A Lagarteira no final do século XIX (1ª parte)

A enseada natural do Moureiro, Zona entre o Forte da Lagarteira e a foz do Rio Âncora, era apenas segura e praticável como abrigo náutico durante os curtos meses de verão e com mar calmo. Com mar agitado, aqueles rochedos tornavam-se garras afiadas que despedaçavam facilmente as frágeis embarcações dos pescadores.


Em 1865, foram executadas obras de restauro no Forte da Lagarteira, que ainda albergava alguns reservistas mas estava desarvorado há muito e concluiu-se um molhe de protecção, iniciado em 1862 ao norte deste baluarte, mas que pou­ca ou nenhuma segurança oferecia, como refere Pinho Leal.


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Os sucessivos acidentes com perdas de vidas e equipamentos, a pres­são pública local e até a influência dos banhistas, bem como as recorrentes críticas na imprensa, levam o governo, através das obras públicas distritais, a mandar construir dois paredões convergentes que garantissem um pou­co mais de segurança. Até à construção destes molhes e mesmo depois de terminados em 1884, quando o mau tempo surpreendia os barcos no mar, a solução passava por rumar para um porto mais seguro, Viana do Castelo ou A Guarda.


A construção dos molhes criou uma zona de varadouro maior e rela­tivamente mais segura, desenvolvendo-se a pesca de forma gradual, que veio a constituir um centro de pesca com alguma importância no panorama regional. No entanto, o perigo continuou a acompanhar os pescadores anco­renses e os naufrágios eram frequentes.


Depois de muitas reclamações, quer dos pescadores, quer da Junta de Paróquia e da Câmara de Caminha, a Direcção de Faróis construiu em 1902 duas colunas de pedra, distando entre si 26 metros, que suportavam dois “Faróis de Estai”, e que emitiam uma luz vermelha fixa, dando o enfiamen­to da entrada do Portinho (Faróis, 1929).


Pretendia-se que estas luzes fossem visíveis até 2,5 milhas, mas cedo choveram as críticas pois as lanternas eram fracas e estavam geralmente apagadas por falta de combustível. A “Voz do Âncora” era uma das vozes que dava largas à indignação:


O Senhor Pereira de Mattos que intelligentemente presidiu as sessões do Congresso, classificou de ratoeira o nosso porto de abrigo para barcos de pesca, e de lanternas de carruagem os pharois que para aí existem sem lentes, e assim mesmo como sám, sem combustível para funcionarem! (Nº 37 de 18 de Setembro de 1904)


Estes faróis foram alvo de vários melhoramentos, sendo de destacar a electrificação em 1925.


Gina do Mario Laura e Lucia Verde Rosalina e Conce


Com o crescimento da actividade piscatória, em número de embarca­ções, de tripulantes e de pescado comercializado, tornava-se imprescindível a presença da autoridade marítima na localidade, para dar respostas às demandas legais que a pesca obrigava. Por isso, na grande reorganização dos departamentos marítimos em 1917, pelo Decreto 3:649, em 30 de No­vembro, é criada a Delegação Marítima de Âncora.


“…exige a presença de um oficial da marinha para o regular andamento, coincidindo essa necessidade com as instantes reclamações dos habitan­tes dessas localidades nesse sentido.


Por motivos análogos é criada uma delegação em Âncora e outra em Quarteira.” (Diário da República, 1917)


No entanto, foi preciso a reconfirmação, pelo Decreto 5:703, de 10 de Maio de 1919, para finalmente a Delegação Marítima de Âncora abrir portas, com uma área de jurisdição “Desde Santo Isidoro até ao Forte do Cão e o rio Âncora até à ponte do caminho-de-ferro”. A guarnição desta delegação era composta por um delegado marítimo (Oficial auxiliar do secretariado naval ou da classe de manobra) e um cabo de mar (Diário da Re­pública, 1919).


Raul Brandão, atento e sensível, visitando a Lagarteira a 14 de Agos­to de 1920, escreve no seu livro “Os Pescadores”,


“A parte dos pescadores no areal difere completamente nos tipos, nos costumes e nas casas, naturalmente noutros tempos barracas de madeira construídas sobre estacas. Há quatrocentos pescadores, pouco mais ou menos, e centos e trinta e dois barcos varados na praia, todos pintados de vermelho. São maceiras, de fundo chato, tripuladas por dois homens, volanteiras ou lanchas da pescada por doze homens, e barcos da sardinha, que levam cinco ou seis peças de sessenta braças cada uma, e quatro homens. As redes têm estes nomes: peças as da sardinha, volantes as da pescada. Chama-se galricho a uma espécie de nassa com que se apanha a faneca: rastão ao camaroeiro; patelo à rede que colhe o caranguejo ou mexoalho; e rasco à da lagosta. As redes da sardinha são do mestre e as da pescada dos pescadores. Os quinhões dividem-se conforme o peixe.


No Agosto começa a faina do patelo, assim se chama ao mexoalho ou pilado, que se deita vivo à terra para estrume. Junta-se no mar uma es­quadra de barcos, que vêm da Póvoa, de Viana e da Caminha; junta-se na praia uma fiada de carros de todas as aldeias, próximas ou longínquas que o transportam para o interior das terras. O areal está alastrado de patelo que remexe. Vende-se a lanço ou a cesto, que leva cada um dois alqueires e custa três tostões. E por toda a costa neste tempo vai a mesma agitação na apanha do sargaço.” (Brandão, 1989).


76 - Casa antiga onde funciou a loja da Curraca.JP


As relações entre pescadores do Porto d’Âncora e de A Guarda eram próximas e o intercâmbio comercial era uma necessidade incontornável, face às dificuldades económicas que se viviam quer na Galiza, quer no Norte de Portugal.


Enquanto as masseiras ancorenses levavam café, ovos, sabão e “ti­cum”, traziam na volta pão de trigo e milho, chocolate, conservas, carame­los e alpercatas. Apesar de clandestino, este negócio era geralmente tole­rado por aqueles que tinham por missão fazer cumprir a lei, pois recebiam uma gratificação dos donos das masseiras para acrescentar ao miserável soldo que o Estado lhes pagava.


Além deste contrabando/intercâmbio com os pescadores de A Guarda, algumas masseiras ancorenses colaboravam em acções de contrabando de maior envergadura, fazendo o transbordo das mercadorias entre o barco grande fundeado perto da costa, ao qual chamavam “galeão”, e o porto de descarga, que podia ser no “Caído” ou no “Caneiro” ao sul do Forte do Cão.

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