Os Teatros no Concelho de Caminha
Uns perderam-se no tempo, outros foram recuperados no seu esplendor. A certa altura, para sobreviver cederam espaço ao cinema, sem deixar de acarinhar o teatro e outros espetáculos de variedades. Tornaram-se polivalentes e, em alguns casos autenticas salas de visitas.
Comecemos pelo Cine Teatro Valadares em Caminha:
Construído por José Maria Valadares, negociante, com a ajuda
de Joaquim Vicente da Cruz Trovisqueira, aspirante da alfandega, no final do
século XIX, mais concretamente em 1897.
Por aqui passaram muitas companhias de teatro e variedades
em digressão pela província. Estes equipamentos designavam-se teatros “provincianos”
e eram espaços privilegiados para espetáculos de carater popular, ligeiros e
bem-humorados, como revistas, operetas, magia e canções.
Este modelo começou a definhar com o surgimento generalizado dos espetáculos de cinema já na década de vinte.
Porém, muito antes do cinema se tornar o rei do espetáculo,
o Teatro Valadares fez uma estreia absoluta no concelho, quando em 1903 acolheu
uma sessão de fotografia animada, o cinematógrafo, que alguém de Viana do
Castelo tinha adquirido para o explorar. Como em 1903 ainda não havia luz
elétrica, o aparelho era alimentado de energia elétrica por um dínamo acoplado
a um motor. Pelos relatos da imprensa o espetáculo em Caminha foi um retumbante
êxito, que certamente se repetiu nas outras vilas e cidades por onde os
promotores passaram.
Outra curiosidade tem a ver com a frequente atuação de
artistas espanhóis, na sua maioria galegos, moradores na outra margem do Rio
Minho. As orquestras espanholas eram muito cotadas e os espetáculos de dança
flamenga muito animados, não só neste teatro, mas na generalidade das casas de
espetáculos da região.
Durante décadas o Cine Teatro Valadares, com a sua sala “à
italiana”, alternou entre o cinema, as artes de palco e os bailes, que
ganharam grande notoriedade, principalmente os de carnaval.
Na década de oitenta o edifício entrou em degradação ao ponto quase irreversível. Em boa hora a Câmara Municipal de Caminha adquiriu o imóvel e promoveu a sua reabilitação; foi reinaugurado em 2013 e hoje é um equipamento cultural de referência no concelho.
Teatro Victória de Seixas
Foi uma pequena sala de teatro inaugurada em 1913 por
iniciativa de Domingos Luís Terra e seu irmão António Terra; ambos eram irmãos do conhecido arquiteto Miguel Ventura
Terra.
O espetáculo de inauguração ficou a cargo de um grupo de
amadores da zona e pelo Teatro Victória passaram diversas companhias de
operetas e revistas. Esta sala teve vida curta e encerrou em 1919, tendo o seu
mobiliário sido vendido conforme se documenta pelo anúncio publicado no jornal
“A Aurora do Lima”.
Teatro Affonso em Moledo
Inaugurado a 28 de setembro de 1884, deve-se à iniciativa do
dinâmico António Affonso, Moledense por opção, pois tinha nascido em Alvarães,
que nesse dia de festa, apresentou uma récita de amadores com a declamação da
poesia “O suicídio”, o drama em três atos “Amor e arte” e
terminou com a engraçada comédia “O descasca milho”.
Sabe-se ainda que antes da inauguração deste “novo e
elegante teatro”, assim se lhe referiu a imprensa, já eram apresentados
espetáculos de teatro, desconhecemos onde, mas não será difícil imaginar que as
condições não fossem as melhores.
O rasto do Teatro Affonso perde-se no início do século XX,
provavelmente devido à concorrência de outras salas, como o Valadares ou das
diversas salas que funcionavam na Praia d’Âncora. O falecimento de António
Affonso em 1896 pode também ter contribuído para o encerramento deste teatro.
Teatro Santo António na Praia d’Âncora
Surge mais ou menos na mesma época do teatro de Moledo e era
propriedade de Joaquim Afonso da Sobreira. Teria em anexo umas instalações de
banhos quentes e em 1889 estes equipamentos mudam de mãos, passando para a
propriedade de Daniel José Rodrigues Guerra.
Esta sala de espetáculos esteve muito ativa desde a sua fundação com a encenação de variadíssimas peças, protagonizadas por amadores locais, mas também por atores consagrados.
No verão era habitual realizarem-se soirées organizadas pelo
Club Ancorense ou pelas comunidades que veraneavam na Praia d´Âncora, como os
Valencianos ou os Monçanenses. Nestas soirées, além das variedades, eram ainda
servidas refeições ligeiras, terminando o evento com o habitual “cotillon”
dançante.
O Teatro Santo António encerra em data indeterminada, o
prédio é vendido a Manuel Barreto de Monção que faz obras, dividindo o espaço
em diversas casas para alugar, deixando ficar a maior para seu usufruto.
Salão Elite na Praia d’Âncora
Pouco se sabe desta sala de espetáculos que funcionou no centro
da povoação em prédio particular.
Há registos de que funcionava em 1917 e não deve ter tido
uma existência longa.
Teatro Ancorense na Praia d'Âncora
Surgiu nos primeiros anos da República, junto à passagem de nível que dava acesso ao Parque Dr. Ramos Pereira. Rapidamente aderiu aos espetáculos cinematográficos, que alternavam com as habituais variedades, revistas e operetas, tanto da iniciativa de amadores locais como de companhias em tournée pela província.
Acolhia ainda espetáculos produzidos por outras coletividades, que, por não possuírem salas adequadas, usavam este Teatro.
No início dos anos quarenta, após demoradas negociações, cede o alvará de cinema aos Bombeiros de Vila Praia de Âncora, que tinham terminado a construção do seu cineteatro.
O edifício do Teatro Ancorense entra em declínio até ao
ponto de ruína, sendo demolido em 1970.
Cineteatro dos Bombeiros de Vila Praia de Âncora
Desde a fundação em 1917 da Associação Humanitária dos
Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora, havia a vontade de construir uma
sede para acolher os equipamentos de combate a incêndios e uma sala de espetáculos,
que ajudasse a jovem associação a angariar fundos indispensáveis ao seu
funcionamento.
Em 1931 a Direção entrega a empreitada da construção do edifício
e a sala de espetáculos só fica pronta em 1943.
Como atrás referi, havia o problema do alvará de cinema pertencer ao Teatro Ancorense, que por essa época já era conhecido por “Teatro Antigo” ou “Teatro Velho”. Depois de resolvido a questão do alvará, no cineteatro passaram a ser exibidos filmes, explorados por diversas empresas, que depois cediam parte dos lucros aos bombeiros.
Em 1949, um grupo de sócios propõe-se comprar um equipamento
de projeção para uma total autonomia da Associação e 1953 compram uma nova aparelhagem
sonora.
Como na generalidade das outras salas de espetáculos a polivalência
era o mote; se o cinema era rentável, a casa enchia cada vez que era anunciado teatro,
canções, declamações, magia, etc.
Esta sala era ainda frequentemente reclamada para a receção de individualidades, conferências, concursos, desfiles de moda, mostras de dança folclórica, ações de formação e até bailes, pois dispunha de um sistema de elevação e nivelamento da plateia.
Este cineteatro também entrou em declínio no final do século
XX e colapsou totalmente, tendo sido alvo de obras de reabilitação para lhe
devolver, em 2017, o charme e a funcionalidade de outrora.
Outros espaços culturais
Uma palavra também para o Casino Afifense, originalmente fundada em 1885, que apesar de pertencer ao concelho de Viana do Castelo, pela proximidade ao concelho de Caminha foi sempre muito acarinhada.
O atual edifício foi construído em 1931 e possui uma excelente sala de espetáculos que há quase um século leva a cena todo o tipo de artes de palco.
Outra sala muito interessante existe na freguesia de Âncora, pertence à Sociedade de Instrução e Recreio Ancorense (SIRA), fundada em 1928 e, tal como o Casino Afifense, promove regularmente espetáculos e bailes que ainda hoje fazem as delícias de todos os que não tem “pés de chumbo”.
Fontes: "Os teatros perdidos do Concelho de Caminha" de Daniel Rosa; "História Nossa" de Paulo T. Bento; "100 anos a servir" de Aurora B. Rego; "Praia d'Âncora" de Brito Ribeiro; Jornal "A Aurora do Lima";













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