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A mostrar mensagens de maio, 2007

A Bela e o Monstro VIII

A vida voltava lentamente à normalidade. O Bertinho retomara o trabalho na mercearia, o Gonçalves “Adesivo” continuava a dar e a ter sempre com a língua afiada como uma navalha, o Zé Bastos ia e vinha afadigado com as caixas da fruta e dos legumes. A Júlia recuperara do susto, o Simplício fora à sucata entregar o maltratado Fiat 127 e lá mesmo lhe indicaram um carro “jeitoso”, que estava à venda no stand da avenida, por detrás da Câmara, um Ford Fiesta, já com uns anitos, mas em bom estado de chapa e de motor. Pelo menos foi o que lhe garantiram e foi já no seu Fiesta verde escuro, que se apresentou em frente da loja, buzinou duas vezes e esperou que a Júlia viesse à porta. Mas quem apareceu foi o Bertinho, que se baixou para ver melhor, quem estava ao volante. - D. Júlia, venha cá depressa, que está aqui alguém a chamá-la – diz o Bertinho, virado para dentro da loja. - Então que se…Simplício, filho onde foste buscar esse cangalho? - Cangalho? Ora es...

O Pincho

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O Pincho situa-se na freguesia de S. Lourenço da Montaria, embora seja consideravelmente mais fácil aceder-lhe pela vizinha freguesia do Amonde. Outrora era um local de difícil acesso apenas servido por um estreito caminho de monte que eu e os meus amigos, na adolescência, percorríamos a pé, pois nem as bicicletas conseguiam passar.       Era um dos locais preferidos da malta de Âncora para passar uma tarde de verão, principalmente quando a nortada nos afugentava da praia. De bicicleta íamos até ao Amonde e deixávamos as “pasteleiras” numa quinta que, simpaticamente, a proprietária nos permitia a entrada. - Ah… são os moços de Âncora? Ponham aí as bicicletas, ao pé do portão, que ninguém lhes mexe! Ouvi estas frases vezes sem conta. Depois eram vinte minutos a pé por um caminho que mal se distinguia do resto do monte, ora a subir, ora a descer, até atingirmos aquele local paradisíaco só ao alcance de alguns, sim de alguns, porque havia muita gente que ia lá uma vez e ...

Uma concertina perigosa

O Porfírio encostou-se à parede e começou a tocar um tango na sua concertina. Era sábado à tarde, já tinham feito contas, as pescas eram poucas, mas sempre dava para o caldo. Desde que chegara da Argentina, mesmo depois de casado com a Maria tinha por habito fazer-se acompanhar da concertina que trouxera das pampas. Não só tocava os viras minhotos, como se apaixonara pelos tangos de sabor ultramarino. O Porfírio sabia que não demorava nada, para o povo se aproximar e dançar. Já era costume. Das ruas dos Pescadores e da 13 de Fevereiro, gente assomava às portas, as crianças corriam alvoroçadas em direcção ao músico. Com um acorde final, encolheu o fole da concertina, sorriu para a plateia e preparou um cigarro. Da porta da loja do Anacleto, alguém o chamou, em voz alta. - Porfírio, anda beber uma malga, para afinar essa garganta! - Já lá vou, deixai-me primeiro tocar mais uma. E recomeçou a tocar com a beata no canto da boca, a boina atirada para trás. Que saudades que tinha da Argentin...

Está a chegar o verão!

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Mais uma vez estamos às portas de novo período estival, com as almejadas e merecidas férias. Vila Praia de Âncora como destino turístico que é há muitos anos, espera as enchentes costumeiras, com a praia a abarrotar, os estacionamentos sempre difíceis, os restaurantes cheios, as casas mais ou menos alugadas, o bulício do costume.   Bem, espero que não seja tudo como o costume e vocês já sabem porquê! Esta “marmelada” da poluição no rio tem de acabar, tem de ser obra do passado, tantas vezes repetido. No ano passado foi uma desgraça com a praia a ser interditada e com um cenário, no mínimo surrealista, de se saber onde era ou deixava de ser a praia das crianças. Que isso é coisa que até nem me importa.   O essencial é não ter poluição do rio até ao final da época balnear, sem as escandaleiras acostumadas há mais de dez anos. E a situação em vez de melhorar, piora a cada ano que passa, apesar das intenções e das promessas dos nossos autarcas. Se calhar estou a ser profeta da d...

O Juca do Chiné

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Já aqui contei que a minha infância passou-se entre a rua 5 de Outubro e o Largo do Sol Posto. No tempo em que ainda não havia televisão, nem computadores, nem consolas, nem sequer bicicletas para nos entreter, as nossas brincadeiras variavam conforme as temporadas e nunca percebi quem ditava ou quem comandava essas mudanças. Por exemplo, quando começava a escola, em Outubro, era tempo do pião, semanas depois, passava toda a rapaziada a jogar ao eixo, ao espeto, ao botão ou à bilharda, já não me lembro, como era a sequencia. Havia no entanto alguns jogos que eram universais e que os utilizávamos a qualquer momento, dependia dos parceiros, se éramos muitos, jogávamos à bola, se éramos poucos, podia-se “andar” às escondidas ou aos “cóbois”.   Os desafios de futebol do Sol Posto eram famosos e às vezes até tinham assistência. Os do Sol Posto desafiavam ou eram desafiados pelos rapazes dos outros lugares. As balizas eram o portão preto da quinta ao norte e o portão d...

Emp. Lacticínios Âncora (IV e ultima parte)

Como os gajos bestiais passam a bestas Uma segunda-feira, peguei no Clio comercial que me estava distribuído e arranquei para o sul, onde me esperava a Maria Paula, nossa agente em Lisboa e que estava encarregue de não deixar parar a máquina, que recolhia as encomendas nas lojas, recepcionava as mercadorias vindas da fábrica e as entregava nas melhores condições aos clientes. Isto duas vezes por semana. Esta mulher nem tempo tinha para se coçar. Originalmente o agente tinha sido o pai dela, o sr. Manuel Maria Silva com quem ainda aprendi algumas coisas, pois era um comercial de primeira divisão, adepto ferrenho do Belenenses, tinha-lhe dado um AVC, resistiu uma semana e finou-se. Ficou a filha em seu lugar, que tinha trabalhado num semanário qualquer, como administrativa. Tinha a dinâmica e a disponibilidade do pai, faltava-lhe a experiência, que ganhou em pouco tempo.   Apesar de saber como a zona estava trabalhada e confiar no trabalho do meu antecessor, o Camilo, decidi que iria lev...

Deixem as crianças em paz!

Mais um caso arrepiante passado com crianças tem entrado diariamente em nossas casas, pelas televisões e pelos jornais. Refiro-me à criança inglesa que desapareceu no Algarve, da cama de um quarto, situado num aldeamento de luxo, que se supunha tranquilo e seguro. Acho que ninguém no seu juízo perfeito não é solidário com aqueles pobres pais e não apoia os esforços dos nossos polícias. Mas é notório que houve e continua a haver um tratamento diferenciado neste caso. Se fosse uma criança portuguesa filha de uns “desgraçados” quaisquer, fazia-se uma investigação com meia dúzia de agentes e quando os meios de comunicação perdessem o interesse, por haver algum acontecimento ainda mais suculento, o caso ia lentamente morrendo na poeira do esquecimento. Pelo menos desta vez não foi assim e é, apesar de tudo, de louvar. Só que dez dias depois do desaparecimento os resultados são nulos e parece que a menina se desvaneceu no ar. Ninguém a viu, os cães não detectaram qualquer rasto, a...

Escola de pára-quedistas

A 4.000 metros de altitude o instrutor de pára-quedismo faz as ultimas recomendações aos novos alunos: - Já sabem, após o salto, contam até dez, puxam a argola e abre-se o pára-quedas. Pouco depois, após todos terem saltado, o piloto do avião repara que apenas um dos alunos desce vertiginosamente, ainda sem o pára-quedas aberto e diz para o instrutor: -Olha, lá vai o gago...

Capela de Nossa Senhora da Bonança

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    Localização Vila Praia de Âncora, Pç. da República   Protecção Inexistente   Enquadramento Urbano, flanqueado, implantação harmónica. Integrado no tecido urbano, com frontaria voltada para um largo em dois níveis, unidos por escadaria, que constituem o seu adro, calcetamento em laje de granito. Portal com acesso por escadaria de cinco degraus semicirculares.   Descrição Planta longitudinal composta, por nave e capela-mor mais baixa e ligeiramente mais estreita, com sala anexa, baixa e poligonal, de dois pisos, e torre sineira quadrangular a Sul, adossada à fachada principal. Coberturas escalonadas com telhados de duas águas na nave e capela-mor, de três na sacristia e coruchéu piramidal na torre. Frontaria, orientada a Oeste, com embasamento saliente e rematada em empena recortada, coroada por cruz latina, alta. Portal axial de pés-direitos ressaltados sobrepujado por frontão curvo que abriga o símbolo das iniciais da família Medeiros; encima-o janelão rematado em arco pleno, assen...

Euclides, o comunista

O vento chegava em rajadas, era vento de norte, o frio cortava e a rua não oferecia abrigo aos raros peões que se atreviam a sair. O Domingos Verde aconchegou o grosso sobretudo regulamentar, que vestia sobre o blusão azul-escuro, quase negro, da farda policial. Pesava-lhe o cinturão largo, que suportava a pistola e o casse-tete, doíam-lhe os pés, depois de ter passado quase todo o turno de giro em Leça, desde a praia, até ao quartel dos bombeiros, ziguezagueando por uma infinidade de ruas. Fez esse percurso várias vezes, só tinha parado ao início da manhã para entrar na leitaria do Esteves e tomar um galão e um pão com manteiga, não esteve parado mais de dez minutos, nunca se sabe quem está a observar, para mais, ele ainda era novo na corporação. Ao passar junto ao gradeamento do quartel, um carro vem em sentido contrário, afrouxa e pára a meia dúzia de metros. O condutor baixa o vidro e chama o jovem polícia de turno: - Senhor agente, uma informação. Onde fica a pensão Godinho? - A p...

Da Direcção Comercial da ELA à beira do Abismo (3ª parte)

Uma coisa tem de ser dita em abono da verdade. O Manuel de Sousa, director comercial da Empresa de Lacticínios Âncora e meu chefe directo, nunca me pressionou para nada. Também não precisava, porque eu procurava estar sempre um passo à frente e suprir todas as necessidades do departamento, pôr-lhe “a papinha pronta”. Estávamos em 95 ou 96 e a construção da nova fábrica tinha trazido à tona todas as dificuldades que ainda não se viam, mas que alguns de nós, já adivinhavam.   Tinha havido um exagero na contratação de pessoal, fruto da euforia ingénua e irreflectida de quem mandava. Só porteiros haviam quatro ou cinco. No escritório havia gente a mais, que até se estorvavam uns aos outros, no departamento comercial idem, aspas. No departamento comercial havia o chefe e o adjunto que vocês já conhecem, mais quatro supervisores, o Armindo, o César, o Camilo e o Vítor, mais uma secretária (muito boa!!!) a Sandra, mais quatro ou cinco vendedores e dois ajudantes. Tinham contratado ...

A pesca em Portugal

    Sendo Portugal um país com ampla costa marítima, a pesca foi e ainda é uma actividade económica relevante, alem de um profundo enraizamento cultural com o mar e as artes a ele ligadas. Qualquer cidadão repara, por muito distraído que esteja, que a pesca já não é o que era . Ao longo dos últimos anos, perdemos o protagonismo que outrora tivemos, perdendo na pesca longínqua dos mares do norte, perdendo licenças para operar em águas estrangeiras, perdendo frota costeira, enfim perdendo actividade económica. Ganhamos em subsídios de abate, ganhamos no agravamento da nossa balança de trocas comerciais e ganhamos em bom comportamento perante as exigências obtusas da Comunidade Europeia. Em minha opinião, não ganhamos rigorosamente nada, pelo contrário, fizemos como a toupeira, que trocou os olhos por um lindo rabo . É importante analisar a evolução dos indicadores económicos das pescas na última década.     Indicadores económicos das Pescas Nacionai...