O início da comunidade piscatória em Vila Praia de Âncora VII
O contributo dos marítimos galegos, principalmente guardeses, no desenvolvimento da pesca foi fundamental. Como referimos, em 1825 havia uma família a residir permanentemente na Lagarteira e em 1840 registadas quatro, sendo que três delas eram lideradas por elementos da família Verde.
Em 1843 já havia catorze embarcações, com a particularidade que seis dedicavam-se à venda do pescado e oito pescavam para autoconsumo. Dada a tonelagem referida nas oito embarcações (entre 0,750 e 1 Ton.), assim como o número reduzido de tripulantes de cada uma, conclui-se que se tratavam de pequenas embarcações, certamente gamelas guardesas.
Não há dúvidas que os primeiros barcos a visitar a enseada da Lagarteira deviam ser lanchas e barcos de tipologia poveira, mas os primeiros imigrantes vieram apetrechados com embarcações mais pequenas, mais pobres, tal como eles, que tinham de abandonar as suas terras na busca do sustento.
As gamelas, ou masseiras, de estrutura mais modesta e simples, foram as que por mais tempo e melhor se adaptaram às condições rudimentares do varadouro. Chegaram aqui como mala de viagem pela facilidade de manobra e pela ousadia de navegar no oceano. Haviam de resistir aos barcos de modelo poveiro até aos nossos dias, evoluindo e adaptando-se através das transformações e das novas condições tecnológicas.

Em 1855, o mapa das embarcações mostra que havia treze lanchas e cinco masseiras e como apontámos anteriormente, em 1886 as embarcações registadas eram 65, valores que confirmam o desenvolvimento da actividade marítima e que as sucessivas gerações continuavam na mesma actividade familiar.
Era também reconhecida a importância económica da pesca em Gontinhães no contexto local e até regional.
O semanário “A Voz do Âncora” exprime publicamente esse reconhecimento a 3 de Janeiro de 1904:
Esta classe, sem dúvida a mais numerosa da nossa terra, vae ter em nós, desde já o asseguramos um defensor tão intrépido como valoroso quanto as nossas forças o permitirem. E é justo, porque, se é nella que nós vamos procurar um grande número de auxiliares, é sobre ella também que devem recahir os primeiros benefícios advindos do brado que vamos soltar em favor de todos.
O pescador representa, entre nós, a mais poderosa alavanca do bem estar geral. Bastam oito dias de abundancia para ele, para a abundancia se fazer sentir em toda a parte. Que o digam os proprietários de todos os estabelecimentos commerciaes, que o digam todos os industriaes e lavradores.
Apenas no nosso pequeno porto há pescado em quantidade razoável, já os credores e devedores respiram, porque a moeda, em quantidade relativamente grande, começo a circular.
A vida comercial e industrial depende, pois, sobremaneira, da vida do mar e, d’aquela, depende geralmente a vida do nosso publico.
Mas esta classe, a marítima, tão trabalhadora quanto pobre e infortunada, vê-se, no momento actual, a braços com a miséria. É ver as creanças, quasi completamente nuas, esmolando, de porta em porta, umas côdeas duras; é atentar nos homens e nas mulheres, recorrendo a todos para empenharem os últimos farrapos com que deviam guardar do frio os seus corpos esqueléticos.
Para esta penúria, tomamos a liberdade de chamar a atenção do exm.º sr. Governador Civil do districto e temos a convicção de que o não fazemos em vão. S. ex.ª pode interceder pelos nossos pobres pescadores, perante as direcções dos cofres dos “Socorros a Naufragos” e “Inundados” e confiamos em que o fará, porque, asseguramo-lo sem receio de desmentido, a sua alma de eleito não pode conservar-se insensível ante a miséria dos povos que, sob a sua esclarecida superintendência, são administrados.
Numa comparação entre o volume de pescado registado, entre os vários portos pesqueiros, verifica-se que em 1886, o valor registado em Gontinhães era apenas inferior aos portos de Viana e de Esposende. Os registos podem não traduzir a verdadeira dimensão das quantidades capturadas, pois sempre foi tradição o pescador “fugir” com o peixe ao dízimo e mais tarde à lota, evitando assim de pagar os impostos em vigor.
Convém salientar que nem todos os tripulantes tinham cédula marítima e muitos não estavam matriculados nas embarcações, havendo também embarcações sem registo e embarcações registadas em outros portos mas que por conveniência pescavam em Âncora, mesmo que sazonalmente. Os registos marítimos da época eram pouco rigorosos e essa foi uma das razões para mais tarde ser criada uma Capitania local. A falta de rigor nos registos pode alterar significativamente a conclusão sobre o número de embarcações, tripulantes e valores do pescado. Mas não deixa de ser uma referência.
As lanchas que conviveram durante décadas com as masseiras, eram embarcações maiores e mais robustas, adequadas à pesca no alto mar, trazidas pelos pescadores poveiros que as disseminaram por todo o norte de Portugal e pela Galiza. Estas lanchas iniciaram o seu declínio por volta de 1930 desaparecendo pelos anos cinquenta (1953-1954), devido ao surgimento das motoras, traineiras e “trucks”, que em Âncora se designavam “truques” (Pequena traineira).

Não fica um único barco tipo poveiro para testemunhar a sua passagem por aqui. Surgem os barcos a motor e o esforço pesqueiro não tem precedentes. Instalam-se dois postos de abastecimento de combustível: um no molhe norte do portinho velho, da Sonap, e o outro no cais do porto novo, da Shell. A Lota abre e inicia-se um processo de vendagem moderno. Não foi pacífico esse processo, a aceitação da nova disciplina, método de arrematação do pescado e percentagens a descontar para o Estado. O peixe deixa de ser leiloado na praia e o dízimo taxado pela Guarda Fiscal dá lugar a um novo processo administrativo adaptado a novas exigências de índole regulamentar e social.
As masseiras, pequenas embarcações de fundo chato trazidas pelos guardeses, sobreviveram a estas alterações porque eram utilizadas na captura de espécies costeiras, se bem que aos poucos e com algumas adaptações, tivessem uma utilização mais diversificada e se aventurassem em pesqueiros mais afastados da costa.
Os pescadores das masseiras constituíam uma subcultura caracterizada pelos mais humildes da classe. Era a embarcação dos pobres, unidos naquela perspectiva definida por E. P. Thompson, citado por Staffan Mörling (Morling, 1989):
“As classes sociais desenvolvem-se quando homens e mulheres experimentam as suas condições de produção e quando sofrem as suas circunstâncias”.
Com efeito, o papel desempenhado pelas lanchas e barcos tinha um estatuto e prestígio com um peso específico na paisagem social e cultural da comunidade piscatória, como veremos mais adiante quando tratarmos dos casamentos na comunidade marítima.
Mas os pescadores guardeses não trouxeram apenas a sua força de trabalho, trouxeram as artes e o saber de toda a prática marítima, nomeadamente a construção naval.
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