A propósito de 13 de fevereiro
O dia 13 de fevereiro não é comemorado institucionalmente, nem referido na comunicação social, poucos sabem o seu significado e o que se passou em 1919, portanto há 105 anos.
Também é verdade que abordo desta efeméride porque em Vila Praia de Âncora existe uma “Rua 13 de Fevereiro”, paralela à Rua dos Pescadores, ligando a Rua Celestino Fernandes ao Largo Pedro Bugalho, e essa toponímia espicaçou a minha curiosidade.
Em termos muito simples, a 13 de fevereiro de 1919 foi restaurada a República, depois da revolta monárquica liderada por Paiva Couceiro, conhecida por “Monarquia do Norte”, que durou apenas 25 dias.

Em Vila Praia de Âncora, então Gontinhães, durante esse curto período esteve estacionada uma pequena força militar, apoiando os partidários da causa monárquica; levou também os membros da Junta de Freguesia local a apresentarem a sua demissão, visto não aceitarem a autoridade golpista.
Do jornal “A Capital” publicado a 25 de fevereiro de 1919, extraímos parte de um artigo assinado por António Augusto Durães, que se refere detalhadamente a um episódio local muito interessante, durante esse breve período:
(…) “No dia 30 de janeiro, em pleno reinado de Paiva, appareceram á vista d’esta praia 5 barcos de guerra, desfraudando ao vento o pavilhão republicano e aproximando-se tanto que mesmo sem binóculos se distinguia a marinhagem a bordo.
Como na estação do caminho de ferro estivesse arvorada uma bandeira monarchica a canhoneira “Limpopo” fez para lá um tiro de peça, caindo a granada a pouca distancia. Immediatamente um dos empregados sobe á marquise e desce a bandeira, juntando-se a seguir no “portinho” grande numero de pessoas, que esperando um desembarque, ansiosamente aguardavam os marinheiros para os seguir onde a Republica precisasse de defensores. Faziam-se saudações para os navios e lenços acenavam, como a dizer que eram esperados em terra por amigos.
De repente um grupo de rapazes, entre os quaes me lembra de ver um caixeiro viajante de nome Carlos, o Balthazar Lopes e outro que depois emigrou de nome Brito, vae a correr ao Castello que fica próximo do “portinho” e entre vivas enthusiasticos de grande multidão que ali se juntou içam a bandeira republicana, indo a seguir o Mario Maia e José Moura e outros ao quartel da guarda fiscal, cujas praças eram todas republicanas, içar outra bandeira no meio também do maior enthusiasmo.
A seguir, e apesar do mau estado do mar, eu e o caixeiro viajante Carlos, mettemo-nos n’um barco de pesca, tripulado por um pescador conhecido pelo “Ou-Ou” e tentamos ir a bordo para conseguir o desembarque imediato, pois conhecendo o estado de espirito do batalhão de infantaria 3, de Valença, da guarda fiscal e do destacamento de marinheiros da lancha “Rio Minho” e mesmo do regimento de infantaria 3 de Vianna do Castello, uma pequena coluna de marinheiros, apoiada pela artilharia de bordo, tomaria com a maior facilidade a cidade de Vianna e todo o districto se levantaria imediatamente contra a “traulitada” que o governava.
Infelizmente foi-nos impossível conseguir a sahida do porto, onde dentro do barquito estivemos mais de meia hora lutando com o mar que a cada instante nos salpicava. Ao fim de uma onda maior pôz o barco meio de agua, molhando-nos todos, e tivemos de desistir do intento, chegando minutos depois os primeiros automóveis dos “trauliteiros” que armados de carabina simplesmente se pretendiam oppôr a um desembarque que também julgavam ir ser feito!
Martinho Carneiro, o governador civil monarchico, que também chegava, ao ver a bandeira republicana no Castello, ficou de tal forma irado que ameaçou com fuzilamento imediato os que a tinham ido hastear se chegasse a saber quem eram.
O povo de Ancora porém, que a tudo tinha assistido, não denunciou ninguém, porque é essencialmente republicano e a ira do agora fugido governador ficou em palavras somente.
Mas é bom que se saiba que em plena monarchia fluctuou ao vento no castello d’esta praia a gloriosa bandeira da Republica, para se ver que só pela coacção do terror os monarchicos impunham o seu regimem ao povo do norte, que é profundamente republicano. (…)

Optei por manter o texto do jornal “A Capital” com a grafia original. O Regimento de Infantaria 3 esteve sediado em Viana do Castelo até 1937 e tal como o Grupo de Metralhadoras 8, mantinham estacionada na fortaleza de Valença um robusto destacamento militar.
Nos primeiros dias do levantamento monárquico a guarnição de Valença rendeu-se aos revoltosos (mais um episódio que merecia ser contado), os oficiais republicanos foram presos e enviados para o Porto. Desse lote de prisioneiros fazia parte o alferes Morais Cabral que ali cumpria o serviço militar, tendo sido libertados depois da capitulação dos monárquicos. Este oficial ancorense, membro da Loja Maçónica “Vedeta do Norte”, mais tarde foi juiz desembargador e um reconhecido opositor do Estado Novo.
O “Brito” referido na crónica do jornal “A Capital” era Manuel do Nascimento Brito, meu tio-avô, que emigrou para o Brasil. O José Moura, natural do Porto, também era membro da “Vedeta do Norte” e foi sempre muito participativo na vida social da terra que o acolheu.
Embora o cronista não refira, a canhoneira “Limpopo” terá efetuado outros disparos, possivelmente dois ou mais em direção à Estação da CP, tendo um deles atingido uma composição estacionada e o outro tiro destruído uma dependência do 1º andar do edifício.
Foi também atingida uma casa na Rua do Sol Posto, sendo possível que o tiro se dirigisse à Pensão Âncora onde estavam acantonados os militares monárquicos e estivesse hasteada alguma bandeira azul visível do mar.
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