Mensagens

A mostrar mensagens de abril, 2007

Robalos no nevoeiro

Imagem
Cinco da manhã toca o despertador, tacteio a mesinha de cabeceira, encontro o relógio que emite o bip bip agudo, carrego no botão, regressa o silêncio. Escuto a "ronca" do nevoeiro, pergunto a mim próprio se não irei fazer uma madrugada, para nada. Levanto-me às escuras, pego na roupa e vou vestir-me para a casa de banho, evitando fazer barulho. Engulo o pequeno-almoço, pão do dia anterior e um par de copos de leite saído do frigorífico, saio de casa e no escuro da noite, apenas um nevoeiro cerrado, cortado pelo clarão dos candeeiros acesos. "Que pôrra, não se vê um palmo à frente do nariz"; mesmo assim, entro no carro e conduzo até ao portinho, duzentos metros mais à frente, onde já estavam outros madrugadores, que avaliavam a possibilidade de sair para a pesca. Já lá estava o Arturinho, quase sempre o primeiro a chegar, o Fernando Nelaço, o Ica, o cunhado e mais alguns. - Isto levanta com o nascer do dia. - Hum, não me parece, vai demorar, se levantar, é lá para o...

Baja Portugal 1000 em 1993, com o Lada-Âncora

Imagem
Estávamos no ano de 1993 e a Empresa de Lacticínios Ancora patrocinava uma equipa de todo o terreno, em parceria com a Lada. Esta equipa era de Vila Nova de Famalicão, tinha dois carros de prova, um T1 ou seja um carro com poucas modificações, praticamente de série, apenas com alguns reforços de chassis, de carroçaria e equipamento de segurança, melhores amortecedores e pastilhas de travões mais robustas, que era conduzido pelo Jorge “Mabar”, um tipo ainda novo, bom condutor, mas que não poupava o material e muito amigo da borga. O outro carro, o carro principal, era um protótipo, um T3 made in Famalicão, com um motor de dois litros da FIAT, o qual fora “puxado” até aos 180 cv e mais tarde com a adopção de uma injecção electrónica, subira para os 200 cv, o que até era pouco, mas tinha um binário fabuloso, era pilotado pelo José Abel Gomes da Costa, um fulano com boas “mãos”, mas sem meios financeiros para grandes voos. Tinha começado no pop-cross com ...

Não deixem morrer o 25 de Abril

Estou de acordo com o Presidente da República, isto não são maneiras de se comemorar o 25 de Abril, todos os anos a mesma treta e depois perguntam à rapaziada qualquer coisa sobre o acontecimento e não sabem nada. Parece impossível, mas foi para isso que D. Afonso Henriques fundou Portugal. Mas a culpa é dos nossos políticos que não tem artes, nem engenhos para redescobrir o 25 de Abril, de forma mais moderna e inovadora. Os foguetes do costume, o bailarico, os cravos e o discurso sempre igual, sempre repetido, a puxarem ao sentimento dos antifascistas, dos pobrezinhos que foram torturados pela PIDE. O que me chateia é ver alguns sacanas lerem estas coisas com ar compungido, quando sabemos que, se não houvesse 25 de Abril, eles próprios seriam Pides, legionários e membros da ANP. No entanto, quem quer pode ver, ei-los com ar grave, a falar das liberdades, das democracias, da fraternidade e de outros tantos chavões, que ficam bem em qualquer discurso comemorativo. Por isso acho que se d...

O fim da Macaca

Imagem
A “Macaca” era um barco tipo poveiro, com quilha, de seis bancos e com uma tripulação de doze homens. O Galinhaço era o arrais e um dos seus proprietários, em sociedade com a tia Ana Rosa, viúva do Domingos Verde, que após ter naufragado na entrada do portinho, pouco tempo durou. Dizem que foi de estar muito tempo na água, mas o desgosto daquele lobo-do-mar, foi a sua principal doença, que o levou em pouco mais de dois meses. Deixou ao cargo da mulher criar os três filhos, duas raparigas e um rapaz, que a Tia Ana Rosa, que por sinal, de baptismo tinha o nome de Joaquina Malhão Verde, após ter esgotado as lágrimas salgadas como o mar, arregaçou as mangas e tratou de garantir o sustento dos seus. Destemida e obstinada, como sempre fora, fizera sociedade com o tio Galinhaço, pai do Amílcar e do Plácido Silva, e exploravam a meias, um dos melhores barcos do nosso portinho.   Ao fim de algum tempo, a tia Ana Rosa que apontava todas as capturas e respectivas vendas, para mais tard...

A martelada

Imagem
  O assunto já estava combinado há muito. Faltava chegar o mês de Agosto, para na primeira semana fazermos mais um acampamento. Vai o Pedro e o João, que já fazem isto há vários anos, vou eu e a minha filha Joana, também já acostumada a estas aventuras. O João só não vai mais vezes porque a mulher parece confiar pouco nele e ainda menos nos amigos dele. O homem anda todo o santo ano a prepará-la psicologicamente para o acontecimento, as férias de verão com a malta, mas é sempre uma fita das antigas, principalmente quando lhe telefona. E telefona-lhe um par de vezes por dia. Durante a primavera, disse-nos várias vezes, que estava a ficar gordo e que tinha de fazer dieta. - Quando formos acampar, só vou comer sopas de hortaliça, que já aprendi a fazer e saladas, muitas saladas. - Ainda te vão crescer asas, como os grilos – brincávamos nós. Fomos, para variar, para o sítio do costume, a Galiza. Os dois “cromos” decidiram não levar automóvel e foram de bicicleta. Para isso...

A mania das pressas

Um domingo logo de manhãzinha a Minda e o Tone, meteram-se no comboio em Valença, rumo ao Porto. Viajaram no “Flecha”, só parava nas estações, os apeadeiros eram para o comboio que vinha a seguir. Chegados à tabela a S. Bento, tinham o Fernando Castilho à espera, com o nervoso miudinho que o caracterizava e que o impelia a percorrer para lá e para cá, vezes sem conta a gare à espera dos cunhados que iam à sua casa almoçar. Ao fim da tarde, retomariam o comboio em sentido inverso até Valença, onde moravam no cruzamento da estrada de Monção, para o Monte do Faro.   Depois dos cumprimentos, saíram da monumental estação ferroviária, atravessaram a rua em direcção à Avenida dos Aliados onde esperaram pelo 82, o autocarro que os levaria até à Avenida Fernão Magalhães, à casa do Fernando, a dois passos do Estádio da Antas, numa transversal ali próxima. Enquanto o autocarro não chegava, ainda houve tempo para um cafezinho rápido ao balcão do “Embaixador”. Finalmente em c...

Raios o partam...

A gamela encostou suavemente à areia, no portinho. Os homens saltaram para terra descalços, calças arregaçadas, chapinhando no silencio da noite. Sem precisar de voz de comando, todos se esforçaram por guindar o barco para local seguro, onde o mar não lhe tocasse. Os rolos, em cima dos varais, deslizavam sob o fundo chato daquela embarcação de origem galega, mas bem adaptada às rudes condições do portinho de Gontinhães. Os bancos, ainda há pouco ocupados pelos homens que remavam, estavam agora vazios. A vela estava arrumada, não havia vento, tinham ido e vindo, a remos. As redes da lagosta tinham sido largadas perto, a sudoeste do Forte do Cão, já nos mares de Afife. Cada um pegou nas suas coisas, nos seus baús e murmurando um “até amanhã”, rumou às suas casas, depois de calçar os socos em terra firme. Já passava da meia-noite, a luz eléctrica que alumiava as ruas, tinha sido apagada. Valia a lua, que ia alta, faltavam três dias para ficar cheia, sempre dava para ver o camin...

O caso da Universidade Independente

Com a sensação do "deja vu", assistimos dia após dia, ao desenrolar da trama e do drama da Universidade Independente. A "outra" chamava-se Moderna, esta chama-se Independente. Em ambas há acusações de gestão danosa, falsificação de documentos e mais alguns crimes do género. Mais surpreendidos ficamos, quando se põe em causa a validação pedagógica, emitida por esta universidade privada. Parece já não haver muitas dúvidas da confusão administrativa que reina na Universidade, estando a ser analisada a suspeita de favorecimento em processos individuais de alunos. Mas surpreendentes são também as declarações do Procurador-geral da Republica ao dizer que não há motivos para abertura de um inquérito patrocinado pelo ministério público. É surpreendente tanto mais que há já vários órgãos de comunicação que vinculam noticias, resultado de investigação jornalística, extraordinariamente preocupantes quanto à forma como a universidade era gerida em termos pedagógicos. Como se nã...

Do marketing à Direcção comercial na E. Lacticínios Âncora (2ª parte)

Imagem
Mais ou menos um ano depois de ter entrado para a Empresa de Lacticínios Âncora, a gerência propôs-me que ficasse responsável pela área do marketing, em acumulação com o trabalho de inspecção. Para o departamento comercial iriam ser contratados dois supervisores que, a prazo, fariam parte do meu trabalho de inspecção e contacto com os clientes. Cedo percebi que alem da inspecção e do marketing, ainda tinha a formação e o controle dos supervisores (o Armindo e o Hugo) a meu cargo, visto o director comercial, não parecer muito motivado, para essas tarefas "menores". No ano de 1991 a ELA bateu todos os recordes de lucro, sendo-nos informado que havia um resultado positivo de noventa mil contos. Na altura acreditei nos números, rejubilei, mas hoje não acredito e mais à frente irei explicar porquê. Organizar um departamento de marketing a partir do zero e sem experiência anterior não é pêra doce, mas com o auxílio do Francisco Presa, de alguns consultores que sucessivamente iam pa...

A Bela e o Monstro VI

O assalto ao posto dos correios foi tema de abertura em dois telejornais, com grande profusão de pormenores, entrevistas com os mirones, os polícias e com os diversos intervenientes. A TVI foi mais longe e conseguiu até trocar breves palavras com um dos assaltantes, o gago que só pedia que o deixassem “fazer a folha” ao condutor do carro de fuga. Mas o que provocou o gáudio dos espectadores foram as imagens exclusivas da Rosete com a saia subida até ao pescoço e das suas mediáticas cuecas. Não iria faltar muito tempo para o vídeo estar disponível no “you tube”. Outras imagens que arrancaram largas gargalhadas, foi o momento em que a multidão fugia espavorida à frente do BMW e quando a maquineta das pipocas do Valdemarcio levantou voo e aterrou toda espatifada em plena calçada.   Para a Júlia foi uma semana inesquecível. O Simplício na casa sem poder sair, ela sozinha na loja, a Inês quando saia da escola ainda ajudava, mas os seus préstimos eram poucos. O que lhe...

Programa de reequipamento das Forças Armadas

Imagem
O exército português, começou a receber esta semana, as novas viaturas ligeiras de combate, adquiridas no tempo em que Paulo Portas, era ministro da Defesa.  

A Capela de Santo Isidoro

Imagem
  Nunca escrevi sobre santos, mas como descobri que hoje é o dia de Santo Isidoro (4 de Abril), entendi que não faria nada mal tecer algumas considerações sobre ele, até porque existe, aqui bem próximo, uma Capela em sua honra, à qual se devia dar um pouco mais de atenção. Santo Isidoro era irmão de S. Leandro, S. Fulgêncio e Santa Florentina, nasceu em Sevilha no século VI, em 560 DC. Foi educado pelo irmão mais velho Leandro, bispo de Sevilha, ao qual sucedeu no ano 600 na administração da diocese. Em 619 convocou e presidiu ao II Sínodo Sevilhano e em 633 presidiu ao IV Concílio de Toledo. Foi um bispo muito popular e influente, um homem muito activo e empenhado nos problemas do seu tempo. Organizou a vida na igreja, criou vários seminários e promoveu a formação dos futuros sacerdotes. Unificou a liturgia, regulamentou a vida monástica e escreveu uma quantidade apreciável de livros que, de alguma forma, salvaram do esquecimento determinados aspectos da cultura antiga. Entre as suas ...

O Largo do Sol Posto

Nasci numa casa da rua 5 de Outubro em Vila Praia de Âncora, que tinha saída nas traseiras, para o Largo do Sol Posto, o local de todos os convívios e brincadeiras da rapaziada, ao longo de muitas gerações. As minhas recordações, extraídas do baú coberto de poeira, como todas as recordações com mais de quarenta anos, tardavam em aparecer. A ajuda veio, mais uma vez, da minha mãe, que aos noventa e um anos, ainda não se esqueceu do que a mim, já não me lembra. Muitas das personagens que vou tentar repor, não são”do meu tempo”, mas outras ainda me são familiares, mesmo que já não consiga definir as suas feições ou outros pormenores.   Quem entrava no Largo do Sol Posto, vindo da rua 5 de Outubro, dava de frente com a casa da Tia Claudina, mais tarde comprada pela Gloria do Libas e que ainda lhe pertence onde vive com o filho, o Hernâni, o mais novo da geração que, como eu, cresceu a brincar no Sol Posto. A Tia Claudina negociava em manteiga que comprava nas feiras e vendia em ...