O refraneiro da comunidade piscatória da Praia de Âncora II

50 - Truque varado no portinho - final do anos 50.



  • O porco não foi marinheiro por não olhar para o ar”, chamada de atenção para as coisas que estão acima da cabeça e podem constituir risco pessoal ou para a embarcação.

  • “As estrelas a brilhar, norte fresco vai soprar”, estrelas muito cintilan­tes, nortada à certa.

  • “Norte e lua, não morre nada à fisga”, águas frias e transparentes.

  • Quando a Candelária chora, o inverno foi embora”, se chove no dia da Candelária o tempo de inverno está a passar e melhor tempo a chegar.

  • “Quando a Candelária rir, o Inverno está para vir”, se fizer sol no dia da Candelária, sinal de preocupação pois o Inverno vai prolongar-se.

  • “Céu empedrado, chão molhado”, o mesmo que “céu escamento, chu­va ou vento”.

  • “Neve na lama, chuva na cama”, muita chuva está para vir.

  • “Em Maio a raia, por Deus venha, por Deus vaia”, um dilema. Pescar é bom, mas comê-la não. Como está em processo de desova, doente, pode adoecer ou matar quem a come.

  • “Raia em Maio, tumba à porta, mas venha a raia que a morte não importa”, em linha com a anterior. Talvez distúrbios gástricos agravassem situações de doenças contraídas anteriormente.

  • “Parede ao noroeste, ou sul ou sueste”, é a parede de nuvens que se formam a noroeste premonitórias de vento sul, de Inverno.

  • “Lua nova trovejada, trinta dias é molhada”, quando troveja na lua nova é certo que haverá instabilidade do tempo com invernia.

  • “Lua nova, lua cheia, preia-mar às duas e meia”, significa que o preia -mar destas luas são coincidentes.

  • “Lua metida seca escorrida”, a maré não baixa mais.

  • “Maio vento­so, para o lavrador formoso, para o pes­cador desastroso”, tempo de escassez de peixe devido à nortada e conse­quente esfriamento e transparência das águas.

  • “Mar de anda­ço, não te faltará o sargaço”, o mar agitado arranca o sargaço das pedras e arroja-o à praia. Depois, é só recolher.

  • “Névoa no rio Minho, norte ou sul pelo caminho”, nestas condições é preciso contar um destes ventos vai soprar.

  • Os paínhos a picar, vento norte vai soprar”, quando pela popa da embarcação se junta um bando destes pássaros marinhos a meter muitas e repetidas vezes o bico na água (picar) é sinal de nortada.

  • “Rede nova tira o peixinho da cova”, desejo de bom augúrio para uma rede a estrear.

  • “A faneca em Janeiro sabe a carneiro”, é quando sabe melhor, mais apetitosa.

  • Vento de névoa, amor de puta”, vento enganoso, ora impetuoso, ora escasso. Tanto enche a vela como a deixa a abanar vazia de vento.

  • “Vento do sul que pela tarde entra, à noite mais tormenta”.

  • “Quando o arau canta, a sardinha espanta”, quando esta ave marinha canta há escassez de sardinha. Como não tem que comer, esta ave põe-se a cantar. Como S. Francisco de Assis fazia com os seus companheiros quando não tinham que comer. Ele recomendava que cantassem. Portanto, uma vir­tude de algumas criaturas, mas um mal presságio para o homem da masseira.

  • “Homem do mar que mija na cama e diz à mulher que está a suar”, depreciativo aplicado ao homem que se acobarda, que não vai à luta.

  • “Grande nau, grande tormenta”, quanto maior é a embarcação maior é o dano.

  • Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno”, anúncio de que os sinais de inverno podem chegar em breve.

  • “Marinheiro sem navalha é como puta sem cama”, improvisa quem não está preparado.

  • “Se vem água e depois vento, põe-te em guarda e toma tento”, mais vale prevenir do que remediar. Estas condições podem descambar em tem­pestade.

  • “Vento do sú (sul), peixe no cú”, isto é, mar sem peixe.

  • “Forte e feio que é p’ro mar”, nunca descurar a segurança. Nem sem­pre a mais bonita e perfeita embarcação é a mais segura. Por isso a segu­rança deve sobrepor-se a outros detalhes.

  • “A tenda e o cono, querem-se pela mão do dono”, ou seja, para quem sabe e para quem lhe dói (custo).

  • “Quando o mestre é careca, a companha toca rabeca”, quando o mes­tre não é competente não pode ter êxito no trabalho.

  • “Ovelhas não são para mato”, quem é afeiçoado ao trabalho suave, não está adestrado para trabalho duro.

  • “Gaivotas em terra, fome no mar”, sinal de escassez de peixe e tor­menta.

  • “Quando Deus queria do norte chovia”, alusão a que o impossível pode acontecer.


 


Candeias a chorar


O inverno a acabar;


Candeias a rir


O inverno por vir.


Quando em dia de Nossa Senhora das Candeias, 2 de Fevereiro, está bom tempo é sinal que ainda há-de fazer muito inverno nesse ano.


 


O refraneiro marítimo é o repositório da experiência e este conheci­mento foi transmitido de geração em geração, um conhecimento transversal às comunidades piscatórias, pois é muito semelhante desde as Rias Baixas Galegas até à zona de Vila do Conde.

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