O Campo de Concentração de Camposancos, a Porta do Inferno

No estuário do Rio Minho, na margem Galega, destaca-se no sopé do monte de Santa Tecla (Santa Trega, em Galego), um enorme edifício, hoje em ruinas.


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Em 1916, um grupo de jesuítas portugueses, alugou aos seus congéneres espanhóis este edifício para alojarem um colégio que passou a designar-se como Instituto Nun’Alvares.


Recorde-se que, então, em Portugal vivia-se os tempos agitados da 1ª República, pouco favorável ao clero e às suas organizações. Estávamos em plena 1ª Grande Guerra e pouco depois, Portugal quebrava a neutralidade para alinhar no conflito ao lado da Inglaterra e demais forças aliadas.


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Instalados os padres jesuítas, chegaram os alunos, maioritariamente portugueses, oriundos de famílias com posses e pouco confiantes na capacidade do insipiente ensino público português. Como curiosidade refira-se que o cineasta Manoel de Oliveira estudou durante dois anos neste colégio jesuíta. O Concelho de Caminha também contribuiu com 18 alunos matriculados entre 1916 e 1932.


Espanha era governada em ditadura desde 1923, após o golpe de estado de Primo de Rivera e em 1931, perante um governo decadente, a monarquia é posta em causa e dá-se o golpe republicano que institui a 2ª República Espanhola.


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É neste contexto, de agitação do lado de Espanha e um certo “conforto” político do lado Português, já com Salazar no poder e com o clero a retomar antigos privilégios, que os jesuítas alugam uma casa em Caminha para de forma provisória, continuarem a ministrar o ensino aos seus alunos.


O edifício escolhido foi a “Casa da Rocha” e em Outubro de 1931 chegaram cerca de 170 alunos, que eram supervisionados por cinco padres. Ali permaneceram dois anos até se mudarem em definitivo para as Caldinhas, nas proximidades de Santo Tirso.


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A Casa da Rocha a partir de 1950, passou a sede do Externato de Santa Rita, pela iniciativa do Padre José Vaz e do bancário José Bouça. Nesta casa estudei durante cinco anos já no final da década de sessenta.


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Voltando ao velho edifício dos jesuítas espanhóis, esvaziado de alunos portugueses, não tardou muito para lhe arranjarem préstimo. Com a eclosão da guerra civil espanhola em 1936 e com os franquistas a dominarem rapidamente a Galiza, criaram ali um campo de concentração para presos republicanos.


O Campo de Concentração de Camposancos, como ficou designado foi preparado desde Agosto de 1937 e aberto em Outubro com a chegada de um navio prisão (Arichachu) ao porto de Baiona e daí os prisioneiros foram transportados de camião até ao campo.


Estima-se que ingressaram cerca de mil e cem homens e cento e oitenta mulheres e crianças provenientes da recém caída frente republicana nas Astúrias. Algumas destas mulheres, grávidas, deram à luz em condições infra humanas. A lotação do campo seria para cerca de oitocentos e cinquenta internados, mas esse número foi largamente superado, havendo períodos em que lá viveram mais de dois prisioneiros.


Este campo funcionou até 1942, quando os jesuítas tomaram novamente posse do edifício.


Durante os cinco anos de funcionamento mais de cinco mil cidadãos passaram por este campo de concentração e foram fuzilados, ao que se sabe, 171 prisioneiros, tendo falecido um número indeterminado, devido a doenças associadas às horríveis condições de vida dos internados.


Deste grupo de fuzilados, fazem parte 49 republicanos enterrados em vala comum no cemitério de Camposancos.


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Em Caminha, do outro lado do Rio Minho, ouviam-se distintamente os disparos dos fuzilamentos e não raras vezes vinham a esta vila, militares e carabineiros espanhóis para repatriar seus concidadãos em fuga do franquismo e que eram capturados pelas forças policiais portuguesas.


Fontes: José António Uris, historiador Guardés;   Rita Bouça, Externato de Santa Rita de Caminha


Fotos: José António Uris e INTERNET

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