Superstições, crendices e lendas I
As crenças e superstições na classe piscatória de Âncora não diferiam das outras comunidades marítimas próximas. Esta gente boa e pacata é muito religiosa. Mas também muito ignorante, quer em matéria de religião, quer na compreensão científica da vida e do meio envolvente. E esta ignorância alia-se facilmente à superstição, daí resultando uma crença obscura de amor e terror a um Deus mistério, de curandice e graças.

A posição de defesa perante um ambiente hostil como o trabalho no mar, sempre levou os pescadores a recorrerem a rituais para melhor enfrentarem os perigos quando se viam impotentes e necessitavam de ganhar confiança para sobreviverem.
Estes rituais herdados de tradições ancestrais foram cristianizados depois, embora coexistissem com os elementos reminiscentes das crenças celebradas pelos velhos cultos pagãos.
Os Santos são frequentemente invocados para feitiços e a água benta retira-se furtivamente da igreja. Apenas a fé continua a ser espontânea, simples e sem entraves.
Há quem “veja” bruxas, quem tenha “encontrado” o lobisomem, quem saiba de crianças “chupadas” por aquelas. Há superstições relacionadas com animais, com lugares, com as horas ou com qualquer coisa que esteja na esfera da incompreensão.
Além disso havia um sem número de coisas proibidas pelo código do “não é bom”, sem que se soubesse o porquê de tal crença. Vejamos algumas:
Bocejar constantemente, fortes dores de cabeça e enfraquecimento geral, é resultado do mau-olhado, também conhecido por quebranto.
As maiores vitimas destes males são as crianças, que têm de ser protegidas através do uso de amuletos sob a forma de pendentes (Sanselimão, meia-lua, corno ou figa). Os defumadores dentro de casa como a arruda, o alecrim e o incenso, também eram amuletos purificadores e de afastamento do mal. Fazer o sinal da cruz sobre a boca da criança e dizer “benza-te Deus”, também ajudava a protegê-la do mal olhado.
Na água do primeiro banho do bebé põe-se dinheiro para ser rico, vinho fino para lhe abrir a inteligência e pétalas de rosa para que seja feliz. A noite parece fazer mal às crianças, pois havia o costume de as recatar o mais possível desde o pôr-do-sol.

Quando em passeio ou viagem era necessário transportá-las de noite, punham-lhe um terço ao pescoço e era o pai que se encarregava da guarda do bebé. Existia a crença popular de que as roupas do recém-nascido não deviam ser colocadas a secar no estendal ao luar, caso contrário a criança poderia vir a sofrer de cólicas ou a revirar os olhos; quando uma criança não chora na ocasião do baptismo, não chega aos doze anos.
Mas havia igualmente superstições que hoje apenas nos merecem um sorriso pelo absurdo e pela inocência de quem acreditava que não se podia varrer à noite, pôr a vassoura ao contrário, deixar os sapatos com as solas viradas para cima, entornar sal ou azeite ou estar à porta quando tocavam as Trindades (toque ao fim da tarde chamando para a oração das Avé Marias. Era também considerado o final da jornada de trabalho). Este código informal do “não é bom”, transmitido oralmente de geração em geração, tinha uma força tal que ninguém se atrevia a desafiá-lo e qualquer desrespeito ou descuido era severamente criticado pelos mais velhos.
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