Alfredo Mourão - Jornalista
A propósito do centário do nascimento do Dr. Luís Inocêncio Ramos Pereira, realizou-se em setembro de 1970 uma sessão solene comemorativa e a inauguração de um monumento colocado no parque com o nome do homenageado.
O monumento foi financiado por subscrição pública junto da população ancorense e na organização destacou-se o jornalista Alfredo Mourão, à época redator do bisemanário vianense "A Aurora do Lima".
Ele foi a força motriz de toda a organização, tendo até publicado um número especial do jornal onde trabalhava, dedicado exclusivamente à efeméride.
Hoje publico o artigo assinado pelo Alfredo Mourão, e inserido nesse número especial, que não é mais que a sua própria e sentida homenagem ao Dr. Ramos Pereira.

"Missão cumprida
Decalcada no tempo, inspirada na verdade, erguida em factos e testemunhos indesmentíveis, a REGIÃO DO VALE DO ÂNCORA paga, finalmente, o tributo a quem só os “DIGNOS” a ele se alcandoram e têm direito.
Não interessará recordar o caminho percorrido para que tivesse sido vencida esta autêntica “VIA SINUOSA” a partir de 16 de Janeiro findo. O tempo, os factos e os vindouros, se encarregarão do resto.
Praticamos o culto da gratidão, que consideramos a mais bela de todas as “devoções” que possam ser praticadas.
Foi no contacto íntimo das gentes do mar, com as quais conversamos horas, tardes e mesmo dias seguidos, escutando velhos e novos pescadores, que soubemos e apreendemos essa bela página da vida do Dr. Luís Inocêncio Ramos Pereira. É certo, também, que muito aproveitamos dos ensinamentos colhidos nas veigas de Âncora e de Afife, ouvindo o lavrador ou a camponesa, em todo um quase lendário discorrer sobre a insigne Figura.
Finalmente, foi no contacto com as gentes humildes mas integras, fontes límpidas e puras, que estas e outras linhas, aqui ou ali publicadas, nasceram.
E se a verdade deve dizer-se, é facto que muito pouco nos ensinaram – a nós e à nossa geração – as classes mais abastadas ou privilegiadas.
Para aqueles que não nos conhecem – e tantos foram em número aos que nos tivemos de dirigir, ao longo desta jornada – respondendo mesmo a perguntas formuladas, diremos que não tivemos a felicidade de conhecer o Senhor Dr. Luís.
Pertencemos a uma geração mais recente, e poucos meses contaríamos de existência quando ESSE GRANDE foi a enterrar.
Ouvimos, no entanto, e registamos dezenas de depoimentos insuspeitos, conversamos com centenas de mulheres e homens, lemos textos e artigos, apontamentos e bibliografias, num desfolhar talvez de mais de um milhar de páginas.
Procuramos e temos a certeza de havermos bebido a verdade.
Assim, quando da partida Pró-Centenário, sabíamos com o que se contava e que a força da gente do povo é algo extraordinário e belo e encorajante. Nos textos vindos a público nestas páginas ao longo dos meses, ou naqueles que hoje aqui ficam, a figura do Grande Homem está fielmente traçada.
Um livro diferente, que num futuro breve terá de ser escrito, se encarrega de ser fiel a si mesmo…
O Centenário aí está finalmente. Mas como a Praia de Âncora está mais pobre, desde a partida do Dr. Ramos Pereira!
Como desde o alto dos campanários, à azáfama matinal do Portinho, tudo é, então, diferente.
Mas o povo, sincero como só ele é, tem razão, afinal, para chorar a perda do grande Amigo. A cumulam-se todos os dias os motivos, para não O esquecer.
É que com o Médico Luís Ramos Pereira, os telefones chamavam mesmo de noite, as campainhas das residências jamais seriam desligadas, só para que o sono fosse mais repousante.
Com esse “Apóstolo do bem”, não seria possível recordar hoje o drama dessa pobre Mãe, meia noite adiante, pelas artérias da povoação gritando: “Salvem o meu querido filho – não o deixem morrer”. E a criança morreu, as portas não se abriram. Mas a quantos outros o mesmo não terá acontecido? É que o “velho” médico ia ao encontro do enfermo não se furtando a ele, pois não ignorava a autêntico dever sacerdotal que contraíra ao receber um diploma.
Como Político tinha muito de único. Não eram necessários momentos eleitorais, para mostrar às suas gentes, uma face reservada, que por vaidade ou comodismo, o ano inteiro se traz oculta. O Político cumpria sem prometer e o povo jamais duvidou de SI.
Como Homem, devia sentir-se feliz e realizado. Nunca quis ser rico, não obstante as oportunidades que se lhe ofereceram. Era autêntico. Nunca quis ter à mesa de sua casa um pantagruélico almoço, sabendo da miséria do vizinho, mesmo de ideologia diferente.
A sopa mal adubada, o negro pão de milho ou uma tigela de barro, de leite, foram vezes inúmeras, a sua refeição. A sua bolsa, era para atender às necessidades do próximo, antes de atender às suas. Quis morrer sem fortuna, este Homem, que profissionalmente exercia a Medicina.
Como chefe de família: - Ninguém melhor que os seus filhos o podem e sabem evocar, como tantas vezes no-lo têm feito a D. Dulce, a D. Mariazinha ou o Sr. Almirante: Era diferente, e com isto dizem tudo.
E esta terra, para cuja elevação a Vila trabalhou, querendo ser igual às tradições e bairrismo, não podia ficar indiferente.
Esta data tinha, decididamente, de ser assinalada. Para além da justiça que se presta, ressaltara ainda a virtude, recordando aos novos, aqueles que todos os dias nascem, que na meninice de seus pais ou nas relações de amizade de seus avós, uma Figura existiu que a eles, jovens, competirá o dever de legar aos vindouros.
Ao fundo da Avenida com o seu nome, erguido num Parque que amanhã terá de ser igual ao traçado que a planta nos oferece, fica o Monumento, cujo busto, quase dez anos decorridos, vai ser inaugurado.
Não duvidamos da associação de todas as gentes. Aceitamos que todo o distrito até, gostaria de se ter tornado integrante da Homenagem.
É necessário, isso sim, irmanarmo-nos na realidade, e esta a todos vai, certamente, deixar satisfeitos.
Na verdade, essa criança nascida na freguesia do Bonfim, do Porto, esse moço aluno e formado na Escola Médica da Cidade Invicta, foi por tudo e por todos um grande Ancorense – sem dúvida o maior, - dos mais ilustres e mais dignos do Alto-Minho, e foi um português com tão altos serviços prestados nos vários sectores, que a sua história não pode circunscrever-se ao rotineiro artigo de um jornal.
Melhor que nós o evocam, entre tantos outros, os escritores Sarmento Pimentel e António Amorim, e ainda a sentido de apurada observação de Umberto Lopes e Álvaro Salema.
Nós, na realidade, nenhum depoimento, tínhamos a trazer hoje aqui.
Somos apenas um elemento do povo, colocado na missão de intransigente observador.
Mas a Administração e a Direcção deste Jornal entenderam o contrário, e, por isso, aqui viemos.
Satisfeitos? Sem dúvida, por missão cumprida…
Alfredo Mourão"
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