Os sargaceiros da Praia de Âncora III

Pedro Verde também conhecido por Pedro Bugalho, pescador da Praia d’Âncora, oficiou no sentido de influenciar positivamente o poder central e impedir a concessão de um bem considerado público e um direito muito antigo.
Exmos. Senhores junto a esta mando duas representações para Sua Real Majestade uma da Junta e moradores desta Freguesia e outra tomada pelos pescadores os quais defendem a um cargo que de novo se representa neste local que é aparecerem nas esquinas das ruas diferentes éditos comunicando que no dia 20 do corrente de se proceder à arrematação do sargaço e lixo que deve arribar à praia do sul do portinho ou Forte desta Freguesia a qual arrematação é perante a Administração do Concelho de Caminha por ordem superior da Direcção das Obras Públicas. Como digo uma usurpação que querem fazer aos habitantes desta freguesia e a nós pobres pescadores queremos com a força possível entregar a quem possa achar conveniente ou o Sr. Miguel Dantas ou ao Ministro finalmente todo o trabalho se lhes abona, o que queriam era uma resposta satisfatória e o mais breve possível.
Atentamente
Pedro Verde
Alguns dias depois, recebeu a seguinte resposta:
Exmo. Sr. Recebi as duas representações e fui falar ao Director Geral das Obras Públicas e apresentei-lhas; disse-me que nada sabia sobre este respeito e mandou-me falar ao Chefe da Repartição por onde devia correr este negócio, este disse-me que também nada sabia, mas que este sargaço ou lixo que era logradouro comum, e que os senhores não podiam ser despojados de um direito; e o Senhor Director Geral que tratou de dar ordens para se saber o que havia a tal respeito e este fez à minha vista um telegrama para o Director Geral das Obras Públicas de Viana do Castelo a perguntar-lhe o que havia a este a respeito; e disse-me que fosse amanhã saber a resposta.
O que a eles lhes parece é que isto seria pela Administração do Concelho, ou pela Câmara porque o edital não diz quem manda fazer a arrematação; se foi o Director das Obras Públicas podem contar que este negócio é resolvido favoravelmente; agora no caso de não ser pelas obras públicas avisem-me pelo telégrafo para ver se ainda se podem dar algumas providências; ainda cuidei que fosse pelo Ministério das Finanças, fui lá saber, mas lá não consta nada. Não falei ao Miguel Dantas por que se eu lhe fosse falar era o bastante para ele pedir para o negócio ser feito ao contrário, pois que ele o que quer é apanhar é que o governo lhe garanta 6% sobre o que ele tem no Caminho de Ferro da Póvoa do Varzim e nos negócios do Concelho que gastou 1.000 libras e que não é para tratar dos interesses locais por onde seria deputado; depois da representação em que os senhores pediram uma solução não ficarmos indiferentes; e se algum dia lhes queiram dirigir alguma representação dirijam-na directamente a ele, de contrário não tem contributo dele. Do que houver eu participarei ficando certo de que hei-de fazer tudo quanto puder.
Lisboa, 15 de Maio de 1879
Cláudio dos Santos
No dia imediato, nova comunicação de Lisboa, a confirmar as boas notícias:
Exmos. Senhores participo-lhes que já foram dadas ordens sobre a arrematação do sargaço e lixo que havia de ser arrematado no dia 20, e esta ordem foi mandar suspender até se averiguar como esse negócio é, e espero eu visto daqui me disse o Chefe que pode ser resolvido favoravelmente em tudo. Do que houver e for ocorrendo ocupar-me-ei. Recebi hoje a sua conta e querendo prestá-lo este serviço são 2.000 R e por hoje é tudo a participar-lhes ficando como sempre às suas ordens.
Lisboa, 16 de Maio de 1879
Cláudio dos Santos
Ainda houve mais alguma troca de correspondência, nomeadamente para agradecer os bons ofícios de Cláudio dos Santos e a postura do Director Geral neste processo, ficando por esclarecer a quem pertenceu a iniciativa dos editais para a arrematação do sargaço. No entanto, ficou sempre a suspeita que teria partido da Administração do Concelho de Caminha.
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