O Pescador e o seu mundo

A partir de finais de século XIX a Praia d’Âncora vai conhecer um cres­cimento notável, apoiado na pesca e no turismo. Se na pesca chega a atingir um lugar de destaque no conjunto dos portos do norte, o turismo provocará o aparecimento de algumas infra-estruturas que não eram habituais numa comunidade piscatória. Estamos a referir os vários hotéis, os banhos quen­tes e as casas comerciais de alguma envergadura.


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Os ritmos de vida da comunidade ancorense passam a ser determina­dos pelo contraste entre a azáfama do Verão, com a actividade da pesca, que mantinha as famílias dos pescadores ocupadas noite e dia, dando ao litoral um colorido e uma agitação permanentes, com barcos que fundeavam no “Sabugo” e outros que encalhavam na areia do portinho, com as mulheres que carregavam à cabeça os cabazes de sardinha, os pescadores remendan­do as redes ou “safando” os anzóis entre os barcos no varadouro.


À agitação normal da actividade piscatória do Verão, juntava-se a confu­são que a chegada de mui­tos de turistas que vinham “a banhos”. Chegado o fim do Verão, partiam os turis­tas, e as saídas para o mar tornavam-se mais espaça­das e irregulares. Quando ameaçava tempestade, os barcos eram arrastados para a parte mais alta do portinho, para o Campo do Castelo ou para o abrigo oferecido pelas ruas 13 de Fevereiro, dos Pesca­dores ou Celestino Fernandes, de modo a não serem arrastados pelo mar. A azáfama do Verão na Praia dava lugar à tranquilidade do Inverno.


A convivência com outras culturas, resultante de um processo de emi­gração, a democratização do país, o alargamento da escolaridade e a perda progressiva do peso da pesca em relação ao turismo, implicaram uma subi­da do nível de vida da maior parte das famílias, enfraquecendo a organiza­ção social da velha comunidade piscatória d’Âncora e a diluição das rígidas fronteiras de classe, que marcavam a separação entre a gente do mar e a classe média local, os agricultores, os comerciantes, os funcionários públicos e os prestadores de serviços.


Embora se tenha presente que a descontinuidade cultural deve ser entendida no tempo e não no espaço, deve-se ter em conta a dinâmica das relações entre a comunidade rural da “velha Gontinhães” e a efervescente comunidade piscatória da Lagarteira por um lado, e as relações de classe entre pescadores e não pescadores por outro, para perceber a cultura desta comunidade de pescadores.


Esta abordagem permite-nos falar da cultura dos pescadores como uma cultura popular, de classe ou como uma contracultura. Contracultura no sentido de cultura de um grupo dominado por oposição à cultura dominante, assente no valor e posse da terra como critério determinante de prestígio e poder (Cole, 1994).


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Entre os pescadores, o padrão de comportamento caracteriza-se por uma postura tranquila, mas em que os valores da coragem, a resistência física, o conhecimento das artes da pesca e dos mares, que podia ser avalia­do pelo sucesso na pesca, e o gosto pelo trabalho eram as qualidades mais importantes. O medo do mar era um dos estigmas que mais fragilizava a imagem do pescador, porque punha em causa um dos atributos fundamen­tais, simultaneamente definidor da sua virilidade e da sua capacidade para constituir ou suportar uma família.


Na comunidade piscatória da Lagarteira, tal como em outras comuni­dades marítimas, a endogamia (casamento entre membros da mesma classe) era até meados do século XX quase obri­gatória. Se um filho ou filha de pescadores casasse com alguém de fora, dizia-se que era por não conseguir arranjar par na própria terra.


A família constituía-se dentro do meio e seriam raras as excepções de rapazes ou raparigas casarem com membros externos à classe pisca­tória. Esta situação originou um cruzamento familiar muito denso, em que quase todos os membros da comunidade eram aparentados. Por outro lado, o elevado número de filhos fez crescer a comunidade piscatória de forma exponencial, pese embora a preocupante taxa de mortalidade infantil e os frequentes naufrágios com perdas de vidas humanas.

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