Os sargaceiros da Praia de Âncora I

Além dos naufrágios, aponta-se a emigração para o Brasil e colónias africanas como uma das causas para a despovoação de homens aptos e a substituição pelas mulheres em tarefas como a apanha do sargaço, que a partir do século XVIII teve forte procura por parte dos agricultores locais e também dos lavradores abastados, provenientes de terras do interior do país, que pagavam em dinheiro vivo.


Este súbito incremento na procura das algas está relacionado com a introdução do milho e da batata na dieta alimentar portuguesa, sendo res­ponsável pela melhoria da alimentação, logo pelo aumento da esperança e qualidade de vida.


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Desde finais do século XVIII até aos anos sessenta do século passa­do, o crescimento da produção de batata e milho no litoral norte conduziu à expansão dos campos agrícolas e ao aproveitamento de novos terrenos com menor aptidão produtiva, como solos arenosos, que só a custa de fertiliza­ção abundante com algas ou patelo podiam tornar mais produtivos.


Esta expansão foi tão relevante que a pesca do patelo e a apanha do sargaço se transformaram em prósperos motores económicos do litoral norte, gerando proveitos a pescadores e lavradores que possuíam os meios necessários ao negócio (uns o barco, outros o dinheiro), dando trabalho a grande quantidade de pessoas, camponeses sem terras, carreteiros, carre­gadores e cabaneiros.


Os grupos de sargaceiros, outrora constituídos exclusivamente por homens, passam a mistos, embora com a oposição de alguns sectores da sociedade, como a Igreja.


Ao sargaço retirado da praia aplicava-se o imposto universal do dí­zimo, 10% do produto recolhido revertia para a Igreja, com excepção do sargaço que fosse para adubar as terras da própria freguesia; se este fosse vendido já era aplicado o dízimo. Existiu uma longa disputa entre os mora­dores e a Igreja, que se prolonga entre os séculos XVI e XIX, sobre os dias em que se podia apanhar o sargaço.


Na coerência da doutrina da Igreja, a apanha das algas, como qual­quer outro trabalho, não devia realizar-se aos domingos e dias santos fe­riados. Porém, devido ao elevado valor do sargaço e porque as algas por vezes davam à costa aos domingos, a pressão para que a apanha de algas nesses dias foi tal que começa por ser tolerada pelo bispo de Braga em 1725, embora com regras, cuja não observância conduzia ao pagamento de multas, designadas popularmente por “as penitências do argaço”. Existiam disposições especiais para a apanha de algas por mulhe­res tais como não poderem apanhar algas à noite na presença de homens e mulheres solteiras só podiam apanhar algas à noite na companhia do pai (Oliveira, 1990).


Os Franciscanos que habitavam no Convento da Ínsua, na foz do Rio Minho, opunham-se a que mulheres (mesmo ves­tidas de homem) procedessem à apanha de algas na ilha da Ínsua e nem os homens podiam ali pernoitar, sendo obrigados a ru­mar a terra ao fim da tarde.


Raul Brandão, na obra “Os Pescado­res”, diz a determinado ponto,


“Em Âncora, homens e mulheres apanham, secam, dobram em mantas, carregam nos carros, a dorso de jericos, ou simplesmente à cabeça, o sargaço e as algas, que, com o patelo, são o alimento e a fartura destas terras. As mulheres de gadanho e ancinho, de saia ensacada e perna à mostra, apanham as algas na flor das ondas ou no fundo das poças quan­do a maré vaza; rapam-na de pedras esverdeadas; estendem-nas no areal a secar ou despejam-na nos carros enquanto os bois pastam as ervas e amargas que crescem à beira-mar, salpicadas de espuma.”


Embora no Portinho d’Âncora se fizesse apenas a apanha apeada do sargaço com as ferramentas próprias, havia nas proximidades outros portos que utilizavam a masseira para esta finalidade. Existiam 1 masseira na Ín­sua, 10 em Moledo, 2 no Caneiro do Forte do Cão, 8 em Afife, 12 em Paçô (Montedor Norte), 2 em Fornelos (Montedor Sul) e 6 na Fonte do Mar (Mon­tedor Sul) (Silva, 1891).


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A apanha do sargaço era também motivo para grandes discussões e desavenças, designadamente quando se relacionava com a questão do interdito religioso. Os cidadãos que respeitavam a proibição e se abstinham de ir à praia nos dias santificados, pelo menos antes da missa, protestavam contra os que não cumpriam estas regras, e daí surgirem frequentemente as discórdias e as pancadarias, que naturalmente se agravavam se alguns dos contendores procediam de freguesias vizinhas.


Há comunidades em que a apanha do sargaço estava associada a uma indumentária própria, a branqueta, o que não é o caso das gentes de Âncora, que iam para o mar com as suas roupas habituais, levando consigo uma muda de roupa seca para usar quando saíssem da água.


Isto porque a apanha do sar­gaço na zona da Lagarteira era efectuada após o mar ter arrojado as algas ou então entre as pedras da “ribeira”, não havendo necessidade de entrar mar adentro para arrastar o sargaço para terra. Presume-se também que a competição nesta actividade agro-marítima não fosse aqui tão intensa como noutras comunidades, onde os sargaceiros eram forçados a avançar mar adentro para serem os primeiros a alcançar o sargaço.

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