Cela 157. Ala Norte, Caxias
Julho de 1969
O comboio balouçava ao passar cada emenda dos carris. Contar os ressaltos teria sido uma boa maneira de passar o tempo se não tivesse na cabeça um turbilhão de pensamentos. De cada lado sentava-se um agente da PIDE, repousando os pés deles sobre os seus próprios sapatos, uma medida de segurança, tinham-lhe dito, uma humilhação pensava o Álvaro.
Tinha sido detido na fronteira em Valença. Regressava da Bélgica para passar uns dias de férias com a mãe e os amigos, em Âncora, pequena vila encostada ao mar. O mar que o viu nascer e crescer, a terra que lhe negou o sustento digno e suficiente, obrigando-o a emigrar para longe, mais para o norte, junto ao mar, como em Âncora.
Por lá foi aprendendo os porquês da emigração, ficou a saber mais das Províncias Ultramarinas que o regime dizia que eram nossas, quando todo o mundo dizia o contrário e condenava Portugal como potência colonial. Por lá assistira a reuniões de opositores a Salazar, que pregavam a liberdade e a democracia. Nunca se envolvera muito, o trabalho estava primeiro e a vida de emigrante não deixa tempo livre.
Na fronteira, quando entregou o passaporte ao funcionário da alfândega, nunca pensou que estariam à sua espera e lembra-se de apenas desejar que o comboio partisse logo, para abraçar a sua velha mãe, agora tão perto.
Os PIDES apresentaram-se sem alarido, nada de cenas à moda de Hollywood, simplesmente perguntaram-lhe o nome, como se não soubessem, e deram-lhe voz de prisão em tom perfeitamente casual. Antes de se sentarem ao seu lado, um deles fez questão de lhe mostrar disfarçadamente a arma que trazia ao cinto dizendo em voz baixa, “ o último que levei para o Porto quis fugir e tive que lhe dar dois tiros”.
Aquilo gelou-lhe o coração, a ameaça dita sem sentimento, como quem atira um caroço pela janela, o ar indiferente como os esbirros da polícia política encaravam a prisão de alguém que eles não conheciam, que não tinha cometido nenhum crime, que nem sequer tinha tomado parte em acções subversivas, que apenas tinha aprendido a desprezar a ordem imposta sobre um povo ignorante.
No Porto passou a noite na sede da R. do Heroísmo e no dia seguinte foi metido numa carrinha fechada com mais três indivíduos. Horas depois, meio cego com a luz forte de uma tarde de Julho, entrou na sinistra sede da Rua António Maria Cardoso em Lisboa.
Ao empurrão introduziram-no na sala onde um agente preencheu vagarosamente uma ficha com os seus dados pessoais. Quando terminaram, foi informado que ia ao médico, limitando-se este a examinar os papéis recem preenchidos. Perguntou-lhe se se queixava de alguma coisa e a rematar aquela caricatura de acto médico, atirou-lhe com ar cínico, “veja lá, não se queixe muito quando um dia sair daqui”. Mais outro balde de água fria a juntar aos anteriores, mas o que mais o apoquentava era a incerteza do que se iria passar, o desconhecido, mais até que o medo da tortura, que ouvira falar nas reuniões, na Bélgica. Como estava longe a Bélgica, era agora parte do passado e só de lá tinha saído há três dias.
Foi levado para uma pequena sala quase vazia, apenas uma velha e carunchosa secretária ocupava um dos cantos. Mandaram-no permanecer de pé várias horas, ao fim das quais começaram a interrogá-lo. Dois tipos, as ameaças de mil e um terrores se não respondesse com verdade a tudo.
O que fazia, com quem trabalhava, que portugueses é que conhecia na Bélgica, a quem escrevia para Portugal, quem eram os delegados sindicais da fábrica onde trabalhava, como se chamavam os homens do Partido Comunista, o que faziam os agitadores, onde viviam, como contactavam… Mil perguntas, mil vezes repetidas.
Só uma vez o PIDE que o estava a interrogar lhe deu uma bofetada. Mais para o acordar do que para doer. Preferiam pisar-lhe os pés, já massacrados pelas horas incontáveis de interrogatório e de estátua. Várias vezes se foi abaixo das pernas, logo espevitados com umas caneladas sabiamente aplicadas.
Quando o agente ameaçador saía por instantes da sala, logo o outro que se mantinha quase sempre em silêncio, vinha solicito tentar convencê-lo a falar, “sabe como é, tenho colegas violentos, que não tem paciência para nada. O melhor era você dizer tudo o que sabe para eu poder ajudá-lo”. Tudo falso, tudo combinado entre eles, que muitas vezes colocavam um bufo na cela dos novos para os ouvir “despejar o saco” entre eles.
Eles revezavam-se, voltavam as ameaças, as pisadelas, nunca batiam onde pudessem ficar marcas, tornava a escutar os conselhos do PIDE que dizia querer ajudar. Queria-se rir, chamar-lhes filhos da puta, já lhe disse sem conta que não conhecia ninguém do Partido Comunista, nem estudantes, nem operários, nem nada… Só venho a Portugal de férias para ver a minha mãe. O meu irmão anda embarcado num barco mercante… Sei lá qual é o barco!
Recorda-se de o terem levado para a cela, os pés inchados, quase não conseguia tirar os sapatos, não soube a que horas entrou, quanto tempo o deixaram descansar, um sono agitado, sonhou que caía a um poço, talvez o tivessem empurrado, nunca mais chegava lá abaixo.
Voltaram a metê-lo dentro de uma carrinha fechada, desta vez só, sentia-se dentro do poço do sonho, percebia as voltas, muitas voltas que deu até se encontrar dentro do Forte de Caxias.
Tudo pintado de branco, o Álvaro avançava penosamente, arrastando os pés, os olhos ardiam-lhe da intensidade da luz. Mais papéis para preencher, um molho de roupa, “vamos” disse-lhe o guarda virando-lhe as costas, sem se importar em saber se o seguia ou não.
A cela branca, a cama em cimento com estrado de madeira, uma luz fraca, um balde. Dois metros para lá, dois metros para cá. Um dia no isolamento pareceu-lhe uma semana, a semana pareceu-lhe um mês. Voltou à sala de interrogatório, os camaradas das celas vizinhas disseram palavras de alento “Aguenta-te rapaz que eles não valem nada”.
Aguentou-se, também não tinha nada para contar, disse-lhes tantas vezes “vocês prenderam-me por engano”, riram-se, não acreditavam. Os pés, as pernas, os joelhos estavam novamente inchados, quase não conseguia andar no regresso à cela. Teve de ser amparado pelo guarda que o levou para outra cela, a 157. Já lá estavam três prisioneiros que o olharam com desconfiança.
- De onde és, pá?
- De Âncora.
- Onde fica isso?
- No norte, perto de Viana.
- Aquela é a tua cama. Vai-te deitar que tens essas pernas uma miséria. Cambada de filhos da puta. Não adiantou nada o velho ter caído da cadeira, o Marcelo é a mesma merda!
Não regressou aos interrogatórios, parecia que se tinham esquecido dele. O irmão visitou-o duas vezes enquanto o barco esteve atracado em Lisboa. As semanas passaram, aprendeu muito de política nesses dias, em conversa com os seus companheiros.
“Senhor Álvaro, pegue nas suas coisas e venha comigo” dissera-lhe o guarda que o conduziu à portaria sul onde o esperavam para o meter, junto com a mala que trouxera da Bélgica, na malfadada carrinha fechada.
Mais voltas pela cidade, pára a viatura, abre-se a porta traseira, é-lhe dito para sair. A carrinha arranca novamente, o Álvaro vê-se só na rua de prédios antigos, ao fundo o rio, muito ao fundo.
Passa um táxi, faz-lhe sinal, manda-o seguir para Santa Apolónia. Era noite quando chegou a casa, os amigos vieram visitá-lo, logo que souberam da sua chegada. Não lhe apetecia sair, não queria sair de casa, passava horas deitado sobre a cama a olhar para o tecto, vendo as espirais de fumo do cigarro perderem-se no ar.
Ainda voltou a ser ameaçado pelo agente da PIDE de Caminha, o Mendes que lhe disse com ar de superioridade, “veja lá senhor Álvaro, veja lá, é melhor não se meter mais em problemas”.
Devolveram-lhe o passaporte, no dia seguinte meteu-se no comboio em direcção a Bruxelas. Voltou a Portugal em Agosto de 1974, quando os PIDES já estavam presos ou em fuga.
Simplesmente de estarrecer. Quantos "Álvaros" não devem ter passado pelos corredores da António Maria Cardoso, pelo Forte de Caxias e por outros tugúrios semelhantes...
ResponderEliminarMeu pai esteve preso tão somente por ousar atravessar a fronteira em busca de vida melhor.
Um excelente relato, muito importante para que as pessoas não esqueçam.
Obrigado pela visita e comentário. Embora seja ficção, este conto inspira-se na prisão de um amigo meu, cujo único crime foi ter aberto os olhos.
ResponderEliminarAbraço
BR