A propósito do fim trágico do 2º Duque de Caminha
No post anterior citei o arcebispo Sebastião de Matos de Noronha, o cérebro que esteve por trás da conjura contra D. João IV, poucos meses após a restauração da independência em 1640.

Sebastião de Noronha nascera em Madrid em 1586, foi inquisidor em Coimbra, deputado do conselho geral do Santo Ofício, bispo de Elvas e em1635 arcebispo de Braga.
Fiel apoiante da corte filipina, enquanto bispo em Elvas, celebrou o casamento do duque de Bragança (mais tarde rei D. João IV) com D. Luísa de Gusmão; não tendo este fidalgo dado grandes mostras de atenção e reconhecimento pela magnífica hospedagem que o prelado lhe preparara no seu palácio, supuseram alguns, que daí nasceu o ódio que Sebastião de Noronha votou reiteradamente ao chefe da Casa de Bragança.
Nos últimos anos do domínio espanhol em Portugal, quando a duquesa de Mântua exercia o cargo de vice-rainha e Miguel de Vasconcelos o de secretário de Estado, tinha o arcebispo Sebastião de Noronha a presidência do Desembargo do Paço.
Era tão evidente a sua fidelidade ao governo espanhol, que na reunião dos conspiradores nos últimos dias de Novembro de 1640 se discutiu a sua morte ao mesmo tempo que a do secretário de Estado, prevaleceram ideias de clemência devido à sua condição eclesiástica.
Quando no dia 1 de dezembro os fidalgos subiam aos aposentos da duquesa de Mântua no Paço da Ribeira, o arcebispo apareceu ao lado dela, tendo a desfaçatez de dirigir aos conspiradores algumas palavras de censura; mandaram-no calar asperamente, dizendo-lhe D. Miguel de Almada que lhe custara muito livrá-lo de sorte igual à de Miguel de Vasconcelos, lembrando-lhe que não abusasse, porque lhe poderia ser fatal.
Sebastião de Noronha retirou-se muito pálido de susto, mas não lhe serviu de emenda. Apesar da sua postura, foi nomeado para o governo provisório que entrou de imediato em funções, mas não foi reconduzido a nenhum cargo de relevo após a subida de D. João IV ao poder. Além disso, este soberano continuava muito afeto ao arcebispo de Lisboa, grande rival de Sebastião de Noronha.
Começou então a conspirar a favor da coroa de Espanha, considerando que apenas uma empresa de grande valor simbólico lhe podia recuperar o prestígio e o poder que perdera. Para isso o rei teria de ser morto. Tratando de arranjar cúmplices falou ao Marquês de Vila Real, que alinhou na conjura e que por sua vez dirigiu-se a seu filho Miguel de Meneses, 2º Duque de Caminha, a seu sobrinho Rui de Matos de Noronha, Conde de Armamar e ao inquisidor geral Francisco de Castro, aos quais depois se associaram Agostinho Manuel de Vasconcelos, os capitães Diogo de Brito Nabo e Belchior Correia da França e um rico mercador chamado Pedro Baeça, entre outros.
Falaram por fim também a Luís Pereira de Barros, contador da fazenda, mas este, descrente das probabilidades do bom êxito da conspiração, tratou de colher todas as informações e foi denunciar ao rei o que sabia.
Não tardou em que as declarações de Luís Pereira fossem confirmadas pelo conde de Vimioso, que os conspiradores pretenderam chamar para o seu lado e que ouvindo o que lhe diziam o arcebispo, o marquês de Vila Real e o inquisidor, foi tudo contar a D. João IV.
O rei ordenou a prisão dos conspiradores e o arcebispo de Braga, foi conduzido à fortaleza de São Julião da Barra, mostrando-se durante o processo completamente outro do que fora sempre antes; tendo apelado em vão para o foro eclesiástico, invocou depois a piedade do rei, declarando os motivos que o haviam levado a conspirar e as pessoas que tinha associado ao seu projeto.
No dia 29 de Agosto foram executados num cadafalso erigido na praça do Rossio, o duque de Caminha, seu pai o marquês de Vila Real, o conde de Armamar, Agostinho Manuel, Diogo de Brito, Correia da França, Pedro Baeça e Manuel Valente.
O bispo que organizou e arregimentou conspiradores e depois os denunciou, arrependido e humilhado morreu meses depois na Torre de São Julião.
Há uma excelente comunicação da Doutora Mafalda Soares da Cunha sobre este assunto, que pode ser consultada https://dspace.uevora.pt/rdpc/bitstream/10174/8828/1/2006_Conspira%C3%A7%C3%A3o%201641.pdf
Comentários
Enviar um comentário