O refraneiro da comunidade piscatória da Praia de Âncora I

As velas que se erguiam há pouco enfunadas pela viração de norte à luz da tarde em desmaio, eram já uma visão passada. Rumo ao mar, era um espetáculo digno da tela de um pintor, ou de um registo fotográfico para reter tão nostálgicas imagens das masseiras, velas a pender para sotavento inclinadas pela brisa ligeira no recorte plano do vasto horizonte.


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Agora, que a brisa cessou completamente, sobre as águas estanhadas o sol lança os últimos reflexos de luz e esconde-se por entre a cor litúrgica do martírio pintado no horizonte ao despedir-se. Uma grande quietude e silêncio só quebrado pelo rolar das redes polé afora mergulhando no mar.


A velhinha, que se tinha sentado à soleira da porta a receber os últi­mos raios de sol do fim da tarde, vendo desaparecer na distância as mas­seiras, recolhe-se agora, rogando a Deus por boa pesca. Depois, são as recordações do passado, as vozes e as imagens dos tempos da juventude. Também, a voz familiar do refraneiro que lhe soa naquele momento: “Ver­melho ao mar, velhinhas a assolhar.”


Naquele tempo não havia boletins meteorológicos que avisassem os pescadores. Vinha-lhes do conhecimento empírico e da tradição oral a leitu­ra segura dos fenómenos do tempo e de outras coisas do seu entorno laboral com influência nas coisas do mar.


Assim, o pescador bebe na sabedoria do seu refraneiro marítimo o conhecimento do mundo que o envolve.


Este refraneiro vem de longe e não há dúvida que o herdou dos seus ancestrais galegos, pois a maioria destes refrãos são comuns às comuni­dades piscatórias galegas, outra prova das origens galegas da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora.


Na medida do possível, procuraremos explicar o significado de alguns refrãos dos pescadores ancorenses.


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Assim, “Vermelho ao mar, velhinhas a assolhar”, quer dizer que no dia seguinte a este horizonte vai fazer bom tempo.



  • “A mulher e a sardinha , a mais pequenina”, ou seja, a mais jeitosi­nha, a mais graciosa.

  • “Lua em pé, marinheiro deitado”, significa que o pescador pode dor­mir descansado.

  • “Pelo São João, pinga a sardinha no pão”, quando a sardinha já está gorda.

  • “Barco à costa, capitão rico”, alusão aos naufrágios provocados pela malícia dos homens para obterem benefícios da carga. Quando ainda não havia faróis, grupos capitaneados por um chefe faziam fogueiras num determinado ponto da costa, a fim de enganar os navegantes. Estes, ao aproximarem-se acabavam por encalhar nos baixios, o barco perdia-se e os bandidos apossavam-se da carga. O chefe recebia o maior quinhão, ficava rico.

  • Mas se em vez de “capitão” dissesse “patrão”, isso tinha a ver com a carga segura. Num naufrágio, só o patrão recebia o seguro da carga. Os marinheiros até podiam perder a vida e os que se salvassem ficavam sem nada.

  • Sul arrastador, norte pescador”, o vento sul arrasta águas mais quentes e nutrientes o que atrai mais abundância de peixe. O norte bonan­çoso envolvendo as águas torna-as mais aptas a uma boa pesca.

  • “Sul de manhã, no verão, à noite remo na mão”, este vento não preo­cupa pois acalma ao fim da tarde.

  • “Norte escuro, sul seguro”, fenómeno atmosférico presságio de tempo invernoso.

  • Santa Tecla com capelo, chove logo ou venta cedo”, formação de nu­vem sobre o cone do monte. É preciso contar com esta alteração do tempo de chuva ou vento.

  • “Lua deitada, marinheiro em pé”, sinal de alerta pois o tempo muda de um momento para o outro para tempestade.

  • “Lua com anel, chuva e vento a granel”, círculo à volta da lua. Quando o vento começar a soprar há que procurar abrigo, ou preparar-se para a tormenta.

  • “Céu escamento, ou chuva ou vento”.

  • “Vermelho ao nascente,vento de repente”.

  • “Sul airoso, norte bonançoso”, sul claro, sem nuvens, preanuncia nor­te brando.


(continua)

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