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A mostrar mensagens de maio, 2020

O Pescador e o seu mundo

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A partir de finais de século XIX a Praia d’Âncora vai conhecer um cres­cimento notável, apoiado na pesca e no turismo. Se na pesca chega a atingir um lugar de destaque no conjunto dos portos do norte, o turismo provocará o aparecimento de algumas infra-estruturas que não eram habituais numa comunidade piscatória. Estamos a referir os vários hotéis, os banhos quen­tes e as casas comerciais de alguma envergadura. Os ritmos de vida da comunidade ancorense passam a ser determina­dos pelo contraste entre a azáfama do Verão, com a actividade da pesca, que mantinha as famílias dos pescadores ocupadas noite e dia, dando ao litoral um colorido e uma agitação permanentes, com barcos que fundeavam no “ Sabugo ” e outros que encalhavam na areia do portinho, com as mulheres que carregavam à cabeça os cabazes de sardinha, os pescadores remendan­do as redes ou “ safando ” os anzóis entre os barcos no varadouro. À agitação normal da actividade piscatória do Verão, juntava-se a confu­são que a chegada ...

O pescador e o seu mundo - A alimentação

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A gastronomia da classe piscatória ancorense era pobre e variava apenas com a disponibilidade dos alimentos, em função das estações do ano. A sua principal fonte de proteína era o peixe, às vezes os ovos e, mais esporadicamente, a carne de porco e as aves de capoeiras. O peixe era consumido fresco, salgado ou seco, constituindo estas duas formas de conservação uma reserva alimentar para o Inverno ou para os períodos prolongados de tempestade que os impedia de “ ir ao mar ”. Em finais do século XVIII e inícios do século XIX, uma conjuntura internacional condicionou a entrada de bacalhau, de consumo quotidiano, levando a uma atenção redobrada sobre métodos que, salgando a sardinha (e outros peixes), substituísse com êxito o “ fiel amigo ”. Esta sardinha ficou conhecida como “ de barrica ” (Amorim, Da pesca à salga da sar­dinha, 2014). Quando vinham do mar, cada pescador tinha direito a um quinhão de peixe chamado “ caldeirada ” e que era constituído por exemplares com menor valor comerci...

O pescador e o seu mundo - O casamento

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A elevada taxa de endogamia, reforçada pela estigmatização dos pes­cadores pela cultura dominante, assente na posse da terra como fonte de prestígio e de poder, acabava por promover a prevalência de determinadas características próprias das comunidades mais isoladas. De um modo geral, o homem casava cedo e as raparigas ainda mais novas, começando a proliferar de seguida. A fecundidade ilegítima foi pou­co expressiva em Gonti­nhães durante o século XVII, mas estes valores tenderam a ser bastante mais elevados, chegan­do a atingir os 16,4% entre 1860 e 1869 e os 20,2% entre 1920 e 1924. Estes valores são idênticos em toda a re­gião do Minho para os mesmos períodos, “ en­contrando-se provavel­mente associada à desproporção já referida entre sexos que induziria mui­tas mulheres a optarem pela maternidade fora do quadro do matrimónio legítimo ” (Rego, 2012). As habitações eram exíguas, pobres e espartanas, muitas vezes con­seguidas pela desafectação de espaços nas casas dos progenitores de ...

O pescador e o seu mundo - As crianças

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Cada família gerava um número farto de crianças, que aprendiam rapidamente os usos e costumes da classe. Desde muito cedo que acompa­nhavam as mães na azáfama do portinho, trepando velozes para o interior dos barcos, local preferido das brincadeiras entre irmãos, primos e vizinhos. Entre as famílias mais pobres, o rapaz era desde muito cedo posto literalmente na rua. As mulheres não gostavam de ver os filhos “ enconados ” em casa. Os rapazes passavam a infância despreocupada dias inteiros fora de casa, brincando na praia ou no “ Campado ”, só regressando a casa para as refeições. A propósito do modelo de educação da criança do meio rural, e que se pode aplicar à criança do meio piscatório, Moisés Espírito Santo, Professor universitário, etnólogo e sociólogo diz: “…visa a autonomia individual, pelo jogo criador, pelo ritual festivo, so­bretudo, pela integração da criança no mundo e no trabalho dos adultos, fazendo-se coincidir a idade da emancipação social com a idade da eman­cipação bi...

O pescador e o seu mundo - A morte

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A morte suscita em todas as sociedades reacções e sentimentos varia­dos e contraditórios, a angústia e o medo, a atracção do desconhecido, a dor e o horror do cadáver em decomposição, o receio no retorno do espírito do defunto, ao desejo que este, agora transformado em antepassado, seja uma protecção para os seus descendentes. Na maior parte das culturas, consi­dera-se que o cadáver constitui o suporte material do espírito. O primeiro desaparece com a morte, enquanto o segundo é imortal. Na comunidade piscatória a morte era sentida de forma dramática e angustiosa devido aos frequentes naufrágios. Se, pelo contrário, ela resul­tava de doença, faziam questão em se confessar, comungar e pagar alguma promessa por cumprir, ficando tranquilos com a regularização da sua vida espiritual. Se a morte era repentina, a família do morto redobrava as missas e sufrágios, de modo a compensar a falta dele não ter regularizado em vida as suas contas com Deus (Graça, 1982). Mais uma vez se reafirma a for...

O pescador e o seu mundo - A viuvez

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Porém, a vida continuava, o trabalho no mar era arriscado e as condi­ções do portinho eram más em matéria de segurança. Os acidentes ocorriam e as doenças não perdoavam. A situação mais complexa ocorria quando o falecido ou falecida deixavam filhos pequenos, filhos para “ criar ”. Era normal distribuírem as crianças por outros familiares, a começar por aqueles que melhores condições tivessem para assumir o encargo de mais uma boca a alimentar. A mulher viúva, que já tinha uma vida atarefada, quer na praia, quer em casa, tem de redobrar os esforços para conseguir pôr na mesa o susten­to dos filhos que ficaram com ela. A comunidade procura ajudar, ser solidária, mas o esforço maior é dela e dos filhos que lhe devem ajuda; na ribeira maris­cando ou pescando, no monte apanhando lenha, desempenhando pequenas tarefas que lhes permitisse ganhar alguma moeda ou uma simples merenda. No caso de ser o homem viúvo, passado um período razoável de luto, é bem aceite a busca de uma nova companheira v...

A Taberna do pescador Ancorense

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Também conhecida por “ loja ” ou “ tasca ”, era o local de sociabiliza­ção do pescador quando estava em terra. A do “Carriço”, da “ Curraca ” ou da Tilde, o “ Coxo da Faena ”, a “Raspa”, o “ Pinga ”, o “ Alberto da Linha ”, o “ Tonica ”, os “ Tirones ” ou o “ Caça-Brava ” que antes era o “ Russo ”, o “ Repimpim ”, mais tarde a “ Santola ” no largo da “ Rasga ”, são algumas das tabernas da zona do Portinho ancorense que existiram ou ainda existem na actualidade. A maioria das tabernas eram pequenas lojas de aspecto simples e humil­de, tal como os seus clientes, onde se vendiam poucos produtos, vinho tinto e branco, aguardente, ginja e o tabaco. Para além destes havia bolachas, figos, azeitonas, chocolate e por al­tura das festas alguns petiscos. O arranjo da loja era simples e o peteiro da Santa (Senhora da Bonança) ocupa­va um dos cantos. Podia ha­ver uma pequena prateleira (ou nicho) com uma imagem religiosa e uma pequena lam­parina de azeite. Na parede do fundo, por trás do balcão, s...

01 de Maio de 1872: Nasce Sidónio Pais, o "Presidente-Rei"

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Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais , nasceu no dia 1 de Maio de 1872 em Caminha e quando exercia a Presidência de Portugal, foi assassinado no dia 14 de Dezembro de 1918 por José Júlio da Costa, um ativista da esquerda republicana. Na política, Sidónio Pais, exerceu as funções de deputado, ministro do Fomento, ministro das Finanças, embaixador de Portugal em Berlim, ministro da Guerra, ministro dos Negócios Estrangeiros, presidente da Junta Revolucionária de 1917, presidente do Ministério e presidente da República Portuguesa. Exerceu a Presidência de forma ditatorial, suspendendo e alterando por decreto normas essenciais da Constituição Portuguesa de 1911. Foi popularmente cognominado o presidente-rei. Quando em 1918 ocorreu uma greve dos trabalhadores rurais no Vale de Santiago, José Júlio da Costa assumiu a posição de negociador entre as autoridades e os grevistas, alcançando um acordo. A atuação daqueles trabalhadores, liderados pela ala anarquista da Comuna da Luz de António ...