A bela e o monstro V

Acabaram por se encontrar todos nas Urgências do hospital. O gago tinha um olho negro e uma perna partida e só pedia para o ajudarem a levantar, para ir torcer o pescoço daquele condutor maluco, que os ia matando a todos.

O Gonçalves “Adesivo” tinha fracturado uma clavícula e insistia em contar a sua versão dos acontecimentos a todos os médicos e enfermeiros que se aproximavam. Rapidamente foi isolado para uma zona de segurança que ninguém se atrevia a ultrapassar, para não ter de aturar o chato.

O pencudo estava algemado à maca, com a cabeça toda vendada pois tinha feito uma aterragem de cabeça, por não ter colocado o cinto, fracturara o nariz, um maxilar, alguns dentes e diversos golpes profundos na caixa dos pirolitos. Agora é que aquilo não iria funcionar!

O Bertinho aparentemente nada tinha, mas umas radiografias confirmaram umas costelas afundadas, pelo que tinha sido todo ligado e nem a injecção que lhe tinham aplicado, aliviava as dores.

Para o Simplício, tinham sobrado uns arranhões ligeiros e hematomas por todo o corpo, nada que tivesse abafado o hálito a bagaço, que empestava cada vez que abria a boca. No grupo faltava o Lopes, que ainda não tinha saído da sala de operações, para a extracção de alguns chumbos, que estavam alojados no fundo das costas; bem, um pouco mais abaixo que o fundo das costas. Nada de grave, porque o tiro passou de raspão. Digamos que ficou com o cu a arder, e de que maneira!!!

Mas como é que o pobre do Lopes tinha levado um tiro? Simples, na confusão que se gerou dentro do carro depois do acidente, o “Adesivo” aproveitou para dar uma cotovelada maldosa no focinho do gago, por isso o olho negro, que involuntariamente premiu o gatilho da espingarda, indo atingir o Lopes, que tinha ficado atravessado de cu para o ar, no colo dos companheiros. Cada vez é mais perigoso um tipo pôr-se de cu para o ar. Já não há respeito!

 

Na vila, as notícias corriam depressa e os pormenores do acidente já eram do domínio público. A rádio local estava a transmitir em directo, não fosse o Bertinho um ex colaborador da estação, que às vezes ainda lá dava uma ajuda, principalmente em época de eleições, para fazer cobertura das campanhas e para entrevistar os candidatos. Hoje a reportagem do exterior era da responsabilidade do Agostinho Moravitch, filho de um ucraniano e de uma portuguesa, um jornalista que tinha estagiado na SIC, mas que continuava a colaborar com a rádio que ajudara a fundar. Tinha por habito começar os programas dizendo “Ora muito bem, senhores ouvintes”, pronunciando “ouvintes” como “óbintes”.

 

Foi preciso amparar Júlia Gaiteira, pois ao saber que o seu Simplício também fora apanhado e ia em charola para o hospital, tinha pura e simplesmente desmaiado com a emoção. Um copo de água açucarada e um pouco de repouso numa cadeira, tinham-na despertado, embora com um ar apalermado.

- Oh mulher, não te apoquentes, bem ouviste que o teu homem foi ao hospital, só por precaução. Até entrou na ambulância pelo seu próprio pé. Vá, bebe mais um gole de água que te faz bem.

- Quem parece que está todo partidinho é o Sr. Gonçalves e o Lopes. Até lhe deram um tiro. Se calhar não se safa desta.

- Só para os tirarem de dentro do carro estiveram mais de meia hora.

 

Nessa mesma noite o “Adesivo” e o Simplício tiveram alta e foram despachados na mesma ambulância para as respectivas residências. A Júlia esperava ansiosa pelo seu Simplício, tentando ao mesmo tempo consolar a Inês, que estava desde meio da tarde banhada em lágrimas.

-Inês, minha filha, não foi nada, ele já está aí a chegar. Só está todo dorido das pancadas que levou no acidente.

Mas nada parecia acalmar a pobre rapariga. Chega a ambulância e as duas correm para as postas traseiras, que já estão a ser abertas pelos socorristas. O Simplício sentado num banco e o “Adesivo” deitado na maca, com a cabeça ligada e o braço imobilizado.

- Oh filho, que te aconteceu, podias ter morrido – lamenta-se a Júlia.

- Não foi nada, não foi nada – diz o Simplício.

- Então, não havia outra ambulância? Tiveste que vir a aturar aquele sujeito. Bem podia ter lá ficado, raio do homem…

- Por tua causa é que fomos todos para ao hospital – acusa o “Adesivo”, apontando a Júlia com um dedo.

- O quê??? Por minha causa?

- Sim, se não deixasses sair da tua loja, o desgraçado do teu empregado e se o teu homem não se atravessasse no caminho, não estávamos nesta situação. Por isso, a culpa é tua.

Uma fúria enorme cresceu dentro do peito da Júlia, que avançou decidida para dentro da ambulância, enquanto dizia:

- Aqueles maricas não te deram um tiro, mas eu vou partir-te os cornos, ai vou, vou, meu desgraçado.

- Calma, calma D. Júlia – dizia um dos socorristas, que também era mordomo e conhecia bem o feitio explosivo da Júlia – vá lá tratar do seu marido e deixe o Sr. Gonçalves tranquilo.

 - Deixar tranquilo esse, esse… só não digo uma asneira, porque não sou mal-educada como ele. Vamos Simplício, anda filho, anda para dentro.

- Júlia, oh Júlia, sabes porque é que o teu homem não teve nada? – Pergunta o “Adesivo” estendido na maca - Porque ao menino e ao borracho, põe Deus a mão por baixo, ah, ah, ah…

E o verniz da boa educação da Júlia estala de vez!

- Ah, seu grande filho da puta, agora é que te vou foder os cornos…

Só que já era tarde, pois a ambulância afastava-se tranquilamente pela calçada abaixo, em direcção à vila.

 

 

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