Um episódio da Guerra Peninsular na Foz do Minho
Em tempos, publiquei aqui no blog um pequeno texto sobre a participação de Ancorenses na Guerra Peninsular, designadamente na segunda invasão francesa.
Hoje vou desenvolver um pouco o que se passou na escaramuça da Foz do Minho, quando os franceses tiveram a infeliz ideia de atravessar o Rio Minho.

Praia do Muiño, ao fundo ao centro a ilha da Ínsua, ao fundo à esquerda a costa portuguesa
Resumidamente e para contextualizar, Napoleão tinha ordenado que o II Corpo do Exército francês que estava na Corunha, devia marchar em direção ao Porto, ocupar a cidade e seguir para Lisboa, para onde marcharia o I Corpo que estava para os lados de Badajoz, assim como outras forças francesas que estavam em Salamanca.
O II Corpo do Exército, comandado pelo Marechal Nicolas Soult não encontrou resistência na Galiza, ocupando sucessivamente Ferrol, Vigo e Tui. A praça fortificada de Valença metia respeito pelas bocas de bogo que dispunha e a 15 de fevereiro de 1809 Soult ordena a travessia junto a Cerveira, tendo sido repelidos pela artilharia portuguesa.

Movimentos das forças francesas durante a 2ª invasão - 1808-1809
No dia seguinte os franceses fizeram nova tentativa de passar o Rio Minho, desta vez em Camposancos, junto à Foz do Rio Minho utilizando barcos de pesca, certamente carochos e gamelas.
As forças portuguesas, compostas por tropas regulares do General Bernardim Freire e populares da região minhota, geralmente muito aguerridos, indisciplinados e mal armados, antecipando as intenções dos franceses, atravessaram durante a noite o rio, tendo inutilizado muitos barcos galegos e trazido outros para o lado português.
Quando os franceses quiseram atravessar, as suas forças só conseguiram reunir cerca de 35 embarcações. Mesmo assim fizeram a tentativa de estabelecer uma testa de ponte do lado de Caminha com cerca de 300 a 400 soldados, que lhes permitisse resistir aos portugueses até chegarem os reforços de novas travessias.
Quando os franceses se fizeram ao rio foram recebidos pelos portugueses e alguns galegos que tinham fugido para Portugal a tiro de mosquete e de duas peças de artilharia. Apenas 3 embarcações conseguiram chegar à margem sul, tendo sido aprisionados imediatamente 39 franceses.

Rua Costa dos Soldados, ao fundo a Praia do Muiño
Esta ação tão decisiva levou o comandante francês a dar ordem de retirada e decidir atravessar a fronteira por Chaves, obrigando o seu exército a fazer mais de duzentos quilómetros suplementares em condições muito penosas, no inverno e com caminhos miseráveis.
Esta ação de combate portuguesa no início do século XIX pode ser classificada como caraterística daquilo que hoje designamos por “operações especiais” tal foi a antecipação, surpresa e objetividade da operação em terreno controlado pelo inimigo.
Ainda hoje do lado galego, em Camposancos, junto à Praia do Muiño, a rua principal se chama “Costa dos soldados” como recordação daquele episódio da Guerra Peninsular.

Capela da Senhora do Bom Sucesso, ao fundo o Monte de Santa Tecla na Galiza
Do lado português, no local foi construída uma pequena capela consagrada à Senhora do Bom Sucesso, que se arruinou no final do século XIX e foi reconstruída por iniciativa de Manuel Rodrigues Pires e Manuel Busquets de Aguilar, com a colaboração da população de Cristelo, tendo sido reinaugurada a 28 de setembro de 1941.
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