A Lagarteira no final do século XIX (2ª parte)

O Lugar da Lagarteira continuava a crescer, rasgavam-se novas ruas para conferir capacidade construtiva aos terrenos, que eram disputados entre os pescadores e os lavradores de Gontinhães, bem como por forasteiros que procuravam o melhor sítio para construir os comércios ou casas de habitação.


12 - Masseiras no Varadouro - 1936.jpg


Porém, o núcleo habitacional compreendido entre o Portinho, o Campo do Castelo, a Rua e Travessa dos Pescadores, a Rua 13 de Fevereiro, Rua João Alves da Devesa, a Avenida Dr. Ramos Pereira, tal como a Rua Celesti­no Fernandes e parte da Rua Laureano Brito, mantiveram a coesão de classe até meados do século XX, sendo até essa data ocupada quase exclusiva­mente por habitações de pescadores e algumas pequenas tabernas.


Ainda na segunda metade do século XIX, inicia-se um outro tipo de movimentação populacional, de natureza distinta daquela que tinha origem nos pescadores guar­deses, embora com características de sa­zonalidade, cujos flu­xos se deslocavam em sentido inverso aos das populações pis­catórias, com a des­coberta por parte da burguesia urbana das virtudes terapêuticas da vida à beira-mar. Este fenómeno levou um número crescente de pessoas a afluir sazonalmente ao litoral em busca de repouso, de saúde e divertimento.


Após a estação dos banhos, entre Julho e Setembro, os banhistas da cidade davam lugar aos camponeses do interior que, após as colheitas vêm descansar durante os meses de Outubro e Novembro.


Ramalho Ortigão, no seu guia de viagens “As Praias de Portugal”, escreve:


“o tratamento marítimo que os doentes vão procurar nas praias, consta de três elementos distintos: a atmosfera marítima, a água do mar para uso interno e o banho de mar” (Ortigão, 1876).


Contudo, os banhistas não beneficiavam apenas dos banhos de mar, do sol e dos bons ares marítimos, mas também do espectáculo da beira-mar, da deslumbrante e imensa paisagem e das actividades que nela têm lugar, como a pesca e tudo o que com esta se relaciona; o bulício característico da chegada dos barcos ao portinho, as velas enfunadas das masseiras a gal­garem as ondas, o exotismo dos gestos e dos costumes, da linguagem e do trajar de gente tão pobre.


O dia-a-dia dos banhistas, além da contemplação paisagística e das actividades piscatórias, incluía passeios a pé, pela praia, de carruagem ou comboio até às freguesias próximas, bem como piqueniques, bailes e outras actividades como declamar, cantar, tocar piano ou jogar cartas ou bilhar, con­soante os gostos pessoais e o estrato social a que se pertencia (Nunes, 2003).


28 - Família de Banheiros - 1920.jpg


Na Praia d’Âncora, várias famílias de banheiros não só se encarregavam de chamar os veraneantes para o banho de mar como tratavam da construção e aluguer das pequenas barracas de lona onde se mudava de roupa.


Mais tarde, as virtudes terapêuticas da água salgada revelavam-se de outra forma mais elaborada, os banhos quentes especialmente recomendá­veis para doenças reumáticas.


Para isso chegaram a existir três estabeleci­mentos de talassoterapia, para onde as raparigas acarretavam cântaros de água salgada que depois era aquecida numa caldeira e fornecida em tinas individuais aos utilizadores.

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