O início da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora II
A expressão “Portinho” é a designação futura do conjunto da reentrância, varadouro e zona envolvente onde vai nascer o bairro piscatório, no lugar da Lagarteira.
Não refere, porém, donde vêm estes pescadores, mas presume-se, que, então, havia pescadores vindos de fora radicados neste lugar, pelo menos durante parte do ano.
Eram pescadores que ficavam por algum tempo, dias ou semanas, livremente ou retidos pelas condições adversas do tempo e das condições de mar, acantonados pacificamente nas instalações onde os lavradores armazenavam o sargaço ou no aconchego precário das embarcações varadas na areia. Neste caso, geralmente, viravam a embarcação de fundo para cima e metiam-se lá dentro ao abrigo do frio noturno e da chuva.
Assim descreverá em 1886, Baldaque da Silva:
“Antigamente havia aqui três ou quatro barcos de pesca pertencentes a lavradores, não existindo ainda obra alguma para abrigo.”
Ainda não há qualquer referência a masseiras, mas tão só a lanchas e barcos. Ora, este tipo de embarcações eram as principais embarcações de pesca durante muitos anos em A Guarda. Eram embarcações de tipologia poveira introduzidas pelos poveiros no porto guardês, onde estiveram juntos com vianeses e outros, vindos de outras partes a quem se deve ainda hoje o nome de uma rua de A Guarda: a Rua dos Malteses. Era gente de fora que foi para ali trabalhar em grupo, ou em malta. Mas foram os poveiros que, no séc. XVIII, estiveram nas rias galegas aquando da introdução da arte da xávega pelos fomentadores catalães e aí conheceram a lancha xeiteira das rias, que depois adaptaram à navegação oceânica e assim nasce o barco poveiro.

Em Gontinhães, a economia de subsistência baseada na pequena propriedade rural, foi desde sempre o modo de vida desta gente.
Só em 1825 aparece mencionado nos registos paroquiais um pescador galego, António Verde, nascido em A Guarda, casado com Rosa Beñita de Peña, com a mesma naturalidade. Registam em Gontinhães o seu sexto filho e têm com eles a viver os outros cinco, nascidos naquela paróquia galega (Rego, 2012).
Mas a hipótese de que um reduzido número destes pescadores migrantes já estar, por essa altura, aqui definitivamente instalados, mantém-se.
O Rio Minho é uma fronteira facilmente transponível e as condições naturais de abrigo marítimo da enseada da Lagarteira tornam-se atraentes para os pescadores guardeses.
Até esta data não há qualquer registo de naufrágios ou qualquer referência à existência de pescadores, apenas referências ocasionais às actividades piscatórias durante a acalmia de verão e às disputas na apanha do sargaço entre populações das paróquias vizinhas. É bem conhecida a disputa entre os residentes de Gontinhães e de Moledo a propósito da apanha do sargaço, tendo até dado origem ao topónimo do lugar em litígio, o “Caído” (Porto Caído, perto da Capela de Santo Isidoro).
Entre 1825 e 1839 existiam 7 famílias de origem galega instaladas no lugar da Lagarteira, número que subiu para 26 no período compreendido entre 1860 e 1879.
A nova actividade económica não era exclusivamente preenchida por galegos, pois chegaram pescadores de portos vizinhos como Seixas e Caminha, Montedor, Viana, Castelo do Neiva ou Fão e ainda residentes na paróquia, das famílias mais pobres. Em 1855 existiam 13 lanchas e 5 masseiras; as lanchas eram embarcações maiores, mais robustas, usadas na pesca ao largo, para captura de espécies como a pescada ou a lagosta.

A fragilidade das condições naturais oferecidas pelo portinho natural, motivavam frequentes acidentes, logo que o mar ficava mais agitado. Pressionadas pelas notícias dos naufrágios ocorridos, as Obras Públicas Distritais, por dotação do Ministério do Fomento e Obras Públicas, iniciaram em 1862 a construção de um quebra-mar pelo norte do Forte da Lagarteira, formado por um muro de pedra encaixada, do mesmo modo que as paredes das camboas.
A segurança resultante desta obra era pouco animadora e o quebra-mar foi várias vezes destruído e reconstruído.
Entretanto, várias famílias galegas vinham instalar-se na Lagarteira, transformando a frequência sazonal do Verão em residência fixa durante todo o ano. Importa agora perceber o motivo para a emigração galega, sendo certo que o Rio Minho promovia uma falsa separação, pois as afinidades socioculturais e linguísticas eram imensas.
No início do séc. XIX vivia-se na Galiza uma fase de pobreza económica, em parte devida ao aumento populacional. Esta pressão demográfica e o desequilíbrio entre recursos disponíveis e população é a causa maior da emigração galega, se bem que os conflitos bélicos, o agravamento dos impostos e as levas militares também tivessem contribuído para a mobilidade galega. Se a maioria rumou à América, outros demandavam Lisboa e o Porto, bem como a zona do Douro, uma minoria recolheu-se nos povoados portugueses próximos da fronteira. Assim fizeram os pescadores guardeses, que com eles trouxeram todas as suas técnicas, as ferramentas e os equipamentos de pesca.
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