Superstições, crendices e lendas I

As crenças e superstições na classe piscatória de Âncora não diferiam das outras comunidades marítimas próximas. Esta gente boa e pacata é muito religiosa. Mas também muito ignorante, quer em matéria de religião, quer na compreensão científica da vida e do meio envolvente. E esta igno­rância alia-se facilmente à superstição, daí resultando uma crença obscura de amor e terror a um Deus mistério, de curandice e graças.


73 - Medalhinhas para afastar os maus olhares e as


A posição de defesa perante um ambiente hostil como o trabalho no mar, sempre levou os pescadores a recorrerem a rituais para melhor en­frentarem os perigos quando se viam impotentes e necessitavam de ganhar confiança para sobreviverem.


Estes rituais herdados de tradições an­cestrais foram cristianizados depois, embora coexistissem com os elementos reminiscen­tes das crenças celebradas pelos velhos cul­tos pagãos.


Os Santos são frequentemente invoca­dos para feitiços e a água benta retira-se furti­vamente da igreja. Apenas a fé continua a ser espontânea, simples e sem entraves.


Há quem “veja” bruxas, quem tenha “encontrado” o lobisomem, quem saiba de crianças “chupadas” por aquelas. Há supers­tições relacionadas com animais, com luga­res, com as horas ou com qualquer coisa que esteja na esfera da incompreensão.


Além disso havia um sem número de coisas proibidas pelo código do “não é bom”, sem que se soubesse o porquê de tal crença. Vejamos algumas:


Bocejar constantemente, fortes dores de cabeça e enfraquecimento geral, é resul­tado do mau-olhado, também conhecido por quebranto.


As maiores vitimas destes males são as crianças, que têm de ser protegidas através do uso de amuletos sob a forma de pendentes (Sanselimão, meia-lua, corno ou figa). Os de­fumadores dentro de casa como a arruda, o alecrim e o incenso, também eram amuletos purificadores e de afastamento do mal. Fazer o sinal da cruz sobre a boca da criança e dizer “benza-te Deus”, também ajudava a prote­gê-la do mal olhado.


Na água do primeiro banho do bebé põe-se dinheiro para ser rico, vinho fino para lhe abrir a inteligência e pétalas de rosa para que seja feliz. A noite parece fazer mal às crianças, pois havia o costume de as recatar o mais possível desde o pôr-do-sol.


52 - Peixe a secar no molhe norte.jpg


Quando em passeio ou viagem era necessário transportá-las de noite, punham-lhe um terço ao pescoço e era o pai que se encarregava da guarda do bebé. Existia a crença popular de que as roupas do recém-nascido não deviam ser colocadas a secar no estendal ao luar, caso contrário a criança poderia vir a sofrer de cólicas ou a revirar os olhos; quando uma criança não chora na ocasião do baptismo, não chega aos doze anos.


Mas havia igualmente su­perstições que hoje apenas nos merecem um sorriso pelo ab­surdo e pela inocência de quem acreditava que não se podia var­rer à noite, pôr a vassoura ao contrário, deixar os sapatos com as solas viradas para cima, en­tornar sal ou azeite ou estar à porta quando tocavam as Trindades (toque ao fim da tarde chamando para a oração das Avé Marias. Era também considerado o final da jornada de trabalho). Este código informal do “não é bom”, transmitido oralmente de geração em ge­ração, tinha uma força tal que ninguém se atrevia a desafiá-lo e qualquer desrespeito ou descuido era severamente criticado pelos mais velhos.

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