O refraneiro da comunidade piscatória da Praia de Âncora II

- “O porco não foi marinheiro por não olhar para o ar”, chamada de atenção para as coisas que estão acima da cabeça e podem constituir risco pessoal ou para a embarcação.
- “As estrelas a brilhar, norte fresco vai soprar”, estrelas muito cintilantes, nortada à certa.
- “Norte e lua, não morre nada à fisga”, águas frias e transparentes.
- “Quando a Candelária chora, o inverno foi embora”, se chove no dia da Candelária o tempo de inverno está a passar e melhor tempo a chegar.
- “Quando a Candelária rir, o Inverno está para vir”, se fizer sol no dia da Candelária, sinal de preocupação pois o Inverno vai prolongar-se.
- “Céu empedrado, chão molhado”, o mesmo que “céu escamento, chuva ou vento”.
- “Neve na lama, chuva na cama”, muita chuva está para vir.
- “Em Maio a raia, por Deus venha, por Deus vaia”, um dilema. Pescar é bom, mas comê-la não. Como está em processo de desova, doente, pode adoecer ou matar quem a come.
- “Raia em Maio, tumba à porta, mas venha a raia que a morte não importa”, em linha com a anterior. Talvez distúrbios gástricos agravassem situações de doenças contraídas anteriormente.
- “Parede ao noroeste, ou sul ou sueste”, é a parede de nuvens que se formam a noroeste premonitórias de vento sul, de Inverno.
- “Lua nova trovejada, trinta dias é molhada”, quando troveja na lua nova é certo que haverá instabilidade do tempo com invernia.
- “Lua nova, lua cheia, preia-mar às duas e meia”, significa que o preia -mar destas luas são coincidentes.
- “Lua metida seca escorrida”, a maré não baixa mais.
- “Maio ventoso, para o lavrador formoso, para o pescador desastroso”, tempo de escassez de peixe devido à nortada e consequente esfriamento e transparência das águas.
- “Mar de andaço, não te faltará o sargaço”, o mar agitado arranca o sargaço das pedras e arroja-o à praia. Depois, é só recolher.
- “Névoa no rio Minho, norte ou sul pelo caminho”, nestas condições é preciso contar um destes ventos vai soprar.
- “Os paínhos a picar, vento norte vai soprar”, quando pela popa da embarcação se junta um bando destes pássaros marinhos a meter muitas e repetidas vezes o bico na água (picar) é sinal de nortada.
- “Rede nova tira o peixinho da cova”, desejo de bom augúrio para uma rede a estrear.
- “A faneca em Janeiro sabe a carneiro”, é quando sabe melhor, mais apetitosa.
- “Vento de névoa, amor de puta”, vento enganoso, ora impetuoso, ora escasso. Tanto enche a vela como a deixa a abanar vazia de vento.
- “Vento do sul que pela tarde entra, à noite mais tormenta”.
- “Quando o arau canta, a sardinha espanta”, quando esta ave marinha canta há escassez de sardinha. Como não tem que comer, esta ave põe-se a cantar. Como S. Francisco de Assis fazia com os seus companheiros quando não tinham que comer. Ele recomendava que cantassem. Portanto, uma virtude de algumas criaturas, mas um mal presságio para o homem da masseira.
- “Homem do mar que mija na cama e diz à mulher que está a suar”, depreciativo aplicado ao homem que se acobarda, que não vai à luta.
- “Grande nau, grande tormenta”, quanto maior é a embarcação maior é o dano.
- “Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno”, anúncio de que os sinais de inverno podem chegar em breve.
- “Marinheiro sem navalha é como puta sem cama”, improvisa quem não está preparado.
- “Se vem água e depois vento, põe-te em guarda e toma tento”, mais vale prevenir do que remediar. Estas condições podem descambar em tempestade.
- “Vento do sú (sul), peixe no cú”, isto é, mar sem peixe.
- “Forte e feio que é p’ro mar”, nunca descurar a segurança. Nem sempre a mais bonita e perfeita embarcação é a mais segura. Por isso a segurança deve sobrepor-se a outros detalhes.
- “A tenda e o cono, querem-se pela mão do dono”, ou seja, para quem sabe e para quem lhe dói (custo).
- “Quando o mestre é careca, a companha toca rabeca”, quando o mestre não é competente não pode ter êxito no trabalho.
- “Ovelhas não são para mato”, quem é afeiçoado ao trabalho suave, não está adestrado para trabalho duro.
- “Gaivotas em terra, fome no mar”, sinal de escassez de peixe e tormenta.
- “Quando Deus queria do norte chovia”, alusão a que o impossível pode acontecer.
Candeias a chorar
O inverno a acabar;
Candeias a rir
O inverno por vir.
Quando em dia de Nossa Senhora das Candeias, 2 de Fevereiro, está bom tempo é sinal que ainda há-de fazer muito inverno nesse ano.
O refraneiro marítimo é o repositório da experiência e este conhecimento foi transmitido de geração em geração, um conhecimento transversal às comunidades piscatórias, pois é muito semelhante desde as Rias Baixas Galegas até à zona de Vila do Conde.
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