Os socorros a náufragos em Vila Praia de Âncora
Em 1892, num só dia, no mar da Póvoa, que era o maior porto de pesca do reino, perderam a vida 105 pescadores. O dramatismo deste funesto acontecimento foi avassalador e nesse mesmo ano, um deputado poveiro (Joaquim Alves Matheus) reclamou a criação de uma entidade que velasse pela segurança dos pescadores. Foi então constituído o Real Instituto de Socorros a Náufragos, presidido pela Rainha D. Amélia. As precárias condições de segurança oferecidas pelos singelos molhes convergentes cuja construção se iniciou em 1862, não evitavam frequentes acidentes na aproximação e entrada no Portinho, com elevado número de casos mortais.

Apesar do Portinho d’Âncora ser um importante porto de pesca costeira no final do século XIX, só em 1913, fruto da insistência de uma comissão local do Instituto de Socorros a Náufragos, composta por Manoel Ferreira da Silva Couto, João José de Brito e Higino Lagido, e da pressão política do senador Luís Inocêncio Ramos Pereira, é que foi dotado de um barco salva vidas.
Baptizado com o nome “Pedro Bugalho”, de construção alemã, tinha 13 remadores e para albergar o salva vida foi construído um abrigo a norte do Forte da Lagarteira, que enfermava de vários problemas, designadamente o difícil acesso ao mar e regresso da embarcação ao abrigo. Foi seu “patrão” Plácido Silva, sendo Damião Fernandes Fão o seu substituto.

Em 1925, os pescadores escolheram outra localização, no centro do Portinho, que resolvia os problemas de acesso à água por meio de um par de carris e um berço rolante onde o barco estava pousado. Em 1936, o patrão do salva vidas era Firmino Evangelista Verde (1876-1953).
Desde a década de trinta que o Posto do ISN de Âncora começou a perder importância, ficando para trás no que toca a novos e modernos meios de salvamento. Em 1933 cerca de 64% dos postos do ISN já estavam equipados com “carro porta cabos” ou com “auto porta cabos”; igualmente, 31% dos postos estavam a ser equipados com “pistola lança bolas” ficando de fora, mais uma vez, o posto de Âncora, que só em 1950 recebeu uma nova embarcação salva vidas a remos, de nome “Lagoa”97.

O patrão deste barco, Manuel José de Oliveira98 (1903-1983), manteve o seu cargo até 1977, quando foi demolido o edifício do salva vidas, para a construção do prolongamento da avenida marginal (Náufragos, 1934).
Na década de quarenta, designadamente no período pós guerra, os salva vidas movidos a remos começaram a ser substituídos por embarcações a motor.
Se em 1950 este meio de salvamento já estava ultrapassado, em 1977 estava totalmente obsoleto, mas nada justificava o abandono da embarcação, primeiro no portinho e depois num estaleiro em Caminha, até à ruína e consequente desmantelamento.
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