A Bela e o Monstro VIII

A vida voltava lentamente à normalidade. O Bertinho retomara o trabalho na mercearia, o Gonçalves “Adesivo” continuava a dar e a ter sempre com a língua afiada como uma navalha, o Zé Bastos ia e vinha afadigado com as caixas da fruta e dos legumes.

A Júlia recuperara do susto, o Simplício fora à sucata entregar o maltratado Fiat 127 e lá mesmo lhe indicaram um carro “jeitoso”, que estava à venda no stand da avenida, por detrás da Câmara, um Ford Fiesta, já com uns anitos, mas em bom estado de chapa e de motor.

Pelo menos foi o que lhe garantiram e foi já no seu Fiesta verde escuro, que se apresentou em frente da loja, buzinou duas vezes e esperou que a Júlia viesse à porta. Mas quem apareceu foi o Bertinho, que se baixou para ver melhor, quem estava ao volante.

- D. Júlia, venha cá depressa, que está aqui alguém a chamá-la – diz o Bertinho, virado para dentro da loja.

- Então que se…Simplício, filho onde foste buscar esse cangalho?

- Cangalho? Ora essa, de mecânica está como novo e pelo preço não podia pedir mais.

- Ora! Tu não tinhas necessidade… Tens lá na garagem o Mercedes, que nunca usas.

- Sabes bem que queria era trocá-lo por um Volkswagen Passat, destes novos…

- Passat!!! Nem penses, para andares com um carro igual ao dessa besta do “Adesivo”! Nunca! Troca pelo tu quiseres, mas Passats é que não.

- Está bem, está bem, depois falamos nisso, para já estou remediado com o Fiesta. Até logo, vou ao Libório e depois ainda passo por aqui, antes de ir para casa.

 

O Bertinho que assistira à conversa da porta da mercearia, logo comentou:

- É um carrito engraçado e para as voltas do Sr. Simplício serve bem, desde que não dê problemas.

- Continuo na minha, tem o Mercedes parado, só pega nele uma ou duas vezes por mês ou quando eu vou a Espanha. Até parece mal, uma pessoa como ele, andar naquela carripana.

Pára uma carrinha em frente à porta, sai o Zé Bastos, abre a porta lateral e começa a descarregar, caixas de alface e de repolhos. A seguir, saem dois sacos de cebola e pergunta à Júlia:

- Oh Júlia, também queres cenouras? Olha, tenho aqui uns abacaxis, que são um luxo.

- Deixa um saco de cenoura, se forem grandes. Sabes que só gosto delas grandes e lisinhas; mostra lá esses abacaxis para ver se valem alguma coisa. A propósito, diz lá ao teu irmão, que aquele doutor do Porto a quem ele vendeu a moradia, lá no monte, está furioso, porque diz que a obra está uma porcaria.

- Não pode ser! Como é que soubeste disso?

- Foi a mulher dele, que esteve aqui a fazer compras no sábado passado e contou a quem quis ouvir.

- Olha que o meu irmão é muito consciencioso, tu conhece-lo.

- Pois, por conhecê-lo é que te aviso que se calhar é melhor ele lá ir e remediar as asneiras que fez antes que seja tarde. Ainda fazem queixa dele na Câmara.

- Por aí estou eu sossegado. – Baixou a voz e segredou quase ao ouvido da Júlia - Sabes que ele manobra aquilo tudo lá dentro. Tem o engenheiro e os fiscais na mão, sabes como é! Estava aqui muita gente quando a mulher dele falou da casa?

- Estava cheia a loja, era sábado de manhã. Mas, pelos vistos, não falou disso só aqui.

- O quê? Não me digas!

- Ai digo, digo! A Suzete peixeira já me veio com esse conto. Estás a ver que já está espalhado.

- Estafermo da mulher… Vou telefonar ao meu irmão.

- Isso, sabes bem que a partir de agora, nada dessas coisas podem acontecer. Pode deitar tudo a perder – diz a Júlia.

- Ora, também não exageres.

 

O Bertinho cortava fiambre na charcutaria e esticava o pescoço em direcção ao canto das hortaliças. Por pouco não tirou uma fatia a um dedo, que ainda roçou a lâmina.

- Livra, quase dava cabo da mão…

- Se estivesses com atenção ao que estás a fazer, em vez de olhar para o que vai…- diz-lhe o Zé Bastos.

O Bertinho muito vermelho, não lhe deu a confiança de uma resposta e virou-lhe ostensivamente o traseiro.

 

- Oh Sr. Tita, aqui há mistério. Eles falam baixo, mas nota-se perfeitamente que estão combinados e o assunto é conhecido por ambos.

- Mas falam de quê? Isso é que me trás intrigado.

- Isso também eu queria saber! E agora junta-se a cada passo, a peixeira, essa também sabe do esquema deles.

- Peixeira, que peixeira?

- A Suzete, Sr. Tita, você conhece, não conhece?

- Conheço, de ginjeira… Arranjei-lhe muita caixa de carapau que trazia de Espanha e lhas passava sem lucro, só para a ajudar e agora passa por mim e faz de conta que não conhece.

- Ai a Suzete também andava no contrabando? Muito me conta.

- Nem mais um pio sobre isso, entendido? Quero é que descubras o que andam eles a tramar.

- Só sei que o Zé Bastos anda sempre a correr para Barcelos e só vem à noite.

- Bertinho, abre bem os olhos e os ouvidos, para ver se descobres algo. Lembra-te que o teu futuro pode depender disso. Entendido?

 

“Ora muito boa tarde, senhores “óbintes”. Sintoniza a Rádio Estrela, com Agostinho Moravitch ao microfone, para lhe dar as ultimas notícias. Segundo apuramos, vai iniciar-se na próxima semana, o julgamento dos assaltantes do posto dos correios. A rádio Estrela vai, naturalmente fazer amplas reportagens deste julgamento e vamos até tentar fazer um directo, na leitura da sentença. Tudo para que os nossos “óbintes” estejam informados, em cima da hora.”

 

- Quando tu acabares, vou eu também fazer o mesmo. Temos de aproveitar agora, porque é uma oportunidade única –diz a Júlia ao Zé Bastos.

- Já podias estar como eu, tu é que não quiseste começar este ano.

- Dava muito nas vistas, irmos os dois para Barcelos.

- Isso é verdade, viste há bocado, o safado do teu empregado a tentar escutar a nossa conversa.

- Vi, vi e temos de falar disso. Não podemos mais continuar a tê-lo a coscuvilhar. Mais vale trazê-lo para o nosso lado, que sempre o controlamos melhor.

- Não sei, não… Eu não confio nele, tu já sabes – dizia o Zé Bastos de cenho franzido.

- Mas eu controlo-o, só preciso que concordes, como fizeste com a Suzete.

- Oh mulher, isso é diferente. A Suzete é de confiança e o homem dela também. Agora o Bertinho, não sei. Ainda ontem o vi a falar com o contrabandista.

- Quem, o Quim Tita?

- Sim…

- Mais uma razão para trazermos o Bertinho para o nosso lado. Esse velho mafioso anda a ver se lhe dá a volta e tirar-lhe nabos da púcara.

- Deixa-me pensar, também quero falar com o meu irmão e com os de Barcelos, a ver o que eles dizem.

- Mas vê lá como lhes explicas as coisas!

 

 

 

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