O início da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora III
O período mais significativo da demanda do Portinho de Gontinhães por pescadores de A Guarda, no século XIX, insere-se no contexto geral da diáspora galega, que a poetisa Rosalia de Castro, num lamento sentido, canta:
“Este parte, aquele parte
E todos, todos se vão;
Galiza ficas sem homens,
Que possam cortar teu pão.”
Com efeito, as guerras, as convulsões políticas e sociais já decorrentes do século anterior, agudizaram neste século as condições económicas da Galiza, mergulhando-a na insegurança e na pobreza. Eram já razões bastantes para partir.
Entre 1825 e 1924, 43% dos nascimentos registados na freguesia de Gontinhães, tinham, pelo menos, um dos progenitores como imigrante galego, o que atesta a importância que esta comunidade ganhou ao longo dos anos (Rego, 2012).
Nessa época, tal como na actualidade, a emigração é a busca por melhores condições de vida e a ela recorrem os sectores mais vulneráveis da sociedade.
Pinho Leal escreve com preocupação e até uma ponta de amargura sobre a Lagarteira:
“Na Lagarteira ha um fortim que foi reparado em 1865 e que tem uns 3 ou 4 veteranos de guarnição; mas há muitos anos está completamente desartilhado.
Também há aqui, junto e ao S. do tal fortim, um varadouro chamado Portinho, onde só podem entrar as pequenas lanchas de pesca. Está de todos os lados cercado de penhascos, onde quasi todos os annos há desgraças a lamentar, pois os barcos n’elles se despedaçam com frequência. É verdade que em 1865 se concluiu um quebra-mar, ao N. do Portinho, por conta das obras públicas do districto, que evita alguns perigos e sinistros; mas muito mais útil seria aos pobres pescadores d’aqui, se fosse mais sólida e scientificamente construído. Este, no estado em que está, não dá grande crédito a quem o deliniou!
O mar, com qualquer temporal (que é quando o corta-mar era precizo) galga sobre elle com a maior semceremonia!” (Leal, 1875).

Face ao aumento de movimento de barcos e de pescado, às notícias das perdas de vidas nos naufrágios e à crescente importância da Praia d’Âncora como estância balnear, decidiram as Obras Públicas Distritais construir a sul do Forte da Lagarteira dois molhes convergentes e delimitantes do varadouro. As obras de construção dos molhes, corte das pedras do interior e aprofundamento, duraram até 1884 e tiveram um custo de 10:661.820 reis.
Neste valor estão incluídas despesas com diversas obras de reconstrução, já que durante este período o mar continuou a fazer estragos nos molhes; o quebra-mar a norte ficou abandonado (foi sensivelmente sobre este pequeno e tosco quebra-mar que se construiu em 1935 o molhe do Porto Novo).
Após a conclusão das obras, os episódios de destruição desta infra-estrutura são frequentes e ocorrem até mais de uma vez por ano, para desespero dos pescadores e dos Serviços Fluviais e Marítimos que tinham a responsabilidade da sua conservação.
Exmo. Snr. Engenheiro Chefe da 1ª Secção da 1ª Direcção dos Serviços Fluviais e Marítimos
Já tenho ido por três vezes ao portinho de Gontinhães para proceder ao conserto de que V. Exc. me deu ordem mas não tem sido possível poder-se fazer o referido conserto por o mar estar muito levantado, agora dei ordem aos pedreiros para ser feito na ocasião das marés vivas, o que também me parece que temos no molhe sul mais ou menos estrago o que poderei observar na ocasião das marés vivas.
Deus guarde V. Exc.
Riba d’Âncora 30 de Dezembro de 1903
O apontador de 2ª classe
João José Rodrigues Gomes de Oliveira
A troca de correspondência entre os homens no terreno e a Direcção Distrital da Obras Públicas (esta correspondência está conservada no Arquivo Distrital de Viana do Castelo, Secção de Hidráulica) era abundante, apontando frequentemente erros de concepção e construção como causa das avarias.
Exmo. Senhor Engenheiro Chefe da 1ª Secção da 1ª Direcção dos Serviços Fluviais e Marítimos
Exmo. Snr.
Depois que recebi a nota de serviço nº 149 datada de 18 do ano e mês findo em que me ordenou que procedesse sem perca de tempo às reparações do estrago feito no molhe norte do portinho de Gontinhães, não me foi possível proceder logo aos três consertos por não haver pedreiros na ocasião e que na mesma ocasião assentei com o pedreiro Constantino Sobreiro o dia em que ele tinha pedreiros e que havia de proceder aos reparos, o que disto dei parte a V. Exc.. Porém no dia marcado 28 do mês e ano findo não foi possível proceder-se aos referidos reparos por causa da chuva e alteração do mar. Em vistas de tudo isto determinei e ficou para as marés vivas de que dei parte naquela mesma ocasião a V. Exc. Na qual também lhe dizia que no molhe sul me parecia haver estrago, todavia ontem que se havia de dar princípio aos reparos mas que se não pode dar por causa do mar e chuva e o mesmo aconteceu hoje, mas que todavia hoje pude descobrir que no molhe sul é preciso fazer em uma pequena distancia recalce, o que no dia 7 do corrente é que assentei com o Constantino procedermos aos consertos caso o mar e chuva deixe. E para isso convido a V. Exc. Para vir até cá ver a que há a fazer. Enquanto a vigilância combinei com o Lopes o ele vigiar de noite e eu e ele de dia, porém, segundo informações não houve mão mal fazeja como ao principio parecia, e que os pescadores dizem que tudo é motivado da falta do penedo que se quebrou.
Deus guarde V. Exc.
Riba d’Âncora, 5 de Janeiro de 1904
O apontador de 2ª classe
João José Rodrigues Gomes D’Oliveira
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