O papel das mulheres na comunidade piscatória

Tradicionalmente era pelo género sexual que se diferenciavam as pro­fissões, havendo trabalhos para homens e outros para mulheres. O mundo do mar em geral e a pesca em particular, foi socialmente entendido como um mundo de profissões masculinas. Durante séculos esteve até arreigada a crença marinheira que uma mulher a bordo dava azar.


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Hoje, tal desiderato seria visto como sexista e retrógrado, mas tam­bém é verdade que ao longo dos tempos a comunidade soube encontrar formas de tornear aquela fronteira entre as práticas de trabalho porque, no caso da pesca, a frequência dos naufrágios e a viuvez precoce das mulheres, endividadas e com filhos menores a sustentar, poderá ser apontada como uma das razões para se encontrarem mulheres a desempenhar algumas ta­refas normalmente reservadas aos homens, havendo até uma comunidade (Vila Chã, Concelho de Vila do Conde) onde as mulheres trabalhavam a bordo das embarcações.


Esquecendo o caso singular desta comunidade, podemos identificar um conjunto de actividades ligadas ao mar onde as mulheres tinham o pro­tagonismo:



  • Redeiras: Fazem e consertam redes, atam e armam armadi­lhas de rede como as boscas e os covos;

  • Peixeiras: vendem peixe pelas ruas nas localidades do litoral e no interior. Cada peixeira ou família tinha determinadas fregue­sias ou lugares onde praticava durante anos a venda;

  • Rematadeiras: compram o peixe em leilão junto ao barco e mais tarde na lota;

  • Mariscadeiras: apanham os mariscos e peixes nas camboas e entre as pedras da costa;

  • Sargaceira: faz a apanha de sargaços arrojados a terra de Maio a Setembro com a ajuda de ancinhos, redenhos (rodafoles ou galhapão) e padiolas.


 


Noutras comunida­des piscatórias identificam-se ainda actividades como salineira, saleira e salga­deira, barqueira ou janga­deira.


A diferença entre o homem e a mulher, e o papel reservado a cada um deles, marca a vida da comunidade marítima de Âncora. Descrever as suas formas e as suas manifes­tações, significa definir as relações estabelecidas entre os grupos, suscita­das pela divisão do trabalho, e perguntar qual é a função dessa divisão. A participação das mulheres na economia da pesca foi fundamental durante muito tempo, apenas se esbatendo parcialmente com a industrialização do sector (fábricas de conservas e seca/processamento de bacalhau) em algumas comunidades.


Essa actuação é expressa nos lavores ligados ao mar mas realizadas em terra, onde o produto da pesca e os seus resultados escapavam ao con­trolo dos pescadores. Todas as fases da cadeia técnica, do desembarque do produto até ao consumo, passando pela sua transformação e a sua comer­cialização, eram feitas por mulheres. O seu ganho, ainda hoje, contribui para a renda familiar, por vezes o único rendimento da família devido à natureza incerta do ganho do pescador.


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Quem administra essa renda são as mulheres, situa­ção que ratifica o seu poder e que é utilizada por elas para perpetuá-lo. As mulheres dos pescadores estabeleceram todo um conjunto de estratégias, permitindo-lhes ganhar dinhei­ro e economizar para os tem­pos difíceis (Magalhães & Bap­tista, 2006).


Também as suas com­petências estendem-se a outros sectores, em particular ao turismo, com o aluguer de casas a banhistas, outra actividade económica de importância em Âncora desde as últimas décadas do século XIX, como já foi referido, até à actualidade.


“são elas em toda a parte que nos salvam, parindo filhos sobre filhos para a emigração, para a desgraça e para a dor. Creio que só assim parindo e gemendo, tecendo e lavrando, mas principalmente parindo, é que se equilibra a nossa balança comercial, o que nos tem permitindo viver como nação independente” (Cole, 1994);


Estes dados permitem apresentar três níveis de actuação da mulher na comunidade:



  1. O trabalho desempenhado na praia (venda, amanho, transporte, salga), a apanha de algas e a conservação de redes;

  2. O desempenho reprodutivo (elevado número médio de filhos);

  3. A tomada das decisões, regista, gere, manda, poupa, alimenta, arruma e manifesta.


São de facto as mulheres dos pescadores quem assume a condução das suas famílias, a resolução dos seus problemas, quer se trate de ques­tões legais ou patrimoniais, quer se trate das questões tradicionalmente atribuídas às mulheres, como o tratar da casa e dos filhos. Os pescadores pouco mais fazem que tratar dos assuntos da pesca.

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