A apanha do patelo na Praia d’Âncora
Esta atividade agro-marítima remonta certamente ao século XIX e as primeiras informações escritas ocorrem em 1885 pela descrição de Baldaque da Silva no seu livro “O Estado actual das Pescas em Portugal”.
Neste trabalho foco-me apenas na pesca do patelo ou pilado, como lhe queiramos chamar, em Vila Praia de Âncora. Sabemos que existiram formas e métodos diferentes ao longo da costa e dos diversos portos de captura deste pequeno crustáceo, usado para adubar as terras de cultivo.

A pesca do caranguejo pequeno em cardume, conhecido por pilado, patelo, mexoalho ou escasso para adubação das terras, era em conjunto com a apanha das algas, principalmente o sargaço, uma importante faina que interessava à lavoura, mas que tinha lugar no mar, onde coexistiam aspetos agrícolas e piscatórios muito sugestivos.
Esta atividade agro-marítima, às vezes efetuada por agricultores que desciam ao litoral e usavam pequenas embarcações suas para esta pesca, outras vezes limitando-se a comprar o patelo recolhido por pescadores profissionais que no final do verão, após a safra maior da sardinha, se dedicavam à apanha do patelo.
Era uma arte de arrasto em que, geralmente, se utilizavam duas embarcações, uma maior e outra mais pequena, mas também se arrastava ao patelo apenas com uma masseira. Esses eram os mais pobres de entre os pobres, que utilizavam esta técnica para arrecadar quantidades menores de patelo, mas que, mesmo assim, não deixava de ser um importante contributo para as finanças familiares.

Masseira Ancorense
Estimava-se que um bom lanço daria entre um a um e meio carro de bois de patelo. Acima disso, e não era raro acontecer, seria um lanço excecional. Numa maré, a correr tudo bem, podiam-se fazer dois ou três lanços, regressando a terra as duas embarcações carregadas, onde eram esperadas pelas mulheres que faziam a descarga com cestos à cabeça.
A apanha do patelo faz parte da memória dos mais antigos, que viam as companhas da Póvoa e da Apúlia arribarem ao Portinho d’Âncora nos finais do mês de agosto para a safra, a quem os ancorenses chamavam “camaradinhas” e que amontoavam em pilhas nauseabundas, no Campo do Castelo, o resultado do seu labor, até serem carregados pelos compradores.
Chegavam a juntar-se 30 a 40 embarcações de “camaradinhas” no portinho de Âncora. Estas embarcações eram de “tipo poveiro”, sendo as menores masseiras ou caíques.

Barcos tipo poveiro dos "camaradinhas" varados no Portinho - 1910
Assim, a companha do pilado era composta, em Âncora, por 6 ou 7 pescadores, 4 ou 5 no barco grande e 2 no barco auxiliar. Se a pesca era boa e o vento estava de feição, em vez de virem descarregar ao portinho de Âncora, navegavam diretamente para as suas terras de origem, regressando após a descarga.
Fernando Galhano[1] descrevia assim a apanha do patelo por volta de 1930:
“No dia previsto do regresso, vinham chegando à praia, à espera dos barcos que haviam saído, gentes e carros de bois, grupos de moças com grandes chapéus de palha sobre os lenços garridos e as saias enfaixadas, curtas, mostrando-lhes, até aos joelhos, as pernas fortes e trigueiras… Ao longe os barcos eram pontos que mal se distinguiam. Mas pouco a pouco esses pontos cresceram, as velas enfunadas pela brisa ligeira. Espaçadas umas das outras, as companhas iam-se aproximando de terra, onde já um bulício quebrara o sossego de há pouco. Para junto da água, para o lugar de varadouro dos barcos mais próximos, iam descendo os carros de caniços escuros e bois vermelhos de grandes cornos brancos. E quando aqueles chegavam, tirados para terra os remos, mastros e velas, a descarga começava. E enquanto do seu largo bojo dois homens enchiam cesto após cesto, a massa translucida de corpos e pernas movediças, as mulheres, carregando-os aos ombros, esvaziavam-no no caniço do carro, metido na água até ao eixo, logo ali a par. Quando o barco, mais leve, se podia puxar mais para cima, e se aquietava, o carro avançava, subia um pouco ainda afastando-se dele; e o lidar das moças tornava-se mais vivo, as ancas mais sacudidas, pelo peso. E caindo do alto, escorregando pelas roupas molhadas, patinhando na areia revolvida, os pequenos caranguejos vermelhos escapavam-se em todas as direcções. O caniço era cheio, era o carro levado até ao alto do areal.”
Se em tempos mais recuados, os barcos tipo poveiro dos pescadores da Praia d’Âncora, também se dedicavam à apanha do patelo, foram progressivamente deixando de lado esta arte de pesca, substituindo-a pela pesca da lagosta e da pescada. O seu lugar foi, entretanto, ocupado por algumas masseiras que operavam de forma diferente, pois como já foi referido, eram tripuladas por dois ou três homens, o que reduzia a capacidade de arrasto e varredura. Assim, era usado o “arrastão”, um saco de arrasto de menores dimensões, igualmente eficaz, mas sem a rentabilidade dos barcos maiores.
Em Âncora, o patelo era em grande medida pescado por encomenda prévia dos lavradores locais; a venda era ao cesto, em “verde” e, ora era vendido na areia, vindo o lavrador busca-lo à praia, ora era o pescador quem devia levá-lo até ao “campo”[2], onde vinham busca-lo os pretendentes, por vezes de muito longe.

Monte de patelo na areia do Portinho
Saíam muitas camionetas em direção à região de Esposende, Póvoa ou para zonas mais interiores, que carregavam a colheita dos “camaradinhas” e até vagões de comboio, que eram carregados à noite pelas mulheres.
A pesca do patelo não tinha regulamento específico e a melhor quadra era durante o final do verão até outubro, porque no inverno o caranguejo enterra-se na areia e não se pode secar. Em Âncora, as saídas até aos “limpos”[3] mais próximos ou de Afife iniciavam-se ao fim da tarde.
Os “camaradinhas” trabalhavam mais fora, nos “limpos” até às “Rodas”, enquanto os pescadores ancorenses, nas masseiras faziam o arrasto nos “limpos” mais perto da costa, entre o “Penedo Redondo” e a “Pedra Nova”.
Chegavam, fundeavam e esperavam que a noite caísse para começar a trabalhar, regressando de madrugada ou manhã dentro, para a descarga e venda do patelo.

Ilustração de Fernando Galhanos - Rede de arrasto do patelo
Nesta faina, que era desenvolvida principalmente por pescadores externos à comunidade Ancorense, muitas mulheres locais eram contratadas para carregar e transportar a safra até às camionetas ou para as “pilhas” no Campo do Castelo. O relacionamento entre os “camaradinhas” e os pescadores ancorenses era boa, quer pela jorna que davam às mulheres, mas também pelos géneros que ofereciam, pois eles vinham bem abastecidos de batatas, azeite, fruta e vinho.

"Cacos" perdidos da rede de arrasto que, por vezes, ainda aparecem junto ao mar
Durante o período em que estavam deslocados em Âncora, se viesse mal tempo ou condições impróprias de mar para desenvolver a pesca do patelo, regressavam de comboio às suas terras, deixando os barcos e o equipamento à guarda de pescadores ancorenses, que depois recompensavam com os géneros alimentícios atrás referidos.
A partir de meados da década de cinquenta, estas atividades, por toda a costa portuguesa, foram sucessivamente perdendo importância, encontrando-se hoje totalmente extintas
Quer por escassez do caranguejo, quer porque se encontraram outras formas de enriquecer as terras com adubos químicos, que exigiam com menor esforço de trabalho, a apanha do patelo e o convívio com os “camaradinhas” passaram a ser uma memória da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora.
[1] Fernando Galhano (1904-1990), investigador, ilustrador e etnógrafo português.
[2] Campo do Castelo
[3] Zona com fundo de areia.
Fontes: “Actividades agro-marítimas em Portugal” de Ernesto V. Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira; “A Masseira Ancorense” de Celestino Ribeiro e Brito Ribeiro
Comentários
Enviar um comentário