Superstições, crendices e lendas VI

Uma noite, após ter bebido demais, um pescador encontrou-se na laje da praia com a sua sombra que ele afirmava convicto ser o diabo, pois sem­pre que se deslocava para um lado logo o mafarrico vinha para cima dele. Bem lhe dava uns murros mas o diabo defendia-se também com os mesmos gestos. Esfolou os dedos e as mãos que ficaram a sangrar de tanto se atirar sobre a laje a esmurrar a sua própria sombra, tal era a ideia dessas forças demoníacas que os atormentava e se achavam em posição de impotência.


73A - Masseira frente ao farol superior.jpg


Mas, isto, é só para dizer quanto a atitude de defesa faz parte integral da reação natural do pescador, habituado a lidar com um ambiente hostil e traiçoeiro, perante o qual tantas vezes se sente impotente. E, daí, atento a qualquer sinal, recorre a palavras, a gestos, a rituais, numa reação estranha a outros ambientes. Este sentido de defesa também faz dele um tempera­mental, reagindo naturalmente aos impulsos com a impetuosidade das ondas.


Um dia, o pescador foi embruxado por uma mulher que o mantinha refém a cuidar dos filhos dela, enquanto ela saía a ganhar a vida na profissão mais velha do mundo. Aconteceu, porém, que numa altura em que foi para o mar ao fim da tarde, o barco não conseguia passar além da ponta do cais. A companha, atónita, remava, remava, mas o barco andava às voltas e não saía da boca do porto, porque o remo do pescador embruxado não acompanhava o esforço dos seus camaradas. Ficou pálido e completamente evadido como se não estivesse ali, indiferente a tudo. Todos repararam no seu aspecto, de­cidindo desembarcá-lo no cais do sul, pois a companha estava atemorizada.


Este ficou sentado no cais, apático, o barco libertou-se e seguiu para o mar. Outros, que o viram ali naquele estado de imobilidade e apatia resol­veram ver o que se passava com ele e levaram-no para a casa da família. A sua mãe, muito aflita, fez-lhe o credo em cruz e deitaram-no na cama. Por volta da meia-noite quebrou-se o “enguiço”, começando a cantar uma cantiga em voga:


“Ó Rosa, ó linda Rosa,


O meu grande amor;


Na tua boca rosada


Dava-te um beijo, minha flor.”


Em seguida, calou-se e vomitou um monte de cabelos, seguido de outro vómito de terra e, por último, saiu do seu corpo um osso quadrado que deixou os presentes perplexos por não saberem explicar como é que um osso daquela forma e tamanho pudesse passar pelo esófago. Uma coisa extraordinária. Depois ele falou calmamente e pediu comida.


A mãe escancarou as portas e os seus gritos atravessaram a noite para que todo o bairro visse pelos seus próprios olhos o que tinha ocorrido.


A tal mulher a quem foi atribuído o bruxedo desapareceu, entretanto, com os filhos dela. Ninguém mais a viu em Vila Praia de Âncora e o pescador, daí em diante, levou uma vida normal.


Havia muitas coisas estranhas no Portinho: o pescador que às ve­zes andava “engalinhado” e não apanhava peixe porque uma determinada “puta” lhe tinha deitado um mau-olhado, que até ao varar a embarcação, caiu e esfolou uma perna nas pedras; outra vez o defumo não foi bem feito porque o “caco” foi deitado à estrumeira, em vez de ser colocado na encru­zilhada de duas ruas; outra porque a mulher do defumo se enganou nas palavras e o feitiço voltou-se contra o feiticeiro e, ainda, porque a companha não cumpriu determinada promessa. E, outra vez, a mulher encarregada de colocar o caco do defumo na encruzilhada – levava-o debaixo do aven­tal – com o sopro de uma rajada de vento a chama animou-se e o avental começou a arder, levando-a a gritar por socorro.


Outra vez, um jovem pescador tinha enganado uma rapariga e não tinha casado com ela. Então, ela amaldiçoou-o. Agora a companha do barco dizia que estavam todos a pagar pelo excomungado, não apanhavam peixe nenhum, andavam com uma “caipora fodida”, há dias a “coar água”. Havia que fazer alguma coisa, nem que o mestre tivesse de o despedir.


Sempre em posição de defesa contra o elemento natural do seu labor e contra as adversidades invisíveis dos espíritos e das bruxas que povoavam o seu mundo. Havia sempre algum recurso para lutar contra estas forças que interferiam na vida do pescador, pois mais valia que chamassem ao mestre cheio de sorte “filho da puta”, do que “coitado”. Quando uma embar­cação vem a entrar no Portinho e vem carregada era frequente ouvir dizer: “aquele filho da puta tem cá uma sorte!... carrega sempre”, mas quando vem vazia toda a gente diz, “coitado, não tem sorte nenhuma”. Este coitado inclui sempre algo de irracional. É mais do que o acaso.

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