Superstições, crendices e lendas VII

O pescador é um homem de fé à sua maneira. Ele sabe que lida com uma força implacável quando se enfurece e que só do Alto pode esperar o milagre que o pode salvar. Porque, muitas vezes, só por milagre divino consegue escapar. Mas, ao mesmo tempo, os malefícios das bruxas tam­bém entravam no rol de adversidades. E, mais uma vez, há que defumar os homens e as redes para expurgar o mal. E não esquecer de colocar depois o caco numa encruzilhada sem ninguém ver. No mar não, porque o mar é sagrado e não consente coisas impuras. E o resto do defumo contém o mal (a impureza) que expurgou dos homens e das redes.


73B - Símbolos pintados na masseira.jpg


Também um cardo colhido ao pôr-do-sol nas dunas do areal e sem ninguém ver, colocado na masseira afasta a má sorte. E porque não pintar nos testeiros da masseira uma cruz e uma estrela de Salomão? Ou uma fer­radura para fazer renúncias ao diabo?


Não fazer nada era resignar-se e sofrer as consequências. Por isso, nunca deixar de saudar Deus à saída e à entrada do Portinho, e nunca falar de padres e freiras, de bruxas e macacos, muito menos do diabo a bordo. Porque tudo isso dava azar e não se podia pronunciar a bordo.


No Portinho também havia uma mulher que dizia “ver” as procissões dos mortos. Contava isto com todo o detalhe. O último que seguia na pro­cissão era a pessoa que dias depois ia morrer. Porém, ela evitava revelar o nome para não alarmar. Claro, dizia depois do acontecimento que a tinha visto atrás dos outros mortos. E nunca lhe faltou convicção para afirmar que via essas procissões. Até lhe chegavam a bater à janela do quarto onde dormia para que visse.


74 - Quando a neve caiu no portinho - 1987.jpg


Em dias de nevoeiro, a ronca do castelo era acionada por dois homens que se revezavam: primeiro, os homens ou mulheres que estavam em terra; depois, os homens à medida que iam chegando do mar. Mas, pelo sim, pelo não, mandavam à ponta do cais três raparigas virgens, que levantavam a saia e descobriam o “rabo” voltado para o mar. Acreditavam que fazendo isso espantavam o nevoeiro. Porém, para ser eficaz tinham de ter em co­mum o nome de Maria. Eram as “três Marias”.


A forte dependência que a vida desta comunidade tinha em relação às superstições e crenças, começa a esbater-se com a alfabetização, com as campanhas de pesca de bacalhau e com a emigração, onde o contacto com outras comunidades e outras culturas, vão fazê-los, progressivamente, esquecer as antigas superstições e crenças.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O Redondo - Apenas um pormenor

Representação de pescadores Ancorenses em 1905

Comandante Canas dos Bombeiros de Vila Praia de Âncora