Os sargaceiros da Praia de Âncora IV
Como se depreende da correspondência transcrita no post anterior, o problema do sargaço não interessava apenas aos lavradores mas também aos pescadores, que viam neste negócio a oportunidade de ganhar algum dinheiro, designadamente as mulheres que ajudavam a apanhar, a transportar e a carregar o sargaço para os carros de bois dos lavradores.

O pescador que assina a petição, Pedro Verde, também conhecido por “Pedro Bugalho”, era o quarto filho de António Verde e de Rosa Benita da Pena, a primeira família de A Guarda que, comprovadamente, veio residir para a Lagarteira em 1824. O apelido vem-lhe da sua mãe, que nos tempos em que vivia em A Guarda, quando andava na apanha do sargaço, boiava como um bugalho.
“Pedro Bugalho” nascido na Guarda em 1819, faleceu em Gontinhães em 1890, casou em 1838 com Margarida Pires e deste casamento nasceram 11 filhos. Margarida Pires teve o primeiro filho com 19 anos e o último com 42 anos, o que atesta a longevidade da procriação neste meio social.
Sobre Pedro Verde conta-se que um dia ao regressar do mar, a caminho de casa, que ficaria na Rua do Sol Posto, encontrou um magote de gente em volta de uma carruagem. Alguém lhe disse que era o rei e dirigindo-se à elegante personagem, provavelmente algum fidalgo ou governante (e não o rei), Pedro Verde trata-o respeitosamente por “Tio Rei” e pede-lhe para mandar construir um porto de mar para sossego e segurança dos pescadores. De seguida terá oferecido ao seu interlocutor uma caldeirada de sardinha, o quinhão daquela “maré”, sendo agradecido o gesto do pobre e humilde pescador e a promessa de construção de um porto de mar mais seguro. Esta estória era contada por um dos seus bisnetos José Alberto Verde, o Tio Tampa que eu bem conheci, pois fui seu vizinho desde criança.
Não sabemos a influência que este gesto teve na construção do porto, mas “Pedro Bugalho” era um líder na sua comunidade que sabia defender os seus legítimos interesses, bem como os dos camaradas, que representava nas demandas perante as instituições e cuja opinião, tal como a de outros homens considerados “de respeito”, era como uma lei, acatada e reconhecida por todos os elementos da sua comunidade.
Em reconhecimento pela sua capacidade de liderança e de defesa dos interesses da classe, o primeiro barco salva vidas que veio para o portinho, no ano de 1913, foi baptizado de “Pedro Bugalho” e mais tarde, em 1977, foi atribuído este topónimo ao Largo que liga a Avenida Dr. Ramos Pereira e a Avenida Campo do Castelo, em frente ao portinho.
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