A propósito do Centenário

Comemora-se por estes dias o centenário de elevação a vila e alteração de designação de Gontinhães, para Vila Praia de Âncora.


Tal facto aconteceu a 8 de julho de 1924, com a publicação em “Diário do Governo” da decisão unanime e sem discussão da Câmara de Deputados.


Estas comemorações decorrem com o brilho e a dignidade que os organizadores entenderam possível e conveniente, indo prolongar-se no tempo até ao final do corrente ano.


 


Provavelmente a maioria dos ancorenses conhece globalmente esta questão da elevação a vila e da mudança de nome, mas pouco mais sabe, sobretudo, do que deu origem ao processo, que culminou com a apresentação da proposta na Câmara do Deputados, então o equivalente à Assembleia da República atual.


À frente desta iniciativa esteve o Dr. Luís Ramos Pereira (1870-1938) à época Senador eleito, republicano convicto e ancorense de coração. Consigo estavam diversos amigos, correligionários políticos e muitos ancorenses que defendiam o progresso da terra que os viu nascer ou da terra que escolheram para viver.


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Abro aqui um parêntesis para esclarecer que a velha aldeia de Gontinhães, que sempre vivera longe do mar, encostada ao sopé dos montes onde existiam os melhores terrenos agrícolas e os mais abundantes mananciais de água, longe do mar e dos perigos que representava (temporais e incursões de corsários), vem a modificar-se com a residência progressiva de pescadores a partir do início do século XIX.


Por esses tempos, uma quantidade apreciavel de pescadores guardeses e de outras origens, muda-se para o Lugar do Moureiro e da Lagarteira, iniciando uma nova comunidade e um novo ciclo de vida, que ganha rapidamente expressão devido à elevada fecundidade dos casais, que geram abundantes proles.


Fechado este parêntesis, fui encontrando evidencias de descontentamento perante as respostas (ou a falta delas) que a administração do Concelho sediado em Caminha, dava aos problemas da crescente população da Praia de Âncora, nome pelo qual passa a ser popularmente conhecida a partir de meados do século XIX.


Entretanto, é construída a Estrada Real em 1857, que atravessa a povoação e alguns anos depois, em 1878, o caminho de ferro segue o mesmo percurso em direção a Valença. Com esta facilidade de acessos, a Praia de Âncora aumentou exponencialmente, não só em população residente todo o ano, mas sobretudo durante a época de banhos, que então começava em agosto e se prolongava até finais de outubro.


E se a população aumentava, é fácil perceber que também aumentavam os problemas, designadamente os caminhos em mau estado, a falta de iluminação pública, as epidemias, a falta de segurança dos pescadores e, principalmente, a falta de água para abastecimento à população através de fontanários públicos. Este problema persistiu cerca de 100 anos, tendo sido resolvido já depois de 1960, com uma captação de água no Rio Âncora, no Lugar da Valada e a construção de uma rede de água domiciliária.


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Tudo isto era o combustível que se precisava para acusar a Administração do Concelho de falta de interesse em resolver os problemas e desigualdade de tratamento, sempre em prejuízo da Praia de Âncora.


Perante este cenário, ainda no tempo da monarquia, cresce a vontade de experimentar uma solução radical, que consistia em formar um novo Concelho com sede na Praia de Âncora e da qual fizessem parte as freguesias do Vale do Âncora, desligando-se assim de Caminha e dos problemas que, alegadamente, daí vinham.


Obviamente, que os políticos de Caminha e as forças vivas caminhenses, contestavam acesamente esta ideia, dizendo que a discriminação era infundada e uma loucura a cisão da parte sul do Concelho. Há inúmeros artigos na imprensa da época, a dar voz aos que são prós e contra a criação do novo Concelho, bem como ao coro de reclamações, que por essa via, eram dirigidas à Câmara de Caminha ao Governador Civil e até ao rei D. Manuel II.


Era obvio, que mais cedo ou mais tarde, Gontinhães aldeia agrícola que mudara o seu centro nevrálgico em volta da igreja matriz para a Praça das Necessidades - Praça da República após 1910 - e que era já o maior centro populacional do Concelho, não mais podia continuar como “aldeia”. Se em 1828 contava com 885 habitantes, em 1924 estimava-se haverem 3500 habitantes.


Podia e devia ser promovida a vila. Porém, aqui chegados abrem-se dois quadros:


O primeiro é que o Dr. Luís Ramos Pereira e seus apoiantes tinham consciência que criar um concelho era um processo lento e faseado, no qual não seria expectável uma aldeia ser sede de concelho. Por isso, a elevação a vila seria um primeiro passo na complexidade do processo.


O segundo passa por ser um “prémio de consolação” ao velho e fiel republicano, senador desde 1911, respeitado por apoiantes e opositores, acenando-lhe com a vaga possibilidade de mais tarde estarem criadas as condições para se evoluir no sentido da criação do novo Concelho.


Esta segunda questão servia também para contentar os opositores de Caminha, liderados pelo Dr. Damião Lourenço Júnior, 1º Presidente da Câmara de Caminha na República, posteriormente deputado e Governador Civil, médico e militante do Partido Democrático tal como Ramos Pereira. Apesar de militantes do mesmo partido a convivência entre eles era difícil e ambos eram irredutíveis nos seus propósitos.


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O certo é que em 1924 a freguesia de Gontinhães passou a designar-se oficialmente por Vila Praia de Âncora e foi elevada à categoria de vila.


Mas também é verdade que esse facto, não foi recebido localmente com festejos, nem entusiasmo. Diria até que foi encarado com indiferença ou desconhecimento.


A provar isso mesmo, está a ausência de notícias nos jornais da época e uma completa omissão nas atas da Junta de Freguesia, que durante cerca de três meses continua a designar-se por “Gontinhães” e quando finalmente surge com o novo topónimo escreve erradamente “Vila da Praia d’ Âncora” e persiste no erro algum tempo.


A primeira referência na imprensa, terá sido uma “grande reportagem” inserida no jornal “Primeiro de Janeiro” do Porto, a 11 de setembro de 1924, onde são feitas entrevistas ao Dr. Luís Ramos Pereira, a José Alves de Sousa e a João José de Brito que era, ao tempo, Presidente da Câmara de Caminha.


São também dedicadas algumas linhas à Associação dos Bombeiros e às Festas da Senhora da Bonança que estariam prestes a realizar-se.


De salientar que o resto da página é preenchido exclusivamente por publicidade a empresas da Praia d’ Âncora; não será de estranhar, que a Comissão de Iniciativa e Turismo local (da qual José Alves de Sousa fazia parte) tivesse mediado, de alguma forma, esta página completa de um jornal nacional de grande divulgação.


Vila Praia de Âncora, 8 de julho de 2024


 


 


 

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