Saneamento, para quê? (1ª parte)

Nos tempos que correm, o acesso à água como recurso estratégico motiva enormes esforços e condiciona grandes decisões. São frequentemente conhecidas disputas judiciais e até confrontações físicas originadas pela partilha das águas, principalmente em comunidades rurais.

O acesso à água e o acesso a fontes de energia fóssil movem a vontade política dos nossos dias, sendo percutores de conflitos armados e ocupações ilegais de territórios como a recente invasão do Iraque ou a ocupação dos Montes Golan por Israel, principal fonte de abastecimento de água potável do estado hebraico.

Durante as ultimas décadas, com a transferencia das populações das regiões rurais e interiores para as zonas litorais mais industrializadas e com maior concentração de serviços, o esforço na melhoria das redes de saneamento básico não teve efeito de proporcionalidade, sendo quase sempre um investimento tardio e feito com alguma má vontade.

"É obra para enterrar e ninguém se lembra dela" foi e continua a ser o lema de muitos autarcas de vistas estreitas, ansiosos por mostrar serviço que renda votos.

Será sempre mais fácil recordar quem construiu o centro cultural, a ponte ou a avenida, do que quilómetros de saneamento que nem sequer estão à vista.

Por isso é que hoje temos a situação caótica, praticamente ao longo de todo o pais, de rios que são autênticos leito de esterco e estuários fortemente poluídos. Há exemplos marcantes que periodicamente são alvo de notícia:



  • No estuário do Sado ainda são lançados os esgotos de parte da cidade de Setúbal sem qualquer tratamento;



  • Rio Alviela recebe esgotos provenientes de industrias transformadoras de curtumes, efluentes estes contaminados com metais pesados;



  • Rio Liz fortemente contaminado com os resíduos das suiniculturas da região;



  • Lagoa de Óbidos e baia de S. Martinho do Porto que recebem esgotos domésticos das povoações limítrofes;



  • Rio Douro um vertedouro ao longo do seu curso, primeiro em Espanha e depois em Portugal, com a agravante de receber no seu troço final, os esgotos da parte velha da cidade do Porto, nomeadamente a Ribeira, Lordelo e Cantareira até à Foz.



  • Rio Leça que recebe esgotos domésticos e industriais de algumas freguesias da parte norte da área metropolitana do Porto, nos Concelhos da Maia e Gondomar.



  • Rio Ave que é o vazadouro dos esgotos domésticos e muito mais grave, dos efluentes industriais do Vale do Ave, nomeadamente de tinturarias têxteis;



A lista de casos graves, penalizadora para a saúde pública, condicionante para o desenvolvimento económico e turístico onde se inserem estes cursos de água não tem fim.

Há uma imensidão de casos de contaminação dos cursos de água a montante das captações para abastecimento público. Pior ainda é não ser possível aproveitar os grandes cursos de água para abastecimento publico devido a eles estarem contaminados praticamente desde a nascente, centenas de quilómetros a montante e mesmo fora do território nacional.

É o caso dos Rios Minho, Douro e Tejo, entre outros. O Rio Minho, por exemplo, já tem uma enorme carga poluente ao passar em Ourense e ainda lhe faltam muitos quilómetros até chegar a território português.

Desde a década de oitenta, com a consciencialização ambiental a subir exponencialmente, e principalmente com os milhões disponibilizados pela Comunidade Europeia, muitas infra-estruturas tem sido renovadas ou executadas de raiz.

Infelizmente, em bastantes casos, o sucesso destas infra-estruturas tem sido deficiente ou mesmo nulo, devido a erros de concepção, ausência de manutenção ou ausência de investimento complementar.

É o caso das infra-estruturas construídas ao longo do Rio Alviela que custaram milhões de contos há meia dúzia de anos e hoje não tem praticamente qualquer utilidade pois as unidades de tratamento (ETAR) foram totalmente abandonadas em termos manutenção. Moral da história, gastou-se o dinheiro, o rio continua cada dia mais poluído e os poluidores continuam impunes.

O investimento em saneamento básico é uma opção que tem de ser planeada a longo prazo e que acarreta custos continuados em alargamento de rede, manutenção, exploração e inovação.

Se há sectores onde o desenvolvimento tecnológico tem um saldo muito positivo é este, com novidades tecnológicas e com o aparecimento constante de novos operadores neste sector do mercado.

Embora com algum exagero podemos dizer que hoje, com o leque de soluções disponíveis, só há poluição nos meios aquáticos se quiserem. Haja dinheiro e vontade política para dar prioridade a estes investimentos.

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