Superstições, crendices e lendas VII
O pescador é um homem de fé à sua maneira. Ele sabe que lida com uma força implacável quando se enfurece e que só do Alto pode esperar o milagre que o pode salvar. Porque, muitas vezes, só por milagre divino consegue escapar. Mas, ao mesmo tempo, os malefícios das bruxas também entravam no rol de adversidades. E, mais uma vez, há que defumar os homens e as redes para expurgar o mal. E não esquecer de colocar depois o caco numa encruzilhada sem ninguém ver. No mar não, porque o mar é sagrado e não consente coisas impuras. E o resto do defumo contém o mal (a impureza) que expurgou dos homens e das redes.

Também um cardo colhido ao pôr-do-sol nas dunas do areal e sem ninguém ver, colocado na masseira afasta a má sorte. E porque não pintar nos testeiros da masseira uma cruz e uma estrela de Salomão? Ou uma ferradura para fazer renúncias ao diabo?
Não fazer nada era resignar-se e sofrer as consequências. Por isso, nunca deixar de saudar Deus à saída e à entrada do Portinho, e nunca falar de padres e freiras, de bruxas e macacos, muito menos do diabo a bordo. Porque tudo isso dava azar e não se podia pronunciar a bordo.
No Portinho também havia uma mulher que dizia “ver” as procissões dos mortos. Contava isto com todo o detalhe. O último que seguia na procissão era a pessoa que dias depois ia morrer. Porém, ela evitava revelar o nome para não alarmar. Claro, dizia depois do acontecimento que a tinha visto atrás dos outros mortos. E nunca lhe faltou convicção para afirmar que via essas procissões. Até lhe chegavam a bater à janela do quarto onde dormia para que visse.

Em dias de nevoeiro, a ronca do castelo era acionada por dois homens que se revezavam: primeiro, os homens ou mulheres que estavam em terra; depois, os homens à medida que iam chegando do mar. Mas, pelo sim, pelo não, mandavam à ponta do cais três raparigas virgens, que levantavam a saia e descobriam o “rabo” voltado para o mar. Acreditavam que fazendo isso espantavam o nevoeiro. Porém, para ser eficaz tinham de ter em comum o nome de Maria. Eram as “três Marias”.
A forte dependência que a vida desta comunidade tinha em relação às superstições e crenças, começa a esbater-se com a alfabetização, com as campanhas de pesca de bacalhau e com a emigração, onde o contacto com outras comunidades e outras culturas, vão fazê-los, progressivamente, esquecer as antigas superstições e crenças.
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