Quem foi a D. Lina?
Adelina Lourença Cabrera Gonçalves da Rocha, nasceu em Gontinhães a 8 de janeiro de 1887.
O seu pai era Quintino Gonçalo Domingues, nascido em
Gontinhães a 22 de agosto de 1848, falecido na Lagarteira a 18 de julho de 1887
com 38 anos; a sua mãe era Maria Cabrera de nacionalidade Uruguaia.
Quintino foi para o Brasil em 1867, chamado pelo seu irmão
Baltazar que tinha emigrado dois anos antes. Quintino terá casado por volta de
1873 com Maria Cabrera no Uruguai ou na Argentina.
Deste casamento nasceram, no Uruguai, Cristina Cabrera
Gonçalves da Rocha, Clotilde Cabrera Gonçalves da Rocha e Heitor Cabrera
Gonçalves da Rocha. Em Portugal, no lugar da Lagarteira, nasceram Marino
Cabrera Gonçalves da Rocha, Américo Cabrera Gonçalves da Rocha, Aurélio Diogo
Cabrera Gonçalves da Rocha e Adelina Lourença Cabrera Gonçalves da Rocha.
A família regressou do Uruguai cerca de 1880 e mandou
construir o prédio de habitação na rua 5 de outubro, que, mais tarde foi
herdado por Adelina, a filha mais nova.
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| A segunda casa do lado direito da foto era a residência da D. Lina |
Quintino ainda regressaria à América em 1884 para regressar pouco depois. Os seus filhos Marino (ou Amarino) e Américo terão emigrado para o Pará, no Brasil em 1897 com 15 e 13 anos respetivamente, o que me leva a supor que haveria ainda suporte familiar nesses destinos.
Quintino
Domingues era irmão (2 anos mais novo) de Rodrigo Lourenço da Rocha, pessoa
muito conceituada em Gontinhães, que desenvolveu atividade como ferroviário (na
1ª fase de instalação do caminho de ferro), como proprietário e capitalista,
tendo exercido variados cargos públicos, como vereador da câmara de Caminha,
presidente da junta de paróquia, fundador, contribuinte e presidente da
Comissão de Melhoramentos do Calvário,
dinamizador da construção da estrada entre o Santo e o Cruzeiro Novo;
Surge ainda como apoiante do Partido Evolucionista em 1912, liderado por
António José de Almeida e em 1914 é um dos dirigentes do Sindicato Agrícola do
Vale do Âncora.
Interessante
a adoção do apelido “Rocha” que deve ter com o facto de os avós de
Quintino e Rodrigo, José Domingues (1781-1828) e Maria Rosa Gonçalves
(1787-1860) serem moradores no Lugar da Rocha, sendo esse, provavelmente, o
berço familiar.
Adelina
Cabrera da Rocha, solteira, muito religiosa e de temperamento forte, assistia
incomodada com as miseráveis condições de vida das crianças Ancorenses, principalmente
as do bairro piscatório, quando decidiu arregaçar as mangas e fazer algo por
elas.
Se
calhar, nesse momento, não fazia ideia que esta sua iniciativa lhe iria moldar
o resto da vida e ficar indelevelmente marcada na memória de centenas ou
milhares de crianças, que beneficiaram da “sopa dos pobres”, na primeira
fase, e do Patronato na fase posterior.
Eu
já referi brevemente o desenrolar desta iniciava solidária em post anterior,
mas não será demais repetir a narrativa, até para melhor se perceber o papel de
Adelina Cabrera da Rocha nestas iniciativas de solidariedade social.
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| D. Lina na varanda do Patronato, rodeada de crianças e membros da Congregação religiosa |
Os anos 40 do século passado foram uma época de fome e escassez, que o Estado Novo procurava regular através das senhas de racionamento; o Vale do Âncora não foi exceção e motivou uma onda de solidariedade entre diversas pessoas, criando-se a “Sopa dos Pobres”, que era servida na residência de Adelina Cabrera da Rocha, popularmente conhecida por “D. Lina”, primeiro às crianças das escolas e depois às restantes crianças, com a ajuda do pessoal da “Acção Católica”, chegando a servir por dia cerca de 400 refeições.
Deixem-me
abrir aqui um parêntesis para esclarecer que nos anos trinta do século passado
existiam duas escolas primárias em estado de pré-ruína (Santo e Viso) e sem
condições mínimas de higiene e salubridade que apenas tinham capacidade para
cerca de 120 crianças distribuídas por três professores, quando a estimativa, na freguesia, andaria pelas 600 crianças. Apesar de existirem alguns
professores particulares que ministravam ensino domiciliar, não será descabido
calcular que o número de crianças sem qualquer contacto escolar seria superior
a 400.
Esta
situação só começa a ser revertida no final dos anos quarenta com a inauguração
da escola do Rego e, mais tarde, com a entrada em funcionamento da escola de
Vilarinho.
Voltando
à questão da “sopa dos pobres”, os maiores benfeitores desta iniciativa
eram, além da D. Lina, a família Cordeiro Feio, o Dr. Teixeira de Queiróz, o
sr. Carlos Ribeiro da Silva, o Padre Amadeu e a família Presa. Inestimável o
auxílio das voluntárias da “Acção Católica” que mantinham em
funcionamento toda a estrutura, da cozinha ao refeitório e à logística do
abastecimento e organização da casa. Face ao aumento constante dos utentes e às
dimensões da casa, apesar desta ser muito grande, concluiu-se que seriam
precisas instalações maiores.
Conseguiu-se
a doação de um pequeno terreno, mas era preciso dinheiro para a construção e
para outros gastos. O terreno ficou em nome da D. Lina (apesar das suas
reticencias) que ofereceu duas libras de ouro para as primeiras despesas.
A construção ia avançando com o trabalho de elementos da “Acção Católica”, movimento instituído em Portugal nos finais de 1933, e alguns operários a quem o Padre Amadeu pagava e dava de comer. Fizeram-se espetáculos, peditórios e outras iniciativas para angariar fundos.
O
sr. Carlos Cordeiro Feio conseguiu, através do Ministro do Interior um subsídio
de 70 contos, destinando-se metade para a construção da “Sopa dos Pobres”
e outra metade para a construção de uma cantina escolar, que viria a ser edificada
em anexo à escola de Vilarinho. Com esta verba terminaram-se as paredes do
edifício, por fora, acabou-se o telhado e fizeram-se pequenas benfeitorias nas
instalações sanitárias.
Antes
da atribuição deste subsídio, Cordeiro Feio já tinha conseguido dois subsídios
de 20 contos cada, por intermédio do Almirante Henrique Tenreiro, em 1947 e
1949, para apoio das despesas da “Sopa dos Pobres”.
Com
o apoio financeiro da D. Lina as obras avançaram e, teimosamente, a benemérita
senhora não queria continuar com a casa em seu nome, por isso ofereceu-a ao
Prelado.
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| Em dia de festa, a decoração das varandas para a passagem da procissão |
O papel da D. Lina não se esgota no apoio financeiro à causa, pois ao perceber que escasseavam as ajudas para tratar das crianças e confecionar as refeições, conseguiu mobilizar e atrair à vila um grupo de religiosas da zona de Lisboa, as Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição, que se formaram no Patronato de Nossa Senhora da Bonança, para tratar do mesmo e das crianças que auxiliavam.
Esta
instituição vê os seus estatutos aprovados em 12 de julho de 1951, pelo
Arcebispo Primaz de Braga, D. António Bento Martins Júnior; em 1977 o edifício é restaurado com o apoio da Segurança Social e transformado em
creche e jardim infantil, valências que ainda mantem funcionais.
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| Quinta da Boa Esperança, finais dos anos sessenta |
O grande edifício propriedade da D. Lina na rua 5 de outubro, foi herdado pela congregação religiosa, que vai ter um papel importante no desenvolvimento do percurso escolar dos jovens, ao fundar o Externato da Nossa Senhora da Assunção, primeiro na Quinta da Boa Esperança, sendo posteriormente transferido para um moderno edifício, construído de raiz, no lugar do Paraíso e que alguns anos depois se transformou na Ancorensis.
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| O novo edifício do Externato no Lugar do Paraíso |
Adelina Cabrera da Rocha faleceu a 2 de janeiro de 1968 e está sepultada em campa rasa no cemitério de Vila Praia de Âncora.







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