Companhia Despertadora de Caminha
As barcas de passagem no Rio Minho existem há muitos séculos. Durante muito tempo dependentes do poder religioso, mais tarde, propriedade dos municípios e de iniciativas privadas, funcionaram a remos, à vela, a vapor e só no século vinte passaram a ser movidas por motor de explosão. No entanto, em meados do século XIX aconteceu um salto tecnológico relevante. Vejamos:
Proliferavam no país as associações capitalistas, a que alguns chamavam o “feudalismo do povo”. Na vila de Caminha vivia um homem cheio de atividade, de iniciativas rasgadas, que era o Barão de S. Roque desde 7 de Julho de 1852.
José Ferreira Torres seria um fanático das vias de comunicação, pelos meios de transporte, enfim, pelo movimento.
Estava ali um rio navegável, pronto para receber um barco a vapor, a servir célere os viajantes e mercadorias entre as duas margens, entre a foz e Valença. Parecia uma ideia magnífica, demais que os caminhos por terra eram ínvios e pouco seguros.
Logo o Barão lançou mãos à obra. Reunidos uns amigos, assentaram-se as bases da companhia. Capital? Trinta contos, quantia bastante para levar a efeito a empresa, e aos tomadores das ações não faltava a idoneidade precisa para responderem pelas quantias subscritas, pois eram “pessoas muito abonadas”.
Nome a dar à companhia? Algo expressivo, gritante, uma campainha a retinir para acordar tantos dormentes…

Imagem sem correspondencia com o vapor Rio Minho
O nº 99 do Diário do Governo, de 29 de Abril de 1854, publicou, pelo Ministério das Obras Públicas, Comércio e Industria, a confirmação: “Atendendo ao que Me representaram o Barão de S. Roque (José) e mais membros da Comissão de Contas da Despertadora, constituída na Vila de Caminha, para o fim de estabelecer no Rio Minho a navegação por barcos movidos a vapor, ou por outro motor mais seguro e vantajoso, que venha a descobrir-se…”
O barco, “Rio Minho”, chegou de Inglaterra, onde fora construído e a 1 de Julho de 1855, o Governador do Distrito comunicava ao Ministério das Obras Públicas: “Tenho a satisfação de enviar a V. Exc. O ofício junto, por cópia, em que o Administrador do Concelho de Caminha dá conta do regozijo em que naquela Vila e mais povoações que banha o Rio Minho, tanto do lado de Portugal como da Galiza, foi vista a chegada da primeira viagem do Barco e Vapor pertencente à Companhia Despertadora, destinado à navegação no dito Rio".
Pinho Leal dá conta do amargo despertar de tão lindo sonho, relatando que a iniciativa da companhia de capitalistas fora mal sucedida, porque a receita não chegava para a despesa. Em resultado deste prejuízo, os acionistas venderam o vapor a Pedro Popa da Freguesia de Seixas, cessando as carreiras, em 2 de Março de 1858 até serem retomadas a 22 de Julho de 1860.
Pedro Popa teve a mesma sorte da empresa precedente, pelo que retirou o vapor a 21 de Janeiro de 1863.
Pouco depois, o Comendador Sebastião da Silva Neves adquiriu um velho vapor, que empregou nas mesmas carreiras, mas por pouco tempo, pois no fim de 1864 ou princípio de 1865, indo de Caminha para Valença, não pôde passar de Seixas por avaria, sendo os passageiros transportados até ao destino em trens.
O proprietário foi feliz no negócio, nada perdendo da compra do barco, pois só a máquina lhe deu o custo total da embarcação, lucrando ainda o preço da venda das madeiras e demais aprestes, quando mandou desfazer o vapor.
Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, vol. 10, pag 139
Jornal "Notícias de Viana" de 7/9/1958
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