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A mostrar mensagens de março, 2008

Nos mares do Norte (3ª parte)

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Toda a noite tremeu de frio. De inicio ainda tentou movimentar os braços na tentativa de não arrefecer, mas chegou à conclusão que não adiantava. Manteve-se sentado no banco do meio com a samarra e o casaco de oleado bem apertados, tapou-se com a vela, mas o frio era cortante. Por mais de uma vez pareceu-lhe ouvir barulho, sustinha a respiração, virava a cabeça na direcção de onde lhe parecia que vinha o som. Pegava no búzio e soprava, soprava até até lhe faltar o fôlego. O barco do Raposo chapinhava a meia dúzia de braças do seu, unidos pela amarra e pelo destino. Na madrugada dos mares do norte o Chico esperava estoicamente a ajuda que os seus camaradas não lhe regateariam. - Quando a névoa levantar vou encontrá-los. Até pode ser que aviste outro barco, um dos muitos que pescam nestas águas. O Chico não era muito dado à Igreja, nem a rezas, mas deu por si a pensar no Senhor dos Aflitos, aquele santo que estava no nicho junto ao farol, no Portinho de Âncora. Amanheceu com ...

Farol de Montedor

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Designação Farol de Montedor   Localização Viana do Castelo, Freguesia de Carreço, Lugar de Montedor   Protecção Inexistente   Enquadramento Rural, isolado, integração harmónica na periferia do aglomerado, no topo de colina destacada, sobranceira à orla costeira, coberta de mato e pinhal, estando ladeado por duas antenas de telecomunicações. O edifício do Farol está inserido em amplo terreno murado, de contorno rectangular irregular, delimitado por muro de alvenaria de granito, rebocado e pintado de branco na frontaria, apresentando a envolver os edifícios espaços de uso dos faroleiros; estes, encontram-se relvados e ajardinados, com hortas, capoeiras, lavadouro, cisternas, um pequeno parque infantil, instalações oficinais e garagens, com áreas de circulação em terra batida e pontuado por algumas árvores.   Descrição Edifício de planta em U invertido, fechado, integrando, ao centro e avançado da ala S., torre de farol, quadrangular. Volumes articulados horizontalmente, com coberturas d...

Erros de Impressão

Ao pegar num jornal, encontra-se frequentemente qualquer coisa mal impressa ou equívoca. No entanto, estes enganos podem tornar os jornais muito mais divertidos... Alguns exemplos: "O acidente aconteceu na Rua da Colina e na Av. Sta. Bárbara quando o morto estava a atravessar o cruzamento." "No discurso, a Drª Maria do Rosário contou episódios divertidos mostrando slides com o seu gorila de estimação. Ela disse que, embora muitas senhoras se pudessem sentir assustadas vivendo com um animal tão grande, ela não sentiu dificuldades quando passou 20 anos na selva com o seu marido." "Estou certo de que vai haver muita gente a querer ver este filme uma segunda vez, especialmente se tiverem perdido a primeira." "A D. Rosa, cujo marido trabalha na Portugal Telecom, tem dois filhos, um com quatro anos e meio e uma com nove, mas não são gémeos." "O outro motorista declarou que o Sr. Silva cheirava a vinho. Um polícia também." "Lamentamos ver...

DA MONARQUIA AO 25 DE ABRIL XII

Movimento das Forças Armadas (MFA) O nascimento do Movimento dos Capitães encontra-se ligado à publicação dos Decretos-Leis n.os 353, de 13 de Julho de 1973, e 409, de 20 de Agosto do mesmo ano, por meio dos quais se pretendia resolver o problema da falta de oficiais com que o Exército se debatia perante a continuação da Guerra Colonial. Contudo, a evolução do Movimento não deve ser entendida apenas numa perspectiva corporativista, já que a contestação ao Governo não abrandou com a suspensão dos dois diplomas. Pelo contrário, as reuniões destes militares continuaram e o movimento politizou-se. A recusa de Marcello Caetano em aceitar uma solução política para a guerra levou a que os oficiais de nível intermédio, que suportavam realmente o combate no teatro de operações, percebessem que o fim do conflito passava pelo derrube do regime do Estado Novo. Os capitães sabiam ser este também o sentimento geral da população. Sabiam ainda, após a publicação do livro de Spínola Portugal e o Futuro...

Nos mares do Norte (2ª parte)

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Ainda era noite quando sentiu o arrastar dos tamancos e a cantilena dos “Louvados” que o homem de quarto usava para acordar os pescadores. Parecia que tinha acabado de se deitar. Levantou-se estremunhado, calçou as botas, vestiu a samarra e comeu um naco de pão da véspera e um púcaro de café que o novo “moço” da cozinha tinha pousado sobre a mesa. Preparou o baú com a merenda, foi buscar a isca para ele e para o Raposo, subiu ao convés para ajudar a arrear os doris, primeiro os mais velhos, por último os “verdes”. O céu estava encoberto e já se adivinhava alguma névoa. Com o nascer do dia iria levantar, era costume. O Capitão Maldonado tinha-os avisado: “Todos a pescar aqui perto, ninguém se afasta. Se tocar o sino, regressem de imediato”. Nem era preciso avisar, mesmo os mais afoitos não gostavam de se afastar do navio quando havia névoa. O Chico aproximou o seu doris da embarcação do Raposo que lhe comunicou a intenção de pescar para lá ...

A praia das crianças

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A praia de Vila Praia de Âncora é ainda hoje conhecida pela "praia das crianças" devido à segurança das suas águas balneares. Ao longo do século vinte cimentou o remome de estancia balnear, com famílias que ano após ano regressavam para mais um mês de férias. Mais tarde, muitas dessas famílias adquiriram aqui casa própria, enquanto outras rumaram para paragens mais tranquilas quando na decada de setenta e oitenta se assistiu a uma explosão urbanistica que descaracterizou profunda e irremediavelmente a vila piscatória a que estavam habituados.   Foto na qual se pode apreciar a torre da capela e os montes sobranceiros totalmente cobertos de pinheiros.     Av. Ramos Pereira ainda sem o "desenvolvimento" do betão     As barracas em 1915     Foto de 1915, ainda não se vê ninguem em fato de banho     Junto à zona de banhos, com o Forte da Lagarteira ao fundo. Década de sessenta.     As crianças brincam na foz do Rio Âncora, no mar os barcos fundeados no Sabugo     O Redon...

As cheias e o ordenamento do território

  Após um período de seca que trouxe à memória de todos as dificuldades de 2005, vivemos recentemente mais um episódio de cheias, que ocorreram um pouco por todo o país, particularmente na zona de Lisboa, na sequência de uma pluviosidade intensa e concentrada. Os fenómenos climáticos extremos vieram para ficar, mas as estratégias de prevenção dos mesmos, ou a falta delas, parecem teimar em ignorar e repetir os erros do passado.   Apesar do Ministro do Ambiente afirmar categoricamente (???) que as cheias não derivam de problemas do ordenamento do território, mas sim da falta de limpeza dos cursos de água, a verdade é que os efeitos das cheias são, acima de tudo, uma consequência do mau ordenamento do território. As cheias são um fenómeno natural, característico dos cursos de água de regiões com regimes climáticos torrenciais, como é o caso de Portugal, e historicamente foram encaradas pelo homem como uma benesse, uma vez que enriquecem de nutrientes as áreas inundadas, tornando os solos...

DA MONARQUIA AO 25 DE ABRIL XI

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  Ala Liberal   Os deputados da chamada Ala Liberal constituíram uma jovem geração de políticos adeptos de uma forte liberalização do regime do Estado Novo. Das listas do partido único (a União Nacional) às eleições de 1969, faziam parte os deputados independentes António Pinto Leite, Francisco de Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão, Magalhães Mota e Miller Guerra. Um total de 30 deputados formaram a "ala liberal" da futura Assembleia. Sá Carneiro iria afirmar-se como um dos mais activos elementos do grupo.   Entre 1970 e 1971, o número de detenções por motivos políticos voltou a aumentar, não só de militantes do PCP como de outras personalidades, entre elas Jaime Gama, Francisco Salgado Zenha e Raul Rego. Os ecos da violência e da ilegalidade dos métodos usados na instrução dos processos foram denunciados por apoiantes dos presos e chegaram à Assembleia Nacional pela voz de Sá Carneiro e de outros deputados "liberais". O recuo no terreno das liberdades expressava...

Nos mares do Norte (1ª parte)

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O Chico já andava ao bacalhau há quase três anos. Tinha embarcado como “moço”, com quinze anos e nas duas primeiras viagens foi ajudante do cozinheiro. Mas quando a cozinha estava fechada havia sempre qualquer coisa para fazer. “Ó Chico, vai buscar um novelo de fio ao porão”, “Ó Chico, vai carregar sal”, era assim todo o dia e parte da noite, restando umas magras horas para descansar na tarimba. O rapaz era magro, mas rijo e comida não lhe faltava na cozinha. Podia ser sempre a mesma coisa, mas nesse particular, era um dos poucos privilegiados a bordo. Já fazia a “chora” tão bem ou melhor que o cozinheiro com quem tinha aprendido e não havia nada na cozinha que já não soubesse fazer.   Na terceira viagem o Capitão Maldonado, o “Ferreiro”, como lhe chamavam à boca pequena, debruçado no varandim da amurada, olhou-o com atenção quando cruzou o portaló, com o saco da roupa às costas. - Vai arrumar isso e anda ter comigo à câmara. -...