Superstições, crendices e lendas III

O mundo dos pescadores era um mundo de luta permanente com as forças da natureza e as forças demoníacas invisíveis que, com a permissão divina, muitas vezes vagueavam para atormentarem os homens, criaturas frágeis perante poderes superiores.


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A arruda era utilizada como amuleto protector contra o mau-olhado, em defumadores feitos dentro de casa ou colocando um raminho atrás da porta. Havia quem tivesse junto à casa um vaso com esta planta, porque acreditavam que assim afastavam o mal.


O alecrim é também considerado um amuleto protector contra o mal, por isso era utilizado em defumadouros. Esta planta tinha ainda proprieda­des curativas, sendo utilizada em mezinhas relacionadas, por exemplo, com o fortalecimento dos cabelos, entre outras.


Entre as práticas tradicionais utilizadas na cura, era frequente a prá­tica de rezas, benzeduras, promessas e preces ao santo da devoção, bem como a rituais e amuletos de protecção.


As rezas e benzeduras podiam ser feitas simples ou acompanhadas de mezinhas ou materiais diversos como velas, defumadouros, incensos e outros materiais.


Os defumadouros eram preparados com os “ramos” (ramos de oliveira) benzidos na igreja, no domingo de Ramos, alecrim e outras plantas, às quais se juntam umas pedras de sal virgem, que nunca serviram para salgar carne, e três pedacitos de “bosta” da porta do forno. Coloca-se tudo sobre brasas vivas. Servem para muita coisa os defumadouros, aplicando-se como remédio para qualquer mal-estar. A pessoa que precisa dele inclina-se para receber em cheio o fumo, enquanto alguém diz:


Assim como Nossa Senhora defumou


Os panos de seu Filho para cheirar,


Assim eu defumo esta criatura para sarar.


Dizia-se isto três vezes, recitando entre cada uma, um Pai-Nosso, uma Avé-Maria e uma Glória (Lima, 1963).


Acreditava-se que derramar vinho era alegria, bem como derramar azeite dava azar. Quando isso acontece, deve-se atirar um copo de água à rua e dizer “água vai”. Não se deve beber água de noite sem bater no cântaro, para que a água que está a dormir acorde. Beber água adormecida faz mal.


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Sobre a gravidez havia outro rol de crenças como: faz bem às mulhe­res grávidas beberem águas de galinha preta, que limpa e facilita o parto; durante a gravidez não se cheiram flores, nem se pega em baço de boi ou porco, para as crian­ças não nascerem com flores e baço (manchas de cor muito escura) no rosto; não se toca com a boca numa chave, nem mes­mo se pendura à cinta, para a criança não nas­cer com o lábio rachado; a mulher grávida não deve passar por baixo de cabos estendidos, para que a criança não nasça com “cordas” ao pescoço; não deve levar à cabeça estrigas (Conjunto de fibras de linho antes de serem fiadas) de linho, para a criança não nascer com manchas brancas no cabelo.


Derramar e pisar sal dá azar. Por outro lado, o sal também é um ele­mento utilizado na prática de magia negra. Derramar sal, azeite ou cinzas à porta de alguém está associado à magia negra, “Salgação à porta do teu inimigo”.


Mas o sal também estava associado à protecção divina contra a inveja e o mau olhado. O sal virgem ia-se buscar às concavidades da superfície dos penedos da ribeira, produto da água das marés vivas que depois o sol seca­va. Também se aplicava para tirar a inveja e outros malefícios, dos barcos e das redes. Atirava-se em cruz sobre os objetos, dizendo:


“Sal virgem que do mar foste criado


E em Roma foste batizado;


Corta-me a inveja e o mal olhado


Ou de morto ou de excomungado.”

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