O Grande Incendio

ÀS 4.30 horas da manhã de 3 de novembro de 1916, os sinos das torres da Praia d' Âncora tocaram a rebate, porque um violento incendio se manifestara na Praça da República, no prédio de três andares onde estava instalado o Centro Comercial do Minho, da empresa "Pedro António Portela, Sucessores".


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Papel timbrado do Centro Comercial do Minho


 


O estabelecimento de lanifícios ficava no rés-do-chão e a família Portela morava nos andares superiores.


Dada a natureza do recheio altamente inflamável (todo o tipo de tecidos, vestuário e redes de pesca, entre outros) e a estrutura do prédio, apesar do apoio popular na tentativa de extinguir as chamas, o incendio tomou proporções pavorosas, correndo sérios riscos de se propagar aos prédios contíguos e fronteiros.


Foram chamados a auxiliar as Corporações de Bombeiros Voluntários de Caminha e Viana do Castelo, assim como os Bombeiros Municipais da mesma cidade.


Os Bombeiros Municipais seguiram para a Praia d’ Âncora com uma bomba, tirada por uma parelha de cavalos emprestados pelo Regimento de Artilharia dessa cidade.


Os Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo conseguiram formar um comboio especial, trazendo com eles uma escada “Magirus”.


Os Bombeiros de Caminha não compareceram, alegadamente, devido ao uma infeliz troca de telegramas.


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Praça da República cerca de 1911 - Centro Comercial do Minho ao centro da foto


 


É fácil imaginar que até chegar o auxílio dos bombeiros, o edifício já estava todo consumido, restando fazer o trabalho de rescaldo e pouco mais. Sabe-se que as Farmácias Brito e Ramos, do outro lado da rua ficaram com as paredes danificadas.


Salvaram-se alguns moveis e uma quantidade diminuta de fazendas. Os prejuízos estariam cobertos pela Companhia de Seguros “A Comercial”.


Perante este sinistro, inconformados com a ausência de meios que pudessem acorrer a estas ou outras catástrofes, no mesmo dia (3 de novembro de 1916) foi formada a Comissão Organizadora da Associação Humanitária “Bombeiros Voluntários da Praia d’ Âncora”. A reunião teve lugar nas instalações da Assembleia, que então se designava por “Grémio dos 21”.


O resto da história, vida e obra da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora está muito bem retratada na obra lançada quando a comemoração do cinquentenário da Associação em 1967 e, principalmente, na obra do centenário, da autoria da historiadora Aurora Botão Rego, editada em 2021.


Porém, há duas questões que gostaria de salientar; uma relacionada com o facto de, à época, existir uma associação de bombeiros em Caminha e nenhuma na Praia d’ Âncora; outra é a influencia da Loja Maçanica “Vedeta do Norte” da Praia d’ Âncora, no arranque e primeiros anos de vida da jovem Associação.


A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Caminha, nasce em 1896, mas desde 1880 que se encontram na imprensa local – Jornal Estrella de Caminha – apelos para a necessidade de criar um serviço de bombeiros.


Um conjunto de incêndios urbanos na vila de Caminha ao longo da década de oitenta do século XIX, realça essa necessidade e dá voz àqueles que defendiam a criação de um corpo de bombeiros. O então presidente da Câmara, Mendes Guerreiro, que é um dos grandes dinamizadores da ideia, chegou até a adquirir uma bomba e demais utensílios de combate a incêndios.


Ainda passaram mais uns anos até a Associação ver a luz do dia e sentir, como quase todas, as dificuldades de gestão inerentes a uma jovem associação desta natureza. Ora a Câmara Municipal de Caminha, após alguns “desencontros”, decidiu colaborar e contribuir para a nova associação humanitária, com materiais e verbas a partir de 1898. Além de ceder todo o material de combate a incendio que tinha sido adquirido há alguns anos atrás, estabeleceu uma verba a titulo de subsídio anual.


Esta situação devia deixar algum desconforto nos dinâmicos ancorenses que se mobilizavam e contribuíam com dinheiro e trabalho, para obras que pautavam como necessárias na Praia d’ Âncora, fosse no Monte Calvário, na Avenida da Praia ou até para a construção de um simples coreto na Praça da República.


A gota de água surge na sequência da não comparência dos bombeiros de Caminha para ajudar no combate ao incendio da loja dos Portelas. E aqueles homens que se reuniram na sala da Assembleia no fatídico dia 3 de novembro de 1916, devem ter concluído que se queriam ter um serviço de socorro a catástrofes na Praia d’ Âncora, teriam de ser eles a levar avante o empreendimento.


Os que formaram a “Comissão Organizadora” eram comerciantes, proprietários regressados do Brasil, hoteleiros e moradores nas imediações do local sinistrado. Desses sete “magníficos”, três eram obreiros na Loja Maçónica local, a “Vedeta do Norte”.


Quando a Associação arrancou formalmente, em janeiro de 1917 e são eleitos os corpos sociais, dos dez membros que compõe a direção, comando e conselho fiscal, quatro são maçons, incluindo o Venerável da Loja, José Alves de Sousa que assume o cargo de secretário da direção.


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Brigada da 1ª bomba braçal - 1920


 


Embora não fizesse parte dos órgãos sociais o dr. Luís Inocêncio Ramos Pereira, igualmente maçon, foi parte ativa na angariação de subsídios e verbas do Estado, valendo-se do seu cargo de senador da República.


No jornal “A Aurora do Lima” de 9 de janeiro de 1917 lemos:


 


“Um novo melhoramento e de subido valor conta esta praia – a fundação d’ uma Associação de Bombeiros Voluntários – preenchendo-se assim uma lacuna que há muito se fazia sentir.


Para a inauguração foram convidados alguns cavalheiros do Porto e Gaya e os primeiros comandantes dos bombeiros voluntários e municipais d’ essa cidade.


Depois de um ligeiro exame ao material adquirido, foi servido no Hotel Central um lauto jantar a que assistiram, além dos srs. Ricardo Arroio do Porto; Acácio Paredes Granja de Gaya; comandantes dos Bombeiros Voluntários e Municipais de Viana; dr. Laureano Brito, que foi escolhido para 1º comandante; José Lopes 2º dito, e o corpo ativo composto pelos srs. João Brito, José Carvalho, António Correia, José Moura, José Folgado, Manuel Portela, José Alves de Lemos, Joaquim Fernandes e Domingos Gonçalves.


Felicitamos do coração seus promotores, desejando as maiores prosperidades à benemérita corporação.”


 


O comandante dos voluntários de Viana em 1916 era Bartholomeu Kopke de Carvalho, obreiro da Loja “Fraternidade” de Viana do Castelo, que estivera no combate ao incendio do estabelecimento dos Portelas.


Este homem terá tido um papel discreto, mas importante no aconselhamento de aquisições e formação do comando da jovem associação ancorense.


Para terminar, dar nota que os proprietários do Centro Comercial do Minho, destruído no incendio, eram Manuel Portela e seu irmão António Portela, também eles obreiros na Loja “Vedeta do Norte”.


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Carimbo da Loja Maçónica "Vedeta do Norte"


 


Sobre a cerimónia descrita no jornal “A Aurora do Lima”, nada nos esclarece sobre uma eventual ausência de convidados da Câmara ou dos Bombeiros de Caminha.


No entanto, recorrendo à ata da Assembleia Geral de janeiro de 1918, um ano após a tragédia, parece não ter sido ainda esquecido o incidente com os Bombeiros de Caminha:


 


(…) “O horroroso incendio, em algumas horas devorou um dos mais belos e valiosos prédios da nossa ridente povoação, ao qual assistimos de braços cruzados, inertes e na perspetiva de vermos destruído o mais belo quarteirão de prédios da nossa terra. Da nossa impotência, ante o temeroso elemento que poderia trazer os maiores prejuízos de ordem material, para acudir apenas vimos boa vontade nas dignas corporações de Bombeiros de Viana do Castelo (…)


 


Fontes consultadas: Bodas de Ouro da AHBVVPA (1967); Anais dos Bombeiros de Caminha de A. Guerreiro Cepa (1995); 100 Anos a Servir de Aurora Botão Rego (2021); A Maçonaria ao Val. De Âncora; Loja Vedeta do Norte de Paulo Torres Bento (2021)


 


 

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