O naufrágio do "Cabo Oropesa"

 Há várias versões para o acidente que aconteceu a norte da barra de Caminha onde encalhou, na manhã de 21 de Agosto de 1917[1], o vapor “Cabo Oropesa”, da Companhia Ybarra, de Sevilha, de 1.522 toneladas, construído em 1903 pelos estaleiros escoceses "Grangemouth & Grenoch Dockyard", que procedia do Mediterrâneo, com carga geral e passageiros.

Publicidade da empresa proprietária do Cabo Oropesa - Foto de José António Uris

Fizera, desde Sevilha, uma excelente viagem até à altura das Berlengas, onde foi canhoneado por um submarino alemão, sem consequências, continuando a sua rota para Vigo, primeiro porto de destino. Todavia, às 6 e meia da manhã, uma densa neblina obrigou o comandante a afrouxar a marcha, até que, às 7 horas e 10 minutos, não se vendo absolutamente nada e ouvindo-se os silvos das traineiras que passavam, chegou a acreditar-se, a bordo do “Cabo Oropesa”, que este estava enfiando no canal da ria de Vigo.

Nessa persuasão, foi dado rumo nordeste ao navio, que foi encalhar nos “petões de ferro”, como lhe chamam os marinheiros espanhóis, nos “Baixos de Ribel”, os mais terríveis baixios da costa galega. Por outro lado, há relatos que o naufrágio ocorreu nos baixios denominados por “Pedralva” e “Rabelina”, na Foz do Rio Minho.

Cabo Oropesa encalhado - Foto de José António Uris

A sirene de bordo silvou e as traineiras aproximaram-se do navio, mas nada puderam fazer. Para aliviar a embarcação, foi alijada toda a carga da coberta – vinho, barris, azeite, álcool, aguardente, etc., porém a situação do navio não melhorou; pelo contrário, de momento a momento, mais se comprometia. Parte da carga foi recolhida pelos pescadores de La Guardia, que rodearam o vapor com as suas gamelas.

Na tarde do dia seguinte foi pedido auxílio a um vapor norueguês que passava, o qual intentou arrancar o “Cabo Oropesa” do perigoso lugar, mas não o conseguiu, navegando depois para o sul.

Artigo de imprensa da época - Foto de José António Uris

Ao anoitecer, por ordem da casa armadora chegou ao local do naufrágio o vapor “Triana” que estava atracado em Marín (Pontevedra), trabalhando com o auxílio do vapor “Maria”, de Constantino Candeira e de algumas barcas do rio, no transbordo da carga.

As mercadorias foram armazenadas em terra na Vía (Muelle) e na Ribeira, entre elas várias dúzias de pipas de vinho que durante a noite eram furtivamente furadas com brocas para degustação do precioso líquido!!!

Artigo de imprensa da época - Foto de José António Uris

O trabalho de alijar carga teve de ser suspenso antes de terminado devido ao mau tempo, pois o mar varria a coberta de popa à prôa.

Dias depois, o “Cabo Oropesa” foi posto a flutuar com o auxílio dos rebocadores “Roberto” e “Utrech” da “Sociedade de Salvamento Molins, Valverde & Cª”. Reparadas as avarias foi posto novamente em serviço. Há notícias de terem dado à costa nas praias de Caminha, Moledo e A Guarda, vários utensílios de bordo e alguma carga.

Duas curiosidades sobre este acidente marítimo: Não sabemos se teve alguma relação com o naufrágio o suicídio do sub-ajudante da Marinha da Guarda D. Justo Martinéz Gómez que se lançou da varanda do posto de Marinha local, poucos dias depois do naufrágio; dez anos depois, a 1 de dezembro de 1927, outro navio mercante com o mesmo nome “Cabo Oropesa” que vinha de Bilbau para Vigo com carga geral, foi abalroado pelo cargueiro “CIS” e naufragou entre Corrubedo e a ilha de Sálvora. Os náufragos foram recolhidos pelo “CIS”, mais tarde transladada para outro navio e finalmente desembarcados no porto da Corunha.

 

 



[1] Há fontes que apontam 28 e também 29 de agosto como a data do naufrágio, mas os artigos de imprensa que referem o incidente são claros e apontam todos para o dia 21.

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