezes sem conta, em qualquer evocação de peripécias familiares. Depois dessa noite de solitária pesquisa, outras houve que levado pela curiosidade, mas também pela convicção e surpresa da qualidade literária dos teus escritos, voltei às tuas loucuras, voltei à tua imaginação, às tuas histórias. Ainda não acabei, nem sequer vou a meio; sei lá onde vou, sem destino, lendo c...

Um "shot" muito especial...

Dois amigos de longa data, o Pedro e o João, combinam sair um sábado à noite para dar uma volta e beber uns copos, pelos bares da zona. Ao início da madrugada, entram num bar, um dos poucos que ainda não conheciam. Ambiente acolhedor, boa música, encostam-se ao balcão e perguntam ao barman: - Então, tendes alguma bebida especial? - Claro, temos um “shot” especial, querem provar? - Sim, põe dois. As bebidas eram realmente estupendas e eles repetiram uma e outra vez. A certa altura chamaram o barman e perguntaram-lhe quais eram os ingredientes daquele “shot” especial. - O normal, um pouco disto, uma gota daquilo. Apenas vos posso dizer que é feito à base de gasolina de avião. O resto é segredo do patrão e não estamos autorizados a revelar. Saíram quando o bar encerrou, despediram-se e rumaram às suas casas para dormir. Ao fim da manhã seguinte, o telemóvel do Pedro toca insistentemente na mesinha de cabeceira. Acordou estremunhado, atendeu e ouviu a voz do João que...

A Capela de S. Pedro Varais

Imagem
  A origem Esta capela fica na Freguesia de Vile, bem no centro do Vale do Âncora. O povoamento desta freguesia, que é uma parte da paróquia medieval de S. Pedro de Varais, é documentada arqueologicamente antes do séc. XII pelo “Castro do Medo”, o “Corucho do Mouro” e a “Anta do pinhal do Santo de Vile”. No séc. IX, o local denominava-se “Villa” e no séc. XI “Villar de Villa”. Até 1641 Vile mantém-se ligada (com a freguesia de Azevedo) à Paróquia de S. Pedro de Varais. A capela de S. Pedro de Varais, está situada numa área montanhosa dos contrafortes da Serra D`Arga e é desconhecida a data da sua construção, apontando-se como mais provável o final do séc. XII e o início do séc. XIII, sendo certo que já é referida numa Bula de 1320 do Papa João XXII, que concede a D. Dinis por três anos e para ajuda da guerra contra os mouros, a décima de todas as rendas eclesiásticas dos seus reinos, com excepção das igrejas, comendas e benefíc...

As choupas...e o Mitra

Imagem
Desde pequeno que gosto de pescar, comecei no rio a apanhar mujos e enguias, só muito mais tarde aprendi a pescar no mar. O equipamento era rudimentar, as canas eram "da India", as linhas duravam anos e só eram trocadas quando estavam manifestamente podres. O meu primeiro carreto de mar, foi um Sofi ao qual lhe perdi o rasto, se calhar emprestei-o a alguém e esqueci-me. As primeiras pescarias eram feitas à noite no praial de Âncora, em conjunto com outros colegas, que também tinham o gosto pela pesca. Apanhavam-se uns cachiços e umas chincaronas ou umas fanecas, de verão com o mar "chão". Ainda sou do tempo de levar uma vela, que acendíamos dentro dum buraco cavado na areia, para termos luz para iscar e desensarilhar as tansas. Focos eléctricos eram luxos raros, os quais não estavam ao nosso alcance. Aprendi umas coisas com o Cabuca, naquela altura um "ferrinho" da pesca e um conhecedor das condições do mar. "Hoje não vale a pena, porque o mar mexe mu...

O filho da puta (1ª parte)

  Estas crónicas do filho da p*** são apenas uma mera cópia de uns originais que li há muitos anos e que procurei reproduzir o melhor que pude, introduzindo novas variedades, novas espécies de filhos da p***, uma raça em constante evolução. O filho da p*** existe e encontra-se em todos os sítios e em todos os ambientes. Do pouco que se sabe acerca dele, de como a sua roupa e a sua figura não basta para o definir, restam alguns traços que o caracterizam - os seus gostos e lugares preferidos, as suas grandes especializações, o seu sistema de entreajuda, perguntas que faz, a sua sempre escondida vida particular, a sua casa lar como lugar excelso, os seus modos de recreio e diversão, os seus tiques e aspectos anedóticos, os seus temores e receios, enfim, de como é, acima de tudo, um filho da p***. A grande dúvida que ainda existe em relação ao filho da p*** é se ele já nasce filho da p*** ou se a vida é que o faz... Pois, o filho da p*** também vai à pesca. Encontramo-lo por aí, sozinho ou...

Portugal (muito) mais pobre

Artigo escrito e publicado no Terra e Mar em Outubro de 2004   No Verão que agora terminou, Portugal ultrapassou todos os limites, por mais pessimistas que fossem, em termos de incêndios florestais. Cerca de 500.000 hectares de área ardida, 20 mortos, centenas de feridos, desalojados e desempregados, dezenas de milhões de contos de prejuízos. Uma catástrofe em três vertentes: AMBIENTAL, SOCIAL e ECONÓMICA . Se já não havia dúvidas sobre o posicionamento de Portugal na cauda da Europa, esta situação veio reconfirmar esta posição, ao lado de outros países que não acautelam os seus recursos naturais, que não investem na protecção da natureza, da biodiversidade e da qualidade de vida dos cidadãos, que prometem, há décadas, reordenar o espaço florestal, limitando-se a agir em cima dos acontecimentos como “baratas tontas”, visitando as zonas de catástrofe com ar compungido e hipócrita. Os meios eram insuficientes, faltavam homens, faltavam viaturas, faltava água, faltavam meios aé...

Uma noite de trovoada

Já aqui contei uma pequena história relativa às minhas andanças campistas e hoje vai sair outra peripécia. Estávamos acampados na Galiza, algures num parque das Rias Baixas, eu a minha filha Joana e o Pedro, um amigo de longa data, também apaixonado pelas salutares escapadas da primavera e do verão. Quando lá cheguei, já ele estava instalado, o sítio era bom, mas tinha um pequeno defeito, pois o sol batia nas tendas logo de manhã, o que nos obrigava a levantar relativamente cedo, se não quiséssemos uma sessão de sauna. Lembro-me que a tenda do Pedro ficou do lado do meu quarto (eu tenho um T2 com sala ao meio) e sobrava bastante espaço exterior para estacionar os carros, as mesas, a corda da roupa, a louça, as cadeiras e o resto das coisas que um pouco desordenadamente vamos espalhando. Depois de umas braçadas e outras tantas palhaçadas na piscina, uma “bejeca” e ala, de se faz tarde para ir às compras, um supermercado ao qual fomos a pé e que nos fez gastar mais algumas cal...

A Bela e o Monstro IV

O cruzamento com a rua do centro de saúde aproximava-se a velocidade vertiginosa. Para trás ficara a praceta e um mar de gente, que fugiu espavorida, quando a frente do enorme BMW lhes foi apontada. Os ocupantes lembravam-se de ter batido em qualquer coisa e ficado com o para brisas coberto de tremoços e pipocas. Pipocas??? Como raio foram parar ao automóvel. Só se foi alguém que as atirou, numa tentativa frustrada para travar a fuga. O Bertinho agarrado ao volante, os limpa-vidros funcionavam e faziam voar os tremoços, o “pencudo” ao lado, com um facalhão na mão, rosnava algo que ninguém entendia. Quase em cima do cruzamento, o Bertinho travou forte, reduziu para segunda com um forte arranhar da caixa, rodou o volante, acelerou a fundo provocando uma derrapagem, que só terminou quando o guarda lamas direito encontrou o “mupi”, que anunciava uma nova formula de dentífrico, infalível no branqueamento dos dentes. O “mupi” é que perdeu logo os dentes, co...

O Abel da Chocalha

Imagem
  Não conheci pessoalmente o meu avô materno Abel Nascimento Brito, de sua graça. Quando eu nasci, já ele tinha falecido há cerca de 10 anos. Era pai de quatro raparigas, quatro manas, como eu carinhosamente lhes chamo, até porque uma delas é minha mãe. Teve um filho mais novo, o António, que morreu ainda criança. O Abel era um senhor dotado de uma calma monástica, que nada o fazia enervar, que nada o apressava, característica que certamente herdou do seu pai Luís Brito, nascido criado e vivido em Segadães, às portas de Valença do Minho. Eu disse que nada o apressava, mas não é totalmente verdade, porque apenas umas saias tinham o condão de espevitar o pachorrento Abel.   O meu avô materno era conhecido pelo Abel da Chocalha, apelido que herdou da sogra do seu primeiro matrimónio Maria José Gandra, que curiosamente foi sua ama de leite. A Chocalha era de Gontinhães, mas por artes do acaso, foi ter a Segadães onde desempenhou a função de ama de leite do Abel, nascido em 1880 e do Manuel...

Saneamento, para quê? (1ª parte)

Nos tempos que correm, o acesso à água como recurso estratégico motiva enormes esforços e condiciona grandes decisões. São frequentemente conhecidas disputas judiciais e até confrontações físicas originadas pela partilha das águas, principalmente em comunidades rurais. O acesso à água e o acesso a fontes de energia fóssil movem a vontade política dos nossos dias, sendo percutores de conflitos armados e ocupações ilegais de territórios como a recente invasão do Iraque ou a ocupação dos Montes Golan por Israel, principal fonte de abastecimento de água potável do estado hebraico. Durante as ultimas décadas, com a transferencia das populações das regiões rurais e interiores para as zonas litorais mais industrializadas e com maior concentração de serviços, o esforço na melhoria das redes de saneamento básico não teve efeito de proporcionalidade, sendo quase sempre um investimento tardio e feito com alguma má vontade. "É obra para enterrar e ninguém se lembra dela" foi e continua a...

Os proverbios do pessimista

- Quem ri por último............................é de compreensão lenta. - Os últimos são sempre................................desclassificados. - Quem o feio ama..................................tem que ir ao oculista. - Deitar cedo e cedo erguer................................dá muito sono. - Filho de peixe .......................................é tão feio como o pai. - Quem não arrisca.................................................não se lixa. - O pior cego.......................é o que não quer cão, nem bengala. - Quem dá aos pobres........................................fica mais teso. - Há males que vêm.....................................................e ficam. - Gato escaldado...................................geralmente esta morto. - Mais vale tarde......................................que muito mais tarde. - Cada macaco...........................................com a sua macaca. - Águas passadas.................................................já passaram. - Depois da tempe...

A Bela e o Monstro III

Já passava das duas da tarde e o espectáculo continuava. Os mirones eram cada vez mais, apesar de alguns terem ido a casa meter uma bucha rápida, outros tinham-se desenrascado numa das tascas das imediações. Na churrasqueira do mercado, já tinham acabado com as pataniscas, os panados e o prato do dia, feijoada à transmontana, tinha desaparecido como o fumo ao vento. Agora estavam a aviar bifanas, bolinhos de bacalhau e rissóis feitos a toda a velocidade. Os reforços da polícia chegaram, mas em vez da polícia de choque, vieram uns gajos vestidos à ninja, todos de preto, as caras cobertas com gorros, que se posicionaram por detrás das duas carrinhas que os transportaram. Chegaram também os jornalistas, que instalaram câmaras de filmar em vários pontos da praceta, nos melhores ângulos, para cobrirem uma mais que provável intervenção da polícia, pois os gajos lá dentro, nem tugiam, nem mugiam. Por todo o lado, viam-se jornalistas de microfone na mão, a entrevistar a populaça. Ao negociador...