A propósito do Bairro dos Pescadores
No dia 12 de janeiro de 1954, na Assembleia Nacional foi proferido um discurso pelo deputado Elísio Pimenta sobre a recente inaugaração do Bairro dos Pescadores de Vila Praia de Âncora. Na ocasião, o deputado Elísio Pimenta aproveitou apara chamar a atenção do Ministro das Obras Públicas para o grave problema que então existia, devido à inexistencia de abastecimento de água em Vila Praia de Âncora.

O sr. Presidente – Tem a palavra antes da ordem do dia o sr. Deputado Elísio Pimenta.
O sr. Elísio Pimenta – Sr. Presidente, a inauguração de obras e melhoramentos públicos é hoje, pela sua frequência, facto banal na vida da Nação.
O interesse dos governantes pelas necessidades dos povos e boa administração dos dinheiros públicos traduz-se constantemente em obras novas e em melhoramentos de toda a ordem, empreendidos e estimulados pelo Estado ou pelos municípios, de norte a sul do País, da orla litoral aos mais recônditos lugares das ásperas serranias do interior.
E, por isso mesmo, acontecimentos que anos atrás se assinalavam em extensas colunas dos jornais perdem-se hoje na brevidade dos noticiários da província.
No entanto, Sr. Presidente, passou-se há dias qualquer coisa numa pequena, mas encantadora vila do Distrito de Viana do Castelo que transcende o simples interesse local, aliás sempre digno de nota, e de tal maneira que me obriga a fazer-lhe a devida e merecida referência.
Quero aludir à inauguração solene, com a entrega das casas aos respectivos moradores nas vésperas do Natal, do novo bairro para pescadores de Vila Praia de Âncora, mandado construir pela Junta Central das Casas dos Pescadores.
Vozes – Muito bem!

O Orador – E se o acontecimento merece ser assinalado pelo benefício – porque não dizer justiça? – que representa para homens que todos os dias arriscam a vida na dura luta com o mar, para que aos portugueses não falte um elemento primacial da sua alimentação, não me é lícito, por outro lado, deixar esquecida a obra verdadeiramente notável levada a cabo pela Junta Central das Casas dos Pescadores – a que preside o nosso ilustre colega Sr. Comandante Henrique Tenreiro – exemplo magnífico do valor da organização corporativa que não se desvia dos seus princípios essenciais e é orientada por quem tem a devoção de servir.
Vozes – Muito bem!
Orador – Aos representantes de 50.000 pescadores portugueses que lhe foram afirmar a sua gratidão, oferecendo-lhe lembranças das suas terras, espalhadas por todo o litoral do continente e ilhas, e dando-lhe o título de irmão das suas confrarias e compromissos, dizia o Sr. Presidente do Conselho que a obra da Junta Central tanto no aspecto moral com material era já grande, mas não se admirava que estivesse ainda incompleta e por toda a parte houvessem mais bairros a construir.
Isto passava-se em 1952, há pouco mais de um ano. Pois Bem; depois dessa data, além do bairro agora entregue em Vila Praia de Âncora, com trinta casas decentes, cheias de ar e de sol, que substituem miseráveis casebres onde gente sofredora e pacífica vivia nas piores condições de higiene e salubridade e em confrangedora promiscuidade, centenas de outras casas foram construídas e habitadas por pescadores, não se tendo ainda extinguido os ecos festivos das inaugurações, entre outras, dos bairros da Afurada, a que presidiu o Chefe de Estado, e, mais recentemente, do Rabo de Peixe, na ilha de S. Miguel.
E tem cabimento referir, para melhor se poder apreciar o que representa esse esforço no sentido de melhorar as condições de vida dos pescadores portugueses que, além de numerosas obras de educação profissional, de assistência e de previdência criadas, mantidas e orientadas pela Junta Central, se construíram nestes últimos quinze anos mais de trinta bairros, com duas mil moradias, que custaram à volta de 50.000 contos.
Vozes – Muito bem!

O Orador – O apontamento mostra bem que, em boa verdade e não menor justiça, se não podem acusar os homens que dirigem as Casas dos Pescadores de demora ou lentidão no ataque ao problema, cada vez mais instante, da habitação de gente pobre, no ataque, que não pode parar e que há que intensificar, aos bairros de latas, às palhotas, aos Barredos e às Curleiras, que são a maior vergonha de uma comunidade cristã.
Nessa luta para acabar com as palhotas e com as ignóbeis cabanas em que vegetava a maioria dos nossos pescadores, dos nossos valentes e abnegados homens do mar, eles têm sido incansáveis, e bairros novos vão surgindo continuamente, em ritmo cada vez mais apressado e com a preocupação dominante de não se sacrificarem os magros rendimentos de famílias geralmente numerosas à tendência para a amortização integral e a breve prazo do capital empregado.
Bem haja, Sr. Comandante Tenreiro, pelas palavras que proferiu há semanas em S. Miguel. Disse V. Exc. Que as rendas que os pescadores iriam pagar eram de tal maneira diminutas que não chegavam para amortizar o dinheiro gasto, nem sequer para o normal cuidado da conservação das habitações.
E acrescentou: “Isso, porém, não importa. O que é preciso é que os nossos homens do mar tenham casas dignas, confortáveis e alegres”
É assim mesmo. Casa para pescadores, casas para operários, casas para trabalhadores do campo, tudo casas para gente pobre. Muitas casas para gente pobre, casas dignas, confortáveis, alegres para todos os que não as possuam. Mas, porque casas para gente pobre, impõe-se que as rendas a pagar sejam de tam maneira diminutas que não constituam um óbice a que os mais pobrezinhos, mais desprovidos de bens materiais – e são tantos – as possam habitar, não as pagando mesmo quando não disponham de meios para isso.
Perante as palavras do ilustre presidente da Junta Central das Casas dos Pescadores, e tendo ainda presente o espectáculo emocionante da entrega há pouco realizada em Braga de nove casas a outras tantas famílias pobres, com mais de cinquenta pessoas, casas que as Conferencias Vicentinas conseguiram construir e integrar no património dos pobres do grande padre Américo, fica-me a certeza de que não passará muito tempo sem que todos os portugueses tenham um lar compatível com a sua dignidade de homens.
Vozes – Muito bem!
O Orador – Sr. Presidente, antes de terminar as minhas considerações quero solicitar ao Sr. Ministro das Obras Públicas a melhor atenção para o problema de abastecimento de água a Vila Praia de Âncora, que não é apenas – e que fosse – uma póvoa de pescadores, mas uma das mais belas praias de Portugal, com um extenso areal de areia finíssima, que o pequeno rio Âncora atravessa lançando as suas águas cristalinas no oceano.
Pois essa praia, de excepcionais condições de segurança, praia de crianças por excelência, frequentada n época de Verão por milhares de pessoas de todo o Minho, não tem abastecimento de água e os poucos fontanários públicos são insuficientes para satisfazer as necessidades do consumo estival.
Foi preciso abrir um poço no bairro dos pescadores agora inaugurado para que os seus habitantes tivessem água.
É uma situação difícil, cuja solução vai demorando, mau grado os esforços das entidades locais. É certo que foi concedida uma comparticipação para pesquisas, o que quer dizer que o Ministério das Obras Públicas encarou já o problema.
Mas o que é preciso é que a sua resolução não demore e que um meio urbano de relativa importância como Vila Praia de Âncora, cuja actividade turística vai compensando as dificuldades económicas provenientes da falta de pescado, veja depressa afastado o óbice mais importante ao seu desenvolvimento.
Disse.
Vozes – Muito Bem!
O orador foi muito cumprimentado.
Fontes: bloguedominho.blogs.sapo.pt
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