A Lagarteira no final do século XIX (2ª parte)
O Lugar da Lagarteira continuava a crescer, rasgavam-se novas ruas para conferir capacidade construtiva aos terrenos, que eram disputados entre os pescadores e os lavradores de Gontinhães, bem como por forasteiros que procuravam o melhor sítio para construir os comércios ou casas de habitação.

Porém, o núcleo habitacional compreendido entre o Portinho, o Campo do Castelo, a Rua e Travessa dos Pescadores, a Rua 13 de Fevereiro, Rua João Alves da Devesa, a Avenida Dr. Ramos Pereira, tal como a Rua Celestino Fernandes e parte da Rua Laureano Brito, mantiveram a coesão de classe até meados do século XX, sendo até essa data ocupada quase exclusivamente por habitações de pescadores e algumas pequenas tabernas.
Ainda na segunda metade do século XIX, inicia-se um outro tipo de movimentação populacional, de natureza distinta daquela que tinha origem nos pescadores guardeses, embora com características de sazonalidade, cujos fluxos se deslocavam em sentido inverso aos das populações piscatórias, com a descoberta por parte da burguesia urbana das virtudes terapêuticas da vida à beira-mar. Este fenómeno levou um número crescente de pessoas a afluir sazonalmente ao litoral em busca de repouso, de saúde e divertimento.
Após a estação dos banhos, entre Julho e Setembro, os banhistas da cidade davam lugar aos camponeses do interior que, após as colheitas vêm descansar durante os meses de Outubro e Novembro.
Ramalho Ortigão, no seu guia de viagens “As Praias de Portugal”, escreve:
“o tratamento marítimo que os doentes vão procurar nas praias, consta de três elementos distintos: a atmosfera marítima, a água do mar para uso interno e o banho de mar” (Ortigão, 1876).
Contudo, os banhistas não beneficiavam apenas dos banhos de mar, do sol e dos bons ares marítimos, mas também do espectáculo da beira-mar, da deslumbrante e imensa paisagem e das actividades que nela têm lugar, como a pesca e tudo o que com esta se relaciona; o bulício característico da chegada dos barcos ao portinho, as velas enfunadas das masseiras a galgarem as ondas, o exotismo dos gestos e dos costumes, da linguagem e do trajar de gente tão pobre.
O dia-a-dia dos banhistas, além da contemplação paisagística e das actividades piscatórias, incluía passeios a pé, pela praia, de carruagem ou comboio até às freguesias próximas, bem como piqueniques, bailes e outras actividades como declamar, cantar, tocar piano ou jogar cartas ou bilhar, consoante os gostos pessoais e o estrato social a que se pertencia (Nunes, 2003).

Na Praia d’Âncora, várias famílias de banheiros não só se encarregavam de chamar os veraneantes para o banho de mar como tratavam da construção e aluguer das pequenas barracas de lona onde se mudava de roupa.
Mais tarde, as virtudes terapêuticas da água salgada revelavam-se de outra forma mais elaborada, os banhos quentes especialmente recomendáveis para doenças reumáticas.
Para isso chegaram a existir três estabelecimentos de talassoterapia, para onde as raparigas acarretavam cântaros de água salgada que depois era aquecida numa caldeira e fornecida em tinas individuais aos utilizadores.
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