Charles Lindbergh no Alto-Minho

Texto e fotos de José António Barreto Nunes que, amavelmente, me autorizou a sua publicação.


 


Nota prévia: o presente texto foi feito com a imprescindível colaboração do meu amigo Sr. José Adriano Oliveira Cruz, que através de um mapa cartográfico me conseguiu indicar o local exacto onde se deu o acontecimento que irei descrever. Fez-me ainda o favor de me localizar uma testemunha presencial de parte do acontecimento, curiosamente, meu primo por afinidade Sr. Ernesto Monteiro de Barros. Também meu irmão Henrique contribuiu para a feitura do texto ao conseguir-me cópias dos jornais da época.


A história verídica que vos passo a contar, surgiu-me com a notícia que o jornal Público, no “P 2”, do passado dia 13 de Fevereiro de 2009, nos deu a conhecer, ao evocar que, na mesma data de 1935, um tribunal americano condenara à morte o raptor do filho de Lindbergh.


Recordei-me então de uma fotografia existente num álbum familiar, na nossa casa da Quinta da Boavista, em Monção, que mostrava um hidroavião e respectivos pilotos sobre uma das asas. Era uma forte imagem que me vinha do meu imaginário infantil, para quem, como eu, pelos 8/9 anos de idade, sonhava ser piloto aviador.


Referindo-se à mesma fotografia, meus pais e avós tinham-me contado a história da amaragem (pouso de um hidroavião na água) de


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Lindbergh no Rio Minho, nas proximidades de Monção. Tudo se passou no mês de Novembro de 1933 (mais precisamente no dia 12/11/1933) conforme adiante descreverei. Outros documentos fotográficos na posse da minha família também comprovam esse evento que, aliás, já veio aflorado em recentes números da Terra Minhota.


Charles Augustus Lindbergh foi um pioneiro da aviação norte-americana, que se tornou famoso por ter feito o primeiro voo transatlântico, solitário e sem escalas, no ano de 1927.


Nascido em 04/02/1902, em Detroit, USA, e falecido no Havai em 26/08/1974, Charles Lindbergh era filho de Charles A. Lindbergh, congressista americano de 1907 a 1917, e de Evangelyne Lodge.


Aquele famoso voo transatlântico de Lindbergh teve início no Condado de Nassau, Estado de Nova Iorque, em direcção a Paris, no dia 20 de Maio de 1927, onde aterrou no dia seguinte. O avião usado por Lindbergh, um Lockhead, chamava-se "The Spirit of Saint Louis", tendo o voo demorado 33h31. O feito de Lindbergh valeu-lhe o "Prêmio Orteig", de 25.000 USA/dólares, anunciado desde 1919.


A sua chegada a Paris foi triunfal. A comemoração quase acabou em tragédia. Recebido calorosamente pelos parisienses, o piloto quase foi sufocado pela multidão que se aglomerava para cumprimentá-lo.


Lindbergh não foi, porém, o primeiro aviador a fazer um voo transatlântico, feito que pertence a John Alcock e Arthur Whitten Brown, que voaram dos Estados Unidos da América para a Europa em 1919; em 1927, cerca de um mês antes do voo de Lindbergh, também o brasileiro João Ribeiro de Barros repetiu a façanha. Porém, ambos esses voos foram feitos por mais de um tripulante; já Lindbergh foi o pioneiro no voo solitário.


Seu neto, Erik Lindbergh, repetiu a viagem num avião semelhante ao usado por seu avô Charles, 75 anos depois, em 2002.


Em 1932 deu-se a tragédia com que iniciamos esta narrativa. Um tal Bruno Richard Hauptmann raptou o filho de Lindbergh, então com 19 meses de idade. A história teve um fim trágico, já que, após ter sido pago um resgate de 50.000 USA/dólares a criança apareceu morta num bosque próximo da casa de família. O raptor negou o crime em tribunal, mas foi condenado e executado na cadeira eléctrica em 3 de Abril de 1935.


Entretanto, no decurso do processo, Lindbergh, querendo isolar-se destes traumáticos acontecimentos, mudou-se para o nosso continente com a família.


Aqui chegado, começa a sobrevoar a Europa no seu hidroavião “Albatroz”, sendo então que, quando se dirigia de Santander para Lisboa, se dá o acontecimento que deu origem a este texto, ou seja, a avaria e paragem nas proximidades de Monção, mais precisamente na Ínsua do Crasto, belíssimo local na margem esquerda (a portuguesa) do Rio Minho, sito em grande parte na freguesia de Friestas, Valença, mesmo na fronteira com a freguesia de Lapela, do nosso concelho – uma rápida visita à Internet, ao sítio do Google Earth, dá-nos a conhecer esse local paradisíaco.


Aliás, muitos monçanenses viram o hidroavião sobrevoar Monção e acorreram de imediato ao local, naturalmente os que tinham carro, o que não era frequente nesses tempos, e que, entre outros, eram os casos de meu bisavô materno Abílio Dantas, sócio-gerente da fábrica de serração então sita nos Padrões, e de meu avô materno Manuel Barreto que foi gerente da mesma fábrica (tinha um Ford T, que muito gostaria de reaver), localizaram a amaragem do hidroavião ora em Troporiz, ora em Lapela, o que efectivamente não corresponde à verdade dos factos, já que a sua localização é mesmo na área de Friestas, Valença, localidade onde, inclusive, lhe fizeram um monumento evocativo do acontecimento.


Por falar nesse monumento, desloquei-me no dia 16 de Maio a Monção para colher algumas informações junto do meu primo atrás referido, Sr. Ernesto Barros, o mais monçanense dos valencianos que conheço, um dos verdadeiros gentlemen alto-minhotos, residente na nossa Terra há mais de 60 anos, e que, inclusive, como é do conhecimento de todos, foi o autor do emblema do Desportivo de Monção.


Aproveitei para passar por Friestas para ver e fotografar o monumento alusivo à passagem de Lindbergh por aquelas paragens. Com o devido respeito, permitam-me que me insurja contra a localização e o estado de abandono de tudo o que rodeia o monumento.


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Pelo que pude apreciar, permitam-me os friestenses que faça uma sugestão: mudem o monumento para próximo da ecopista, mais precisamente para o lugar onde terá havido uma passagem de nível, e onde, certamente, será apreciado pelos passeantes (portugueses, galegos, ecologistas, ambientalistas, etc.) que, segundo me dizem a percorrem em grande número.


Tive ainda a curiosidade de descer ao rio Minho – junto à foz do Rio Manco, local belíssimo que não conhecia – para tentar localizar a Ínsua do Crasto. Infelizmente, não encontrei ninguém que me indicasse a sua localização exacta. Como era um domingo muito chuvoso e o piso em terra, não me meti em aventuras.


Prosseguindo a narrativa, alguns jornais da época relataram exaustivamente o acontecimento – Primeiro de Janeiro, Correio do Minho e Diário do Minho, etc. – e é neles que me vou alicerçar para prosseguir a sua evocação no presente texto.


A primeira notícia que localizei veio publicada no Correio do Minho de 14/11/33, que relatou o seguinte:


“Monsão, 13 – O aviador Lindbergh voou sobre Monsão [assim escrito], vindo de Santander e desceu no Rio Minho, devido ao nevoeiro, junto da Ínsua de S. Mamede, entre as estações de Friestas e Lapela, tendo ido hospedar-se em Valença. O aviador é acompanhado por sua esposa, deve partir amanhã às 10 horas para Lisboa.


Vigo, 13 – O aviador Lindbergh amarissou na Ilha Boa, devido ao nevoeiro. Às 17 horas não há mais notícias dos aviadores.


Valença, 13 – O aviador americano Lindbergh, devido ao nevoeiro e falta de gasolina, desceu em Friestas, a oito quilómetros de Valença, no Rio Minho e junto à Quinta do Crasto. Lindbrgh e sua esposa foram recebidos festivamente na Câmara desta vila e ficaram alojados no Hotel Valenciano.


Gijon 13 – Os esposos Lindbergh partiram de Santoña, às 10,45 horas, tendo o hidroavião sido visto quando sobrevoava sobre Gijon. O avião parecia afastar-se da Costa para o interior, provavelmente devido às más condições atmosféricas do litoral.


Lisboa, 13 – No Centro de Aviação Marítima esteve durante a tarde de hoje, tudo preparado para receber o aviador Lindbergh. Às 15 horas, numerosos aparelhos, tanto da aviação terrestre como da aviação marítima levantaram voo, permanecendo no ar por largo espaço de tempo, na esperança de encontrarem e comboiarem o célebre aviador americano. A formação de nuvens baixas obrigou todos os aviões a regressarem às suas bases, exactamente quando chegava a notícia da descida de Lindbergh no Rio Minho.


Nota da redacção – O aviador Lindbergh, que foi o primeiro a ligar o continente americano ao europeu num só voo, anda com sua esposa a estudar a possibilidade do estabelecimento de carreiras aéreas entre a América e a Europa, missão de que foi encarregado por uma companhia norte-americana.


Carlos Lindbergh, que é avesso a manifestações, tem, durante a sua viagem, descido em pontos distantes daquele que prevíamos, precisamente para evitar que lhe manifestem simpatias.


O glorioso aviador, já mundialmente conhecido em consequência da sua façanha realizada com o “The Spirit of Saint Louis”, foi, há pouco mais de um ano, discutido em todos os jornais por motivo do rapto do seu primeiro filho, levado a efeito por bandidos que exigiram depois um fabuloso resgate e que acabaram por assassinar o pequenito inocente.” Na mesma data, 14/11/33, o Primeiro de Janeiro, em notícia intitulada ‘O voo de Lindbergh sofre nova interrupção – Descida forçada no rio Minho. Acolhida entusiástica, saudação ao povo português por intermédio do Primeiro de Janeiro’, escreveu “O grande aviador acaba de sofrer novo percalço. O seu projectado voo de Genebra a Paris, pela segunda vez é interrompido. Há dias, o mau tempo obrigou-o a amarissar na praia de Santoña (Santander). Ali foi forçado a esperar que as condições atmosféricas melhorassem para prosseguir na sua rota. Com efeito, ontem pelas 10,45 descolou para Lisboa, mas ao atravessar o Rio Minho, cerca das 14,20, teve de descer na `Ínsua da quinta do Crasto, lugar de Friestas, do concelho de Valença. A gasolina desfalcara-se demasiadamente para prosseguir no voo, que o nevoeiro e a pressão atmosférica contrariavam também grandemente.


A descida fez-se sem o menor incidente, e os esposos Lindbergh viram-se dentro de poucos momentos rodeados de muita gente e das mais penhorantes dedicações. Assim, devidamente acondicionado e resguardado o aparelho, Lindbergh e sua esposa entraram para um automóvel que os conduziu a Valença onde lhes foi feita uma calorosa acolhida. Dirigiram-se à Câmara Municipal, onde foram saudados pela Comissão Administrativa, do mesmo passo que os valencianos mais cotados que ali acorreram os cumprimentaram e o povo na rua os ovacionava delirantemente. Depois, o ilustre aviador e sua esposa dirigiram-se para o Hotel Valenciano, onde a Câmara lhes ofereceu um jantar.


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O Jantar decorreu com a maior cordialidade. (…) O heróico aviador mostrava-se muito grato aos auxílios tão prontamente prestados e à acolhida carinhosa que lhe foi feita. Sabendo da nossa qualidade de correspondente deste jornal, pediu-nos para por intermédio de o Primeiro de Janeiro, saudar o povo português.


(…) Lindbergh e sua esposa seguiram agora para Friestas para pernoitarem no seu avião, que é um aparelho de diminutas proporções. Acompanhou-os a Polícia Internacional, um tenente da Guarda Republicana e alguns oficiais da marinha espanhola.


O Cônsul americano em Vigo e o seu secretário estiveram aqui conversando com o notável aviador, que foi também cumprimentado pelos oficiais da canhoneira espanhola ‘Perla’, que se encontrava o Rio Minho.


Estiveram aqui também representantes do ‘Pueblo Gallego’ e do ‘Faro de Vigo’.


De todas as povoações até Monção e do lado de lá da fronteira, vieram muitos milhares de pessoas ver e saudar os esposos Lindbergh.


(…) Enquanto Lindbergh veio a Valença, o aparelho ficou fechado e guardado pela guarda-fiscal e marinha.”


No dia seguinte, 15/11/33, o Primeiro de Janeiro, num grande texto intitulado ‘Lindbergh em Valença – O célebre aviador continuou a ser aclamadíssimo – deve levantar voo hoje para Lisboa, se o tempo for propício, acompanhado de duas fotografias, uma do jantar de homenagem, outra do hidroavião, continuou o relato:


“(…) Valença continua alvoraçada com a estadia aqui de Lindbergh. Tem sido, desde manhã uma verdadeira romaria para Friestas. Consta que o aparelho virá para o cais desta vila e os aviadores, ao meio-dia, irão almoçar ao Hotel Valenciano. (…) Devido ao nevoeiro só se deslocam amanhã para o Tejo.


(…) O cônsul espanhol em Valença e o comandante da lancha ‘Cabo Fradera’, da marinha de guerra espanhola, que se encontra em Tui em serviço de fiscalização, dirigiram-se esta manhã à Ínsua do Crasto, em Friestas, onde estavam os esposos Lindbergh. Dedicavam-se já a cuidados com o aparelho, onde haviam já introduzido 200 litros de gasolina, adquirida em Monção. Tinha-se já verificado, em face do denso nevoeiro e do abaixamento da pressão atmosférica que era impossível levantar voo.”


Este extenso relato dá-nos depois conta de mais um almoço de homenagem no Hotel Valenciano e de uma visita do casal Lindbergh a Tui e Vigo. Em Tui foram hóspedes do comandante da canhoneira ‘Cabo Fradera’, Sr. Rancez.


Outra notícia curiosa, dá-nos conta das limitações da época, ao informar-nos que Lindbergh, pelas 18 horas, teve uma chamada telefónica de Londres e outra de Paris, “chamadas que caducaram por Friestas ficar fora da área”.


Por fim, informa o mesmo jornal que “antes do almoço, e após o desembarque do gasolina que os conduziu de Friestas ao cais de Valença, receberam os cumprimentos dos desportistas do Norte, Srs. Vasco Gaspar, Roberto Sameiro, Mário Ferreira e Diogo Cabral”. Anote-se que a gasolina foi fornecida pelo meu bisavô materno Abílio Dantas, sócio-gerente de uma Fábrica de Serração em Monção e pelo Aeroclube de Braga.


No Diário do Minho de 15/11/33, em notícia proveniente de Monção (aqui escrita como o é hoje em dia), relatou-se o anteriormente exposto e acrescentou-se com algum interesse que “uma das primeiras pessoas que por curiosidade deles se aproximou sabia falar o inglês por haver estado na América do Norte. Não mais se separou deles, acompanhando-os para toda a parte”.


Também o Correio do Minho de 15/11/33, relatou o acontecimento em texto intitulado “Lindbergh está retido no Rio Minho – Amanhã de manhã. O grande aviador largará para o Tejo, dizendo-se que tenciona fazer o voo directo Lisboa – Nova Iorque”, escrevendo com interesse:


“Depois de realizada a manobra do abastecimento do aparelho, Lindbergh e sua esposa desembarcaram e estiveram na Quinta do Crasto, onde o comandante da canhoneira espanhola ‘Cabo Fradera’, ancorada no Rio Minho, foi buscá-los num gasolina daquele navio, conduzindo-os à Ponte Internacional de Valença.


(…) O estado de espírito de Lindbergh, naturalmente aborrecido com a amaragem forçada, embora realizada em óptimas condições, tornou-se menos sombrio na recepção na Câmara, e a recepção popular, com  o  carácter  simples  das terras pequenas, impressionou-os, demonstrando sua esposa, mais afectiva, enorme satisfação.


Hoje estava anunciada a partida para as 10 horas. Dos arredores acorreu muita gente às margens do Rio Minho. O local onde o avião ancorou é admirável. A Ínsula comporta um velho solar, fidalgo, de tempos históricos, e que foi propriedade do falecido General Pimenta de Castro. Hoje está abandonada, pois os herdeiros nunca mais ali foram. A Ínsua não tem condições de acomodação, pois algumas casas ali existentes são muito modestas”.


Mais à frente, após descrever o almoço em Valença, onde “Lindbergh teve à sua direita a consulesa americana em Vigo, e ao lado de Madame Lindbergh sentou-se o Dr. Pinto da Mota, presidente da Câmara (…)”.


Depois, o Primeiro de Janeiro de 16/11/33 descreveu a viagem de Lindbergh até Lisboa, em texto intitulado “Lindbergh já alcançou Lisboa – um voo admirável. De Valença à capital em uma hora e quarenta minutos”:


“O tempo ontem deixou de ser hostil para o grande aviador. A névoa desaparecera e o sol, por fim, rompeu glorioso e a iluminar a travessia do intrépido aeronauta.


Do Observatório da Serra do Pilar, a pedido de Valença, tinham enviado, por intermédio da estação telegráfica de Caminha, boletim das observações realizadas, inteiramente favoráveis ao voo.


A seguir damos as comunicações telefónicas que fomos recebendo durante a manhã e que transmitimos aos nossos correspondentes da província para serem afixadas nos nossos ‘placards’:


Valença, 15, às 11 horas – Lindbergh vai já a caminho de Lisboa. Levantou voo de Friestas às 10h55, em direcção a esta vila, sobre a qual deu algumas voltas a pequena altura. Depois elevou-se e largou a toda a velocidade em rumo a Caminha.


Cerveira, 15, às 11h10 – o glorioso aviador Lindbergh passou sobre nós às 11h10.


Seixas, 15 – O arrojado aviador Lindbergh passou hoje às 11h15 nesta localidade, a pouca altura, com grande velocidade em direcção ao sul. O hidroavião ia tão baixo, desviado da rota do rio Minho, que a cor da sua calda, vermelha, distinguia-se perfeitamente. Ao cabo de um minuto de voo, perdeu-se de vista, seguindo por cima do pinhal do Camarido, nas alturas de Moledo.


Vila Praia de Âncora, 15 – Hoje, pelas 11 horas, passou nesta praia com rumo ao sul, o hidroavião do famoso navegador Lindbergh.


Póvoa de Varzim, 15, à 11h30 – passou agora aqui o avião de Lindbergh. Eram 11h25, quando apareceu ao Norte, em marcha muito rápida. Passou sobre parte desta vila, metendo de novo à orla do mar. Muita gente nas ruas, que rompeu em grandes aclamações.


O aparelho passou à costa, em frente ao Porto, às 11h40, chegando a Lisboa uma hora depois.


Compara-se esta velocidade com a de um telegrama que nos foi expedido de Cerveira, quando o aviador ali passou e que só chegou a este jornal às 15h45! Gastou quatro horas e um quarto! Já Lindbergh tinha amarissado na Doca de Belém havia 3 horas e 5 minutos.


De novo o Diário do Minho, agora de 16/11/33, do seu correspondente de Monção, que assinava “C”, em texto intitulado “Lindbergh e sua esposa – foram entusiasticamente recebidos em Lisboa por milhares de pessoas, pelas autoridades, Ministro do seu país e pelos aviadores portugueses”, escreveu o seguinte:


“Monção, 15 – Pelas 10,50 levantou voo o grande aviador. As manobras foram interessantes, prendendo a atenção de uma grande massa de povo, tanto português como espanhol. O avião começou a sair do seu ancoradouro e começou a entrar no rio, procurando vencer a corrente, subindo sempre, quase até Lapela. Ali deu uma volta e aproando à barra pôs em movimento mais acelerado os seus motores. É então que começa a subir vertiginosamente à vista da multidão encantada que o saúda. Subindo sempre, volta novamente a passar em saudação sobre o ponto de partida, demandando à barra. Lindo momento aquele!


Lisboa, 15 – Após duas horas de voo, o grande ás da aviação americana amarou hoje na Base Naval da Aviação de Lisboa. Já desde manhã que naquela base se encontravam muitos oficiais aviadores, iniciando-se os preparativos para a recepção aos arrojados aeronautas.


(…) Cerca do meio-dia, chegaram o representante da América e o Encarregado dos Negócios do México, e às 12,40 apareceu ao longe a silhueta do ‘Albatroz’, que voava a pequena altura, descrevendo lindas curvas sobre a base naval, amarando depois ao largo, próximo do Ginjal.


No Tejo, centenas de barcos e em diversos pontos, em terra, milhares de pessoas, ovacionando os aviadores e acenando lenços. Foi um espectáculo deslumbrante (…)”.


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Como disse a princípio, esta era uma história de que sempre ouvi falar e de que minha família tinha recordações fotográficas, numa das quais se vêem o aviador, sua mulher Anne, tendo atrás, numa delas, de pêra e bigode, meu bisavô Abílio Dantas e sua filha, com um chapéu, então muito jovem e belíssima, minha tia avó materna, D. Maria Regina Dantas Gomes, que terá sido uma das intérpretes. Inclusive, Anne Lindbergh deu-lhe um autógrafo que também se junta e que é pertença dos seus filhos, os monçanenses/aveirenses António Abílio, Angelina (Nina) e Maria Cândida, que tiveram a gentileza de mo ceder.


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Curiosamente, na conversa que tive com o Sr. Ernesto Barros, fiquei a saber, relativamente à mesma foto, que do lado esquerdo, a primeira figura que aparece é D. Benigno Alvarez Sanchis, cidadão espanhol, casado com uma professora de Valença, que falava fluentemente inglês e que não mais largou Lindbergh, facilitando-lhe o contacto com as autoridades que ali ocorreram. O senhor de chapéu, ainda segundo Ernesto Barros, era o Presidente da Câmara de Valença, Sr. Pinto da Mota. Por fim, atrás do famoso piloto, e com aspecto ainda jovem, encontra-se o cidadão monçanense Sr. Alfredo Roma.


Ainda segundo Ernesto Barros, então muito jovem e que foi testemunha presencial, na recepção ou no jantar de homenagem ao casal de aviadores na Câmara Municipal de Valença, Lindbergh, com o à vontade que caracteriza os americanos, agradeceu às autoridades de modo informal, chegando, inclusive, a discursar sentando-se no tampo da mesa, o que, de certo modo, chocou os circunspectos cidadãos presentes.


Resta finalizar, enaltecendo o modo como o Alto-Minho viveu e conviveu com o acontecimento, talvez inédito na época, resultante do facto de um famoso aviador e sua mulher, por mero acidente de percurso, terem aqui amarado.


Entendi interessante evocar o acontecimento, perspectivando que talvez haja mais monçanenses, friestenses e (ou) valencianos, entre outros, jovens agora a rondar os 80 ou mais anos de idade, que o tenham presenciado e possam fornecer mais elementos conexos e relevantes.


Muito interessante, também, é o modo como a imprensa conviveu com o acontecimento, relatando-o por telefone, comparando a lentidão das notícias com a velocidade do avião – estávamos em 1933…


Braga, 17 de Maio de 2009


José António Barreto Nunes


(publicado nos jornais “A Terra Minhota” de Monção, Diário do Minho de Braga, e “Luso-Americano”, de Newark, USA)

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